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Cura que vem da terra

| Biofármacos | As "doenças negligenciadas", como as arboviroses, são o foco de estudos de plantas do semi-árido

05:00 | 04/02/2019
PROFESSORA Selene Maia de Morais, no Laboratório de Produtos Naturais da Uece
PROFESSORA Selene Maia de Morais, no Laboratório de Produtos Naturais da Uece

Para chegar pronto na embalagem final e ser utilizado pela população, um remédio passa por um longo processo de descoberta, pesquisas, testes, análises de mercado, produção industrial. Inúmeros fatores interferem nesse curso. Na maioria das vezes, não conhecemos de onde vem a matéria-prima que nos cura. Distante das empresas farmacêuticas e dos laboratórios de pesquisa privados, a universidade se destaca em estudos de grande envergadura. No Ceará, pesquisadores encontram plantas do semi-árido com potencial para mitigar dificuldades locais. Problemas cuja solução, muitas vezes, não vão ao encontro dos interesses do mercado farmacêutico, as doenças chamadas negligenciadas.

Essas enfermidades, causadas por agentes infecciosos ou parasitas e que são endêmicas em populações de baixa renda, bem como as doenças metabólicas, que podem levar ao aumento do risco de problemas cardiovasculares, são alguns dos objetos de pesquisa do Laboratório de Produtos Naturais da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Os estudos surgem do conhecimento popular a respeito da flora, oriundo, principalmente, de povos indígenas cearenses, explica Selene Maia de Morais, professora do curso de Química da Uece e uma das coordenadoras do laboratório.

Na universidade, são desenvolvidos pesquisas com plantas da Caatinga e das serras de Baturité e da Ibiapaba. O projeto Pesquisa e Desenvolvimento de Biofármacos a partir da Biodiversidade do Semi-Árido (Biofar) é financiado pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap/Finep), para pesquisas de estudantes da Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio) e do Mestrado em Recursos Naturais (Marena), por exemplo.

"A gente fez o trabalho químico de identificação da molécula em associação com pesquisadores da área de biologia, medicina e medicina veterinária. Tem a informação popular, então fazemos a coleta das plantas, o estudo químico, o trabalho interdisciplinar para chegar a um produto útil. Fazia os estratos, isolava os princípios, passava para as pessoas fazerem os testes farmacológicos, biológicos", detalha Selene sobre o processo.

Importantes no contexto de saúde pública, duas linhas de pesquisa têm o foco na dengue. "Uma linha é o controle do vetor e depois o controle do vírus da dengue, zika e chikungunya. Em relação ao aedes, a gente procura larvicidas dentro das plantas, substâncias que poderiam ser usadas no fumacê como armadilhas distribuídas em locais com maior concentração de mosquitos. No caso do antiviral, a gente tem duas frentes: as substâncias que matam vírus e a outra é uma tecnologia que cria uma vacina na planta. Em que pega o feijão de corda ou a nicotina, inocula o vírus, e a planta reage gerando o anticorpo na própria planta contra o vírus", explica.

Por meio de diversas pesquisas, feitas em parcerias com outras universidades, foi possível observar o efeito de plantas contra diferentes linhagens tumorais, na eficácia em cicatrização e na produção de substâncias antioxidantes com alto fator de proteção solar, propriedades que podem ser utilizadas na fabricação de cremes para proteção solar e cremes preventivos de envelhecimento. Outros biofármacos foram obtidos para o tratamento de atividades antinociceptivas (de redução da percepção da dor), doença de Alzheimer, cicatrizantes, anti-helmínticos (contra verminoses), antifúngicos e antioxidantes.

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