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Política
NOTÍCIA

Como as divergências políticas contaminam as Olimpíadas até na hora de torcer

Apesar de esporte e política serem indissociáveis, há casos, como o de Rayssa, em que a discussão amarrada ao campo afetivo demonstra prejuízos à relação

11:38 | 27/07/2021
Rayssa Leal, a Fadinha, fatura prata no skate street em Tóquio-2020 (Foto: JEFF PACHOUD / AFP
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Rayssa Leal, a Fadinha, fatura prata no skate street em Tóquio-2020 (Foto: JEFF PACHOUD / AFP )

Nem a conquista histórica da skatista Rayssa Leal, 13, medalha de prata na Olimpíada de Tóquio, no Japão, foi capaz de amenizar a discussão passional na qual o debate político no País está amarrado. Ao comemorar a medalha em seu perfil nas redes sociais, foram comuns os comentários que a criticavam ou cobravam posicionamento político da atleta de apenas 13 anos de idade.

Em um dos espectros políticos termos como “comunista” e “de esquerda” eram usados para adjetivar Rayssa. Do outro, uma cobrança dizia: “Acho que com 13 anos a pessoa já tem discernimento em saber qual presidente apoiar. Ela pode não votar, mas acho super necessário saber quem ela apoia antes de fazer dela um ídolo”.

Enquanto isso, os representantes da polarização política da vez, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Lula (PT), comemoraram a conquista de Rayssa no Skate. “Parabenizo a jovem Rayssa Leal pela medalha de prata, orgulho para todos nós brasileiros”, disse Bolsonaro. Lula, por sua vez, celebrou a conquista no Twitter: “Fim de semana foi agitado… É bronze no judô e prata no skate! Vai, Brasil!”, escreveu.

Apesar de esporte e política serem indissociáveis, há casos, como o de Rayssa, em que a discussão amarrada ao campo afetivo demonstra prejuízos a essa relação, fazendo com que a comemoração pela conquista de um representante esportivo seja condicionada a um posicionamento político que o próprio atleta ou seu grupo, muitas vezes, sequer expressou.

Seguindo a lógica mecanicista, desejar a vitória de fulano tornou-se sinônimo de bolsonarismo; comemorar a medalha de sicrano passou a ser sinal de proximidade com a esquerda. Quando boa parte dos envolvidos é apenas um torcedor. Há exemplos similares ao de Raysse e mais antigos.

Cleyton Monte, cientista político vinculado ao Laboratório de Estudos sobre Política Eleições e Mídia (Lepem-UFC), reforça ser impossível distanciar política e esporte. "Esporte é uma política pública. O que destaca os países que se saem melhor na olimpíada, são os países com políticas públicas para o desenvolvimento do esporte", aponta.

Sobre a polarização, Monte diz ainda que era "previsível que ocorresse. "Como a olimpíada canaliza as atenções e pelo contexto de paixão política e exacerbação dos ânimos no País, era natural que esse debate ocorresse. Essas talvez sejam as olimpíadas com a relação mais próxima com a política partidária", destaca.

O pesquisador diz ainda que há uma "instrumentalização do debate" para defender interesses individuais. Um deputado sugeriu o trabalho infantil porque Rayssa conseguiu medalha aos 13 anos, outros cobram um posicionamento político, uma militância. Ela está lá brincando, curtindo, é uma criança. Nesse caso, as críticas e cobranças dizem muito mais sobre os desejos e frustrações de quem está falando.

A seleção masculina de Vôlei talvez seja o exemplo mais expressivo de um time com fama de bolsonarista por ações individuais, dentro e fora das quadras, de alguns representantes.

A associação a Bolsonaro ganhou força ainda na campanha eleitoral de 2018, quando, ao comemorar uma vitória, os jogadores Maurício Souza e Wallace posaram para foto fazendo o número 17, com os dedos, em referência ao então candidato Bolsonaro. Na ocasião, imagens foram publicadas em rede social da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e posteriormente removidas. Não foi suficiente para amenizar.

Outra ação, em janeiro deste ano, teve o técnico Renan Dal Zotto e um dirigente da CBV, posando para foto segurando uma camisa da seleção com o nome de Arthur Lira (PP-AL). Um mês depois, Lira disputou e venceu, com o apoio de Bolsonaro, a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. À época, Dal Zotto se explicou em vídeo. “Nunca me envolvi em política. É uma ação de marketing que a CBV faz há muitos anos, presenteando autoridades”.

Em contrapartida, um dos integrantes da seleção brasileira de vôlei, o jogar Douglas Souza, está sendo aclamado nas redes sociais pelas postagens bem humoradas; somando mais de 2 milhões de seguidores desde o início dos jogos.