General cearense ficou em silêncio sobre encontro com Bolsonaro após edição de minuta golpista
Os termos "não se recorda; não tinha relação e não sabe informar" se repetiram diversas vezes ao longo do depoimento de Estevam, dado à Polícia Federal no último dia 23 de fevereiro
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, derrubou, nesta sexta-feira, 15, o sigilo dos depoimentos do dia 8 de janeiro. Dentre as declarações está a do general Estevam Theophilo, cearense que ficou à frente do Comando de Operações Terrestres do Exército na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
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Durante o depoimento à Polícia Federal, Estevam foi questionado sobre ter sido convocado por Bolsonaro a participar de uma reunião horas após o ex-mandatário ter finalizado ajustes em uma minuta de decreto que visava promover um golpe de Estado no país.
Em sua defesa, Theophilo afirmou que exerceria o “direito de permanecer em silêncio por não ter o contexto das conversas” que lhes foram apresentadas. Os investigadores exibiram mensagens de voz trocadas entre o general, o tenente-coronel Mauro Cid e o ex-comandante do Exército, general Freire Gomes.
No trecho apresentado, Cid diz que Bolsonaro vinha recebendo “várias pressões para tomar uma medida mais pesada, onde ele vai, obviamente, utilizando as forças”.
Na mensagem, Mauro chega a revelar que o ex-presidente “enxugou o decreto” na manhã do dia 9 de dezembro de 2022 e que “comentou de falar com o general Theophilo”.
“Na verdade, ele quer conversar. Ele gosta, ele gosta de bater papo, né? Acho que de alguma forma como ele está sem sair do Alvorada, como ele está preso no Alvorada, ali… É uma maneira que ele tem de, de desopilar ou de, de… tocar pra frente. Porque se não foi, se a força não incendiar, é o status quo mantém aí como o que estava previsto", completou.
No início do depoimento, Estevam foi questionado se tinha uma relação pessoal com Bolsonaro, e, como resposta, ele mencionou que não conhecia o ex-presidente pessoalmente, e que nunca havia o encontrado até o final das eleições presidenciais de 2022. Nos últimos dois meses de governo, no entanto, o general esteve três vezes no Palácio da Alvorada para se encontrar com o então mandatário.
O investigado também declarou, em depoimento, que todas as reuniões com Bolsonaro foram intermediadas pelo ex-chefe do Exército, Freire Gomes. Alguns dos encontros foram “a pedido”, outros “por ordem”.
Apenas no dia 9 de dezembro, Estevam e Bolsonaro se reuniram a sós. O general não detalhou sobre o que ambos conversaram, apenas disse que não houve nenhuma sondagem para se realizar um golpe de Estado.
“A reunião foi para ouvir lamentações do então presidente da República sobre o resultado das eleições; QUE apenas ouviu o Presidente falando", segue o trecho do termo de depoimento. “QUE na reunião não foi tratado sobre uma possível minuta de golpe ou utilização de GLO, Estado de Defesa, Estado de Sítio ou Intervenção Federal."
O encontro com Bolsonaro e Estevam a sós foi “reportado” a Freire logo após o investigado sair da reunião.
As outras duas oportunidades teriam ocorrido em novembro e em dezembro. A primeira foi com Freire Gomes, para tratar de assuntos do Exército. A última, na véspera do Natal, contou ainda com a participação dos generais Sérgio da Costa Negraes e Eduardo Antônio Fernandes
Nesta, o objetivo era “entregar um presente institucional do Exército ao então Presidente JAIR BOLSONARO”. Freire participou do envio do presente mesmo após, durante a reunião, ameaçar Bolsonaro de prisão caso ele colocasse em prática planos golpistas discutidos no Palácio da Alvorada, como relatado pelo ex-chefe da Aeronáutica Baptista Júnior.
Quando questionado se o documento intitulado “Carta ao comandante do Exército de oficiais superiores da Ativa do Exército Brasileiro” foi feito para pressionar Freire Gomes a aderir ao golpe, Estevam disse não concordar com a carta e que a atitude foi um “ato de indisciplina reprovável”.
“Respondeu QUE não concorda com o conteúdo da carta divulgada pelos oficiais da ativa; QUE foi um ato de indisciplina reprovável, pois é vedado a assinatura coletiva e o encaminhamento de documento de oficiais superiores ao Comandante do Exército, quebrando a cadeia hierárquica”.
O investigado relatou ainda que, ao tomar conhecimento da publicação da carta, “o General Freire Gomes ficou bastante indignado” e que não se recorda “se houve consequências disciplinares”.
Os termos “não se recorda; não tinha relação e não sabe informar” se repetiram diversas vezes ao longo do depoimento de Estevam, dado à Polícia Federal no último dia 23 de fevereiro, e divulgado nesta sexta-feira, 15, com a permissão do ministro Alexandre de Moraes.