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O que se sabe sobre o papel da vacinação infantil no combate à pandemia

Agência Europeia de Medicamentos deu luz verde à imunização de crianças a partir dos 12 anos com produto da Pfizer. Mas elas têm mesmo que ser vacinadas? Especialistas dizem que sim

00:04 | 31/05/2021

Qual é a situação mundial das vacinações contra covid-19 para crianças e adolescentes? Nos EUA e no Canadá, a vacina produzida pelas empresas Pfizer e Biontech tem sido usada em adolescentes e crianças mais velhas há várias semanas. Nesses países, vários milhões de jovens de 12 a 15 anos já foram vacinados com o imunizante. Na União Europeia, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) também deu luz verde nesta sexta-feira para a vacinação de adolescentes de 12 a 15 anos. Até então, a aprovação era indicada para pessoas a partir dos 16 anos.

Para ter consequência prática, a decisão da EMA precisa receber o aval da Comissão Europeia. Mas isso é um detalhe tido como meramente burocrático. O governo alemão já manifestou intenção de vacinar crianças e adolescentes. O Japão planeja aprovar em breve a vacina da Pfizer-Biontech para menores a partir dos 12 anos. A Moderna também anunciou que apresentará em junho pedidos de aprovação mundial da sua vacina contra o coronavírus para crianças e adolescentes. Em um estudo clínico com participantes com idades entre 12 e 17 anos, o inoculante mostrou uma eficácia de 100% e foi bem tolerado, de acordo com a empresa.

Apesar desses avanços, ainda há discussões sobre a utilidade da vacinação de crianças e adolescentes contra a covid-19. Vários médicos alemães divulgaram um documento recentemente chamando a atenção sobre os aspectos a serem levados em consideração quando o assunto é vacinação contra o coronavírus para crianças. A DW analisou alguns argumentos comuns sobre o assunto.

Qual é o papel das crianças de 12 a 15 anos no combate a pandemias? Elas são suscetíveis à covid-19? E quanto à segurança da única vacina aprovada até o momento para crianças e adolescentes? A DW concentra-se apenas nos fatos. Questões éticas relativas à avaliação risco-benefício e aos direitos fundamentais de crianças e adolescentes não são examinados nesta checagem.

Não seria suficiente vacinar adultos para proteger as crianças por meio da imunidade coletiva?

A suposição de que as crianças podem ser protegidas contra a covid-19 vacinando adultos isoladamente está errada. Estatisticamente, a proporção de crianças e adolescentes na população mundial é alta demais para ser deixada de lado ao se considerar a meta de imunidade de rebanho contra a covid-19 pela vacinação. Há um ano, a OMS considerava necessária uma taxa de vacinação de 60% a 70% para que isso ocorra. Atualmente, muitos especialistas, incluindo o principal imunologista americano, Anthony Fauci, corrigiram esse número para até 85% e, em vista das novas variantes, até expressaram dúvidas sobre a possibilidade de atingir esse objetivo. Na Alemanha, o chefe do Instituto Robert Koch, Lothar Wieler, presume que "bem mais de 80%" da população devem ser imunizados, por meio de vacinação ou de uma recuperação da doença, para que a pandemia possa ser superada.

Entretanto, segundo estimativas do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (UN DESA, na sigla em inglês), a proporção de crianças e adolescentes até 17 anos na população mundial é de cerca de 30,2%, o que corresponde a cerca de 2,35 bilhões de pessoas. A proporção de pessoas com menos de 18 anos é significativamente menor na Alemanha, cerca de 16,4% da população. Portanto, pode-se supor que, no caso da Alemanha, a vacinação de todos os adultos seria suficiente. Afinal, cerca de 42% da população já foram vacinados pelo menos uma vez. No entanto, a associação alemã de pediatras recomenda a vacinação também para jovens de 12 a 16 anos no país, considerando a meta numérica para se alcançar a imunidade de rebanho, já que nem todos o adultos do país se dispõem a ser vacinados.

Existem preocupações semelhantes em outros países também, confirma Karina Top, pesquisadora canadense de vacinas e especialista em doenças infecciosas pediátricas da Universidade Dalhousie. "Alcançar a imunidade coletiva depende da vacinação de adultos em número suficiente. E sei que muitos países estão preocupados porque muitos adultos não querem ser vacinados. Por exemplo, estamos vendo a campanha de vacinação dos EUA desacelerar enquanto todas as pessoas que queriam já se vacinaram", afirma.

"Agora chegamos ao grupo que é mais difícil de ser convencido. Por isso, vacinar crianças e adolescentes é importante."

As crianças e adolescentes estão fora de perigo porque têm menos probabilidade de desenvolver doenças graves e a taxa de mortalidade entre eles é menor?

Dizer em geral que crianças e adolescentes não desenvolvem quadros graves é enganoso. É verdade que, de acordo com especialistas, a maioria das crianças tem evolução assintomática ou leve da doença. Por exemplo, um estudo italiano de 2020 concluiu que adolescentes com menos de 18 anos têm menor risco de adoecer gravemente. De 3.836 menores doentes, 4,3% tiveram um curso grave, quatro deles morreram.

Cardiologistas pediátricos internacionais afirmam que apenas de 0,6% a 2% das crianças precisam ser tratadas em unidades de terapia intensiva. E insuficiência cardíaca também ocorre muito raramente nelas após infecções. De acordo com a Academia Americana de Pediatria, 3,85 milhões de crianças testaram positivo para a covid-19 desde o início da pandemia nos Estados Unidos. Destas, uma parcela de cerca de 0,1% a 1,9% teve que ser tratada em hospital. No geral, uma fração de cerca de 0,3% das crianças infectadas morreu (cerca de dois terços dos estados americanos forneceram dados para o levantamento).

De acordo com o Ministério da Educação da Alemanha, as crianças são infectadas com a mesma frequência que os adultos, mas em geral adoecem mais raramente. "Essa diferença que depende da idade também é algo conhecido em outras doenças infecciosas e é atribuída ao fato de que as células imunológicas de crianças e adolescentes reagem aos patógenos de maneira diferente das dos adultos", escreve a pasta em seu site.

O sistema imunológico parece funcionar menos eficazmente com a idade. No entanto, ainda não foi investigado se isso também se aplica a uma infecção por coronavírus.

É possível se usar o mesmo inoculante contra covid-19 em crianças?

Os estudos sobre os efeitos das vacinas contra o coronavírus em crianças e adolescentes são atualmente muito limitados — as vacinas são geralmente testadas pela primeira vez em adultos. A vacina Pfizer-Biontech para crianças entre 12 e 15 anos foi aprovada pela EMA com base em um estudo com 2 mil crianças dessa idade. Das cerca de mil que receberam a vacina, nenhuma foi diagnosticada com covid-19. No grupo que recebeu um placebo, 16 foram infectadas. No Canadá e nos EUA, o medicamento da Pfizer-Biontech foi aprovado após um estudo com 2.260 participantes da mesma idade. Deles, 1.131 receberam a vacina. De acordo com a empresa, a vacina é 100% eficaz nessa faixa etária – mais eficaz do que em qualquer outro grupo testado até agora.

A pesquisadora canadense de vacinas Karina Top considera razoável o número comparativamente pequeno de participantes do estudo. "Temos muitos dados e experiência de jovens de 16 anos ou mais que participaram de estudos maiores. Mais de 100 milhões de doses de Pfizer-Biontech foram aplicadas em todo o mundo, então temos experiência e informações sobre a eficácia e a segurança desta vacina", afirma. A especialista avalia que sobretudo os resultados semelhantes na faixa dos 16 aos 25 anos tornaram sensato a ampliação da aplicação à faixa etária dos 12 aos 15 anos. "Mesmo assim, precisamos continuar monitorando a segurança das vacinas depois de aprovadas para uso público, porque mesmo quando não se encontram eventos adversos raros em 30 mil pessoas, eles podem ocorrer entre 100 mil ou um milhão”, alerta a cientista.

Quanto à vacinação contra covid-19 para crianças menores de 12 anos, especialistas afirmam ser problemático o uso sem adaptações de uma vacina para adulto em crianças. "Por si só, não é incomum que o mesmo tipo de vacina seja usado em crianças e adultos", explica Karina Top. Às vezes, como acontece com a vacina contra o tétano, a fórmula para bebês é diferente daquela para crianças e adolescentes. Outras vacinas usam diferentes números de doses para diferentes grupos de idade. "Por exemplo, com a vacina contra o HPV, podemos dar duas doses a pessoas com menos de 14 anos, pelo menos no Canadá. Mas os maiores de 15 anos precisam da terceira dose porque a resposta não é tão forte."

O sistema imunológico de crianças menores reage às vacinas de maneira diferente do que o de adolescentes e adultos, dizem os especialistas. Portanto, é necessária uma pesquisa detalhada sobre a dosagem segura e eficaz da respectiva vacina. A Pfizer-Biontech está atualmente conduzindo estudos com crianças entre seis meses e 11 anos. Fabricantes de vacinas como Moderna, AstraZeneca e Johnson & Johnson também estão testando suas vacinas em crianças menores – ainda não há resultados.

Autor: Tetyana Klug, Kathrin Wesolowski, Ines Eisele