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entrevista exclusiva

Ingrid Guimarães conversa com O POVO sobre filme "De Pernas Pro Ar 3"

A atriz passou por Fortaleza, fazendo a promoção de seu mais novo filme

15/04/2019 10:30:34
Ingrid Guimarães
Ingrid Guimarães(Foto: AURELIO ALVES)

Ela é um dos rostos mais conhecidos do público brasileiro. Ingrid Guimarães estreou "De Pernas Pro Ar 3" - produção que encerra uma aplaudida trilogia - na última semana. De passagem por Fortaleza, a atriz recebeu O POVO com exclusividade para uma conversa sobre feminismo, cinema nacional e humor.

O POVO - Você tem pouco mais de 40 anos. É muito jovem! Mas vi algumas entrevistas suas nas quais era questionada sobre como lidava com o “envelhecer”. Você acha que existe uma pressão para estar sempre “jovem”? E nós exigimos que nossas atrizes, as atrizes brasileiras, estejam em um lugar de idade muito baixa?

Ingrid Guimarães - Acho que o Brasil tem um problema, que tem a ver com a falta de memória. Você viaja para a Europa e ser velho é um sinônimo de qualidade, de sabedoria. E aqui tem um pouco essa história, principalmente no nosso meio, que envelhecer é perder lugar. Apesar de que acho que isso está mudando. O movimento feminista traz isso também. Um lugar de que “calma aí, o nosso valor não está na roupa, não está no cabelo, não está no rosto, está nas nossas atitudes”. E coincidentemente o filme fala disso. Sobre uma mulher que chegou ao máximo de sucesso na vida e entrou outra no lugar dela. Como é isso? A gente realmente tem que brigar com a outra pessoa para ter espaço. Ou o que é mais interessante seria a gente se unir. Uma das questões do filme é essa: chega uma menina falando sobre sexo virtual, realidade virtual, óculos virtuais. E por mais bem-sucedida que a gente seja, a gente nunca vai ter o frescor de quem está chegando. Eu acho que cabe a nós mulheres, a cobrança é sempre a mesma. Claro que a cobrança é sempre a mesma. Coloquei um vídeo meu fazendo rainha de bateria que eu vou gravar para uma novela. Coloquei um vídeo meu gravando, mas não expliquei que era da novela. Vi uma mulher comentando “nossa, você rainha de bateria, você não tem idade”. Respondi que o mais estranho é um comentário desse vir de uma mulher. E quem disse que tem idade? Suzana Vieira foi rainha de bateria. Tem que começar primeiro pela própria mulher. Cabe a nós tirarmos todo esse esteriótipo de que tem idade para que. Tem idade pra que?

O POVO -Nós, mulheres, somos ensinadas a ter rivalidade umas com as outras?

Ingrid Guimarães - Acho que não só ensinadas. A minha mãe não me ensinou a ter rivalidade nenhuma. Tenho duas irmãs e a gente nunca competiu em nada. A gente teve uma educação de inclusão. “Só vai se sua irmã for, se você achar tem que dividir por três”. Mas o mundo tem aquela velha história, né, vai com a mesma roupa que uma mulher numa festa, se você é famosa então, todo mundo tira uma foto. Dois homens com a roupa igual ninguém nem percebe. O mundo foi feito para que a gente competisse. E acho que isso está mudando muito. E eu quis muito falar disso no filme, sobre essa pseudo competição e como isso é uma bobagem. E quem está ensinando muito isso para a gente são os próprios jovens. No filme, a samia pascotto, traz essa observação de dizer “ei, velho, é você achar que vou roubar o seu lugar”.

O POVO - Você se considera feminista?

Ingrid Guimarães - Com certeza! Eu me considero feminista pois fui criada por uma mulher e em uma família absolutamente feminina. Não tem homens na minha família. Somos três irmãs, cada uma tem duas filhas. E a minha mãe, apesar de ter nascido em uma época em que separar ainda era estranho, é uma mãe que sempre trabalhou. Ela é uma advogada de petróleo, sempre foi bem-sucedida, sempre trabalhou muito, sempre educou a gente de maneira incentivando a ter nossa própria história. Eu sempre olhei a mulher de uma mulher agregadora e, desde criança, sempre fui fora do padrão. Perdi um tempo da minha vida tentando entrar no padrão. E depois que tive um clique na minha vida através da minha arte - de perceber que o meu diferencial era o melhor - eu vejo hoje que cada vez mais o movimento feminista veio para reiterar que o mais legal de ser mulher é ser quem a gente é sem nenhuma imposição de nenhum lugar.

O POVO - Como você lida com as atribuições diárias e a maternidade?

Ingrid Guimarães - Como toda mãe lida. Tentando equilibrar os pratos. Uma hora um prato quebra, outra hora o prato quebra. A Clara é a minha prioridade. Tento não fazer dois trabalhos ao mesmo tempo. E entre um trabalho e outro, seu sempre tiro férias. Fico com ela, levo ela. Ela é a minha prioridade e explico tudo. Aquela cena do filme, quando ela fala para a menina o porquê de voltar a trabalhar, a cena é minha. E é uma conversa que eu tenho com a minha filha. Eu tento explicar para ela que não trabalho para comprar o vestido, trabalho proque gosto muito. E quero que ela goste muito também do que ela for fazer.

O POVO - E como é não ser apenas dirigida, mas se colocar na função de diretora, roteirista e produtora?

Ingrid Guimarães - Eu amo. Eu sou contratada da Rede Globo e faço trabalhos lá. Meu trabalho como produtora e autora dos meus programas, desde o Mulheres Possíveis, que fiz alguns anos atrás, até o Além da conta, que fez muito sucesso, e o Viver do Riso, eles são onde eu consigo realizar o meu desejo artístico. É uma coisa até difícil de fazer na televisão aberta, onde você tem que entreter as pessoas. Eu fico até muito honrada quando o Viver do Riso passou na Globo, agora. Inclusive, vou estrear outro programa em agosto, chamado Tem Wifi. Eles são todos programas que eu consigo realizar o meu desejo, consigo me realizar como uma idealizadora. O Viver do Riso surgiu a partir dessa sua primeira pergunta: como envelhecer fazendo humor? E comecei a questonar, pesquisar, e veio esse documentário que eu acho lindo.

O POVO - É o trabalho da tua vida?

Ingrid Guimarães -É um trabalho para onde eu fui para um lugar totalmente pessoal da minha vida. Tenho 25 anos de carreira. É um dos trabalhos mais especiais da minha vida, pois fala sobre mim e sobre os meus.

O POVO - E como é lidar com o humor nesses tempos de tantas vozes caladas?

Ingrid Guimarães - Você tem que ter bom-senso, você tem que pensar bem antes de falar e escrever algumas coisas. Muitas coisas são chatas, pois a gente não pode mais falar nada. Mas muitas coisas acho que deveriam já ter sido mudadas - como por exemplo essa história de você brincar com minorias, se pintar de pretos, e todas essas questões que inclusive estavam no documentário (Viver do Riso). São questões que tardiamente foram faladas. Da minoria, de brincar com o outros e não com você mesmo. É algo que sempre me incomodou. Tem um lado muito bom, mas também acho que tá chato. Pois, por exemplo, politicamente, a gente não pode brincar com mais nada. Sendo que a vida inteira a gente sempre brincou com isso e o humor é importante para ter um respiro.

O POVO - O humor é muito machista?

Ingrid Guimarães - Melhorou muito! Quando eu comecei a carreira, principalmente a comediante, era sempre a ótica da feia ou da gostosa. Eu acho que as próprias mulheres - com Dercy Gonçalves e Roberta Loren - foram fazendo o pé na porta e abrindo umas para as outras. Hoje, eu estou fazendo um filme onde uma comediante protagonizou e falando sobre sexo. E estou aqui no terceiro filme, protagonista, falando sobre sexo e sem ser de maneira estereotipada. Uma mulher normal, bonita, que tem família. O De Pernas pro Ar é um exemplo de que mudou muito, o mercado se abriu muito e o público quer ver uma mulher normal. A mulher virou protagonista no humor agora, mas é de pouquissímo tempo para cá. E no documentário (Viver do Riso) é possível ver isso muito claramente.

O POVO - Tanto o ‘De pernas pro ar’ quanto o ‘Fala Sério, Mãe!’ - duas de suas produções recentes de maior sucesso -

Ingrid Guimarães - Eu perco pra Xuxa e pra Sonia Braga. Acho muito chique perder pra Sonia Braga… Pra Xuxa também, que é um fenômeno da minha infância.

O POVO - Mas não é uma derrota, né?

Ingrid Guimarães - Derrota? Jamais! É uma honra.

O POVO - Mas você sente a pressão de ser vista? Do público querer te ver?

Ingrid Guimarães - Acho que é uma alegria absoluta. Eu não sou mais uma menina, eu não sou mais uma jovenzinha. Em um país onde se fala tanto de juventude, acho maravilhoso e é uma coisa que construí ao longo dos anos na minha vida. É um público que fui construindo. E tem uma coisa que gosto muito de estar com jovens, gosto muito de ouvir o que eles pensam e estou sempre pensando em me atualizar. Mas é claro, estou na semana da estreia, é uma aflição. Será que vai dar certo? O filme está muito bem falado e as pessoas estão loucas para ir. Mas aí a comprar o ingresso e ir… é sempre uma emoção estrear um filme.

O POVO - É difícil, então, estrear um filme aqui?

Ingrid Guimarães - A gente tá muito submetido ao filme americano. A gente estreia entre um super-herois e outro! Ir ao cinema hoje é quase um ato político, assistir comédia brasileira. É muito importante as pessoas irem nas duas primeiras semanas do filme. Importante ir logo. Se não for de cara bom, ele sai e entra o super-heroi americano e a animação americana. Se nós brasileiros não fizermos um movimento conjunto… hoje várias pessoas me ligaram pedindo o trailer para postar. Movimento da gente tentando valorizar o nosso próprio cinema. A gente tem que fazer essa mobilização. A nossa briga não é com a gente mesmo. Um cinema tem que apoiar o outro.

O POVO - Você sente falta de ter uma dupla? Sente falta da Heloísa Perissé?

Ingrid Guimarães - Sinto, sinto muita falta. Outro dia estava falando que estou muito sozinha lançando esse filme. E adoro quando tem dupla. Ano que vem vou fazer outro vilme de dupla, vou voltar, vou fazer com a Tatá Werneck.

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Isabel Costa