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Tecnologia
"avô" dos memes

A história por trás do 1º vídeo viral da internet

Vídeo gravado e difundido antes de Facebook, Twitter e Orkut, o "avô" dos memes completa 20 anos

17:21 | 26/01/2018

Câmera flagra momento em que funcionário de empresa tem acesso de fúria e destrói computador
Câmera flagra momento em que funcionário de empresa tem acesso de fúria e destrói computador. (Foto: Reprodução/ YouTube)

Duas décadas depois, a obra Homem destrói o computador é seguramente um desses momentos que fundam uma cultura, inventam uma civilização, estabelecem paradigmas. Que depois serão derrubados, ridicularizados, espezinhados.

É sintomático que um dos primeiros vídeos a viralizar na internet seja o de um homem branco destruindo o seu grande e lento computador a golpes de teclado durante um acesso de fúria.

Foi há pouco mais de 20 anos. Precisamente, 1997. Encerrado num cubículo, um executivo numa empresa do Colorado, Estados Unidos, parece irritado com a máquina sobre a mesa, certamente um desses PCs rodando Windows 1995, que levavam intermináveis cinco minutos para ligar e travavam a cada duas horas por causa dos bugs do software de Bill Gates, espécie de Velhinha de Taubaté se comparado a outros grandes do Vale do Silício atualmente.

O vídeo é curto. Tem 26 segundos. Nele, o homem se curva sobre o PC antes de estapeá-lo. Em seguida, passa a socar o teclado, que depois usa para atingir o monitor, jogando-o longe. Não satisfeito, o executivo se levanta e desfere pontapés no desconjuntado aparato de informática e sai xingando pelos corredores da companhia. Fim.

Vê-lo hoje é como assistir ao Big Bang da era da internet e do zeitgeist volátil das redes sociais: explosão de fogo e raiva, energia rodopiando, planetas se modelando a velocidades impressionantes, as primeiras formas de vida e, voilà, os seres humanos, que levaram milhões de anos para ficarem prontos. E agora estão ali avançando impiedosamente sobre um computador pessoal inventado por eles mesmos não muitos anos antes.

Mas o que esse viral jurássico fala sobre as redes hoje? Aqui e ali, trechos da peça atravessam os feeds de Twitter e Facebook como lascas de um meteoro que atingiu a Terra e exterminou algum modo de vida que ainda não sabemos direito qual é.

Não somente porque o vídeo demonstra cabalmente nossa inabilidade tecnológica para lidar com as vicissitudes de um mundo cada vez mais regido pela conexão entre as pessoas. Mas, sobretudo, por uma razão que, à época, ainda demoraria um tempo para vir à tona: o vídeo era falso. Melhor: era uma ação destinada a melhorar o desempenho de vendas de um novo produto.

 

O cara imenso e meio calvo que aparece nas imagens é Vinny Licciardi, gerente da Loronix Information Systems, empresa especializada em sistemas de segurança. Em 1997, em busca de uma ideia que pudesse alavancar a promoção de um modelo de vigilância eletrônica recém-criado, eles tiveram a ideia de gravar o próprio gerente em circunstâncias pouco usuais.

Foram duas tomadas. A primeira foi imediatamente descartada. O motivo era trivial: a equipe que acompanhava as filmagens não conseguiu segurar o riso quando o ator/gerente arremeteu contra o computador. Decidiram gravar mais uma. Deu certo. O vídeo foi encartado junto a uma brochura de divulgação do material e enviado ao mercado.

Pouco tempo depois, a Loronix passou a receber ligações. Primeiro, duas ou três por dia. Em seguida, uma dúzia delas, todas relatando problemas com seus tímidos servidores de email causados pelo sucessivo compartilhamento do vídeo do homem destruindo o seu computador. Terminava ali o anonimato de Vinny Licciardi, catapultado para uma fama que, passados 20 anos, ainda resiste. Nascia, então, o meme.

De lá pra cá, uma infinidade de piadas virtuais e gags se alastraram pela internet, mas esses poucos segundos durante os quais um americano médio ataca uma máquina que deveria ajudá-lo nas tarefas cotidianas são suficientes para explicar exatamente como viemos parar aqui. E por quê.

Dia ruim, como foi batizado depois de ter sido upado no Youtube em julho de 2006, plataforma na qual ganharia milhões de visualizações, é um filmete, talvez o primeiro, a antecipar o ethos das redes sociais. Estão ali a raiva, a entropia e a resolução pessoal de sair no tapa com quem tem uma opinião divergente. A única diferença é que não agredimos mais os PCs, mas uns aos outros.

O fato de que tenha sobrevivo em meio a tanto entulho virtual é sinal de que algo nele diz mais do que meramente a possessão incontida de um usuário de computador às voltas com seus demônios: é a prova de que a sociedade global dos anos 1990, embevecida ante as promessas de ecumenismo e progresso ilimitados, já tendia a se tornar uma grande caixa de comentários.

Espécie de elo perdido da internet atual, a peça é também uma tradução da era Trump, na qual não se sabe ao certo o que é mentira ou verdade e as notícias, agora banidas do Facebook por uma alteração no algoritmo da empresa, se confundem com as piadas que contamos no intervalo do café.

HENRIQUE ARAúJO