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Saúde
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Substância de origem vegetal pode ser útil contra coronavírus

00:03 | 01/02/2021
Pesquisa canadense mostra que o alcaloide colchinina reduz hospitalizações e até óbitos de pacientes de covid-19. Barata e de fácil acesso, ela pode ajudar a aliviar os sistemas de saúde. No entanto é altamente tóxica.A colchicina é um forte anti-inflamatório, descoberto há mais de 150 anos. Extraída da planta Colchicum autumnale, ela é empregada contra diversas doenças, como gota, artrite inflamatória e pericardite. Atualmente, no entanto, esse alcaloide não é mais a primeira escolha para um tratamento, já que, devido à sua alta toxicidade, só pode ser empregado em pequenas doses. Em 2010, a Colchicum autumnale foi eleita "planta venenosa do ano". Um grande estudo clínico do Canadá acaba de indicar que a colchicina é eficaz no combate aos efeitos do vírus Sars-Cov-2, com risco reduzido de complicações. Segundo os médicos participantes, os resultados constituem "uma importante descoberta científica". Em comunicado, o Montreal Heart Institute (MHI), afirma tratar-se do "primeiro medicamento oral, em todo o mundo, que poderia ser utilizado para o tratamento de pacientes de covid-19 não hospitalizados". Os dados foram compilados no contexto do projeto Colcorona, iniciado em março de 2020 no Canadá, Estados Unidos, Europa, América do Sul e África do Sul. Da intuição ao estudo representativo No estudo do MHI, a colchicina reduziu o risco de morte ou hospitalização de pacientes de covid-19 em 21%, em comparação com placebos. Num contingente total de 4.488 participante, esse resultado tem relevância estatística. Entre os 4.159 pacientes com diagnóstico de covid-19 confirmado por testes de reação em cadeia da polimerase (PCR), o alcaloide reduziu em 25% as hospitalizações, a necessidade de respiração mecânica em 50% e os óbitos em 44%. O coordenador da pesquisa, o diretor do MHI Jean-Claude Tardif, se disse satisfeito com os resultados: "Nossa hipótese era que os pacientes de covid-19 desenvolvem complicações devido a uma hiperreação inflamatória, desencadeada pelos glóbulos brancos em resposta ao coronavírus, denominada hipercitocinemia." "Nossa intuição era que, com o emprego de um medicamento como a colchicina para reduzir essa inflamação excessiva, as complicações poderiam ser evitadas", explicou o professor de medicina da Universidade de Montreal. O trabalho de pesquisa confirmou essa intuição, e assim, a eficácia. Desse modo, o emprego da colchicina poderá ter "uma influência significativa para a saúde pública, possivelmente evitando complicações em milhões de pacientes de covid-19", espera Tardif. Grécia já adota a colchicina Já em junho de 2020 o estudo denominado Greco-19, de âmbito bem menor, constatara o potencial da colchicina para o combate ao novo coronavírus. Realizado com 105 participantes na Grécia, ele mostrou que ela podia ser útil, sobretudo em pacientes com potencial para um quadro clínico mais grave. O governo grego já liberou a prescrição da substância de origem vegetal para o tratamento da covid-19. Ainda não publicado, o artigo do projeto Colcorona ainda está sendo submetido à revisão independente por especialistas da área (peer review). Porém Tardif está desde já otimista de que "os resultados são conclusivos e convincentes, podendo ser aplicados imediatamente para vantagem dos pacientes". Assim, o diretor do MHI crê que se seguirá uma rápida verificação pelas agências de regulamentos, como a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) ou a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA. Afinal, a colchicina já está disponível nas farmácias, podendo ser logo empregada de forma segura e a baixo custo. Perigo de automedicação Por outro lado, a médica espanhola Mar García Sáiz chama a atenção para a conhecida toxicidade da colchicina: apesar de ser "um remédio muito antigo, seguro e barato", a automedicação representa um perigo. No caso de danos renais, por exemplo, ela pode provocar severos efeitos colaterais, interagindo negativamente com outras terapias. Por isso, a substância só deve ser tomada sob supervisão médica, insiste Sáiz. Independente disso, Tardif frisa as vantagens. "Nossa descoberta não será útil apenas na França, Canadá, EUA ou nos países do G8, mas também nas nações em desenvolvimento e pobres; na África, na Ásia, a colchicina barata, que pode ser tomada em forma de pílulas, poderá em breve ser útil." Há ainda uma vantagem decisiva: em meio à pandemia, a prescrição da colchicina aos pacientes de covid-19 pode contribuir para desafogar os hospitais e reduzir os custos da saúde em todo o mundo. Autor: Hannah Fuchs
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