Brasileiros testam micropartícula para reduzir inflamação intestinal

Resultados abrem caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos orais contra doenças como a de Crohn e a retocolite ulcerativa; entenda

Uma pesquisa feita por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e do Hospital Israelita Albert Einstein conseguiu reduzir a inflamação no tecido intestinal de animais de maneira inédita: um pedaço de uma proteína com propriedade anti-inflamatória inserido em uma micropartícula foi direcionado, de maneira segura e bem-sucedida, até o local esperado de sua ação.

Os resultados abrem caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos orais contra doenças como a de Crohn e a retocolite ulcerativa. O artigo foi publicado no International Journal of Nanomedicine.

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As doenças inflamatórias intestinais afetam, principalmente, o intestino grosso e causam sintomas como diarreia, sangue nas fezes e perda de peso, além de aumentarem o risco de câncer colorretal. Costumam acometer jovens, que precisam conviver com a doença ao longo da vida.

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Embora a causa não seja bem conhecida, sabe-se que há fatores genéticos e ambientais envolvidos, como hábitos que alteram a microbiota intestinal. Não há cura para esses transtornos e os medicamentos utilizados apenas controlam a inflamação.

Pesquisa busca medicamentos orais mais efetivos contra inflamação intestinal 

O objetivo dos autores era testar a possibilidade de administrar medicamentos via oral, já que atualmente os mais efetivos são injetáveis e, além de caros, muitos pacientes não respondem bem ao tratamento. “Queremos otimizar a entrega de medicamento para esses pacientes que são muito debilitados”, diz a biomédica Milena Broering, autora da tese de doutorado que originou a pesquisa.

“Nossa proposta era buscar uma tecnologia barata, acessível e capaz de ser administrada por uma via não invasiva”, conta a farmacêutica Sandra Farsky, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (FCF-USP) e orientadora da tese.

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Para isso, os pesquisadores escolheram uma proteína produzida pelo organismo, a anexina A1, que tem efeitos anti-inflamatórios conhecidos e que consegue induzir a reparação dos tecidos. Um peptídeo (isto é, um pedaço da proteína) responsável por ativar essas reações foi colocado em uma micropartícula — uma espécie de cápsula — capaz de carregá-la intacta por todo o trajeto até o local da ação, sem ser degradada no processo.

Para reforçar a proteção, o dispositivo ainda foi revestido por um polímero, material que atua como se fosse um escudo.

Estudo em camundongos tem resultados promissores

A micropartícula contendo a proteína foi administrada durante quatro dias em camundongos que tiveram a doença inflamatória intestinal induzida. Nesse período, os cientistas monitoraram sintomas como perda de peso, sangue e consistência das fezes para avaliar o efeito do tratamento. “Já no primeiro dia vimos uma redução dos sintomas e dos sinais clínicos da doença”, conta Broering.

Para verificar se a nanocápsula estava chegando ao local correto, o trajeto foi monitorado pelo grupo de nanobiotecnologia do Hospital Israelita Albert Einstein com auxílio de um tomógrafo de fluorescência IVIS.

“Esse equipamento permite ver a biodistribuição do material e conseguimos observar que o fármaco chegou ao local adequado no tempo certo”, relata o pesquisador Lionel Gamarra, do Einstein. “A pesquisa abre possibilidade de administração de remédios por vias não invasivas.”

Por fim, uma análise de amostras do intestino dos animais revelou que a nanopartícula carregando o peptídeo controlou a resposta inflamatória e induziu a regeneração dos tecidos.

O desenvolvimento de um medicamento é um processo longo, com muitas fases e pode levar décadas. “Esse é um passo inicial que abre boas perspectivas, em especial por mostrar que a nanopartícula levou o peptídeo até o local da inflamação por via oral”, diz Sandra Farsky.

“A possibilidade de tratamentos não invasivos, como pela via oral, é desejável para o tratamento de doenças crônicas com morbidades graves, como as causadas pelas doenças inflamatórias intestinais.” (Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein)

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