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Com padre afastado temporariamente, bolsonaristas lotam igreja em Fortaleza

Críticos ao padre Lino Allegri, apoiadores do presidente da República usaram camisas com "Bolsonaro 17" e chamaram o sacerdote de "comunista" e "proselitista". A posição divide grupos católicos da paróquia

Filipe Pereira
13:31 | 18/07/2021
Missa neste domingo, 18, na Paróquia da Paz, no bairro Aldeota (Foto: Fernanda Barros/ Especial para O POVO)
Missa neste domingo, 18, na Paróquia da Paz, no bairro Aldeota (Foto: Fernanda Barros/ Especial para O POVO)

Grupos de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) estiveram presentes em peso durante missa celebrada neste domingo, 18, na Paróquia da Paz, no bairro Aldeota. A celebração, iniciada às 8 horas, ocorreu após o padre Lino Allegri ser hostilizado por um grupo de fiéis por manifestar críticas ao chefe do Executivo nacional e lembrar das mais de 500 mil mortes por Covid-19 no Brasil.

Durante toda a manhã, duas viaturas da Polícia Militar estiveram em frente à igreja. Ao serem questionados, os policiais negaram que o esquema de segurança tivesse relação com os últimos tumultos. A reportagem presenciou ainda o momento em que uma mulher que dirigia um carro parou brevemente em frente às viaturas da PM e pediu a prisão de "comunistas que estavam na igreja".

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Dentro do templo, alguns dos presentes usavam camisas com as escritas "Bolsonaro 17". Já outros, mais reclusos, vestiam camisas da seleção brasileira com as cores da bandeira do Brasil. O recente episódio envolvendo a paróquia atraiu a presença do coronel Ricardo Bezerra, crítico de Lino Allegri. Segundo ele, o vigário virou um "padre proselitista”.

"Esse negócio da doutrina dos oprimidos, isso tudo não é para ser praticado aqui. Ele ainda está desrespeitando as autoridades constituídas da nação. O Padre peca com isso. Vai perder muitos fiéis se continuar nessa linha", disse o militar. A reportagem tentou contato com outros membros críticos ao pároco, mas grande parte negou contato.

Segundo informações das redes sociais, Ricardo frequentou a Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em São Paulo, e estudou na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Ele chegou a trabalhar no 23º Batalhão de Caçadores, no Bairro de Fátima, em Fortaleza. Seguidor de Bolsonaro, ele se apresenta como ferrenho opositor de Allegri.

Em publicação divulgada na manhã deste domingo, o militar manifesta repúdio ao "proselitismo político em nossas Igrejas" e pede um "basta ao clero progressista e à Teologia da Libertação”. Ele também chama a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de “inconsequentes”.

Devido aos tumultos, a paróquia não realizou a celebração no comando do Pe. Lino Allegri. Com a decisão, a missa ficou a cargo do Pe. Francisco Sales de Sousa. Segundo Mario Fonseca, articulador paroquial, o vigário foi orientado a se afastar neste domingo, 18, após decisão do Bispo Auxiliar, Dom Valdemir Vicente. Porém, ele alega que Lino continua como pároco oficial. A informação foi confirmada pela Arquidiocese de Fortaleza. A instituição afirmou que realizou uma série de reuniões com padres e representantes da igreja.

Defensor de Lino, o representante paroquial reagiu às intimidações realizadas contra o pároco. “Ele usou a sua palavra de sacerdote para denunciar uma necropolítica. As pessoas têm dificuldade de entender isso e acham que é um palanque político. Essa não é uma igreja apenas carismática que quer comprar um lote no céu e não está preocupada com o povo sofredor aqui na terra. Eles expressam indignação por falta de incompreensão do modelo de igreja libertadora, o que eles rotulam de comunismo”, criticou. 

Aos 56 anos de vida sacerdotal, o padre italiano deverá solicitar o ingresso no Programa Estadual de Proteção aos Defensores e Defensoras de Direitos Humanos (PPDDH). Na última quinta-feira, 15, o sacerdote realizou reunião virtual com membros da Defensoria Pública e do Ministério Público do Ceará (MPCE). A decisão deve-se a uma série de ameaças e ataques virtuais ocorridos na Paróquia da Paz.  

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O padre é defensor da Teologia da Libertação, movimento considerado apartidário que engloba várias correntes de pensamento interpretando os ensinamentos de Jesus Cristo como libertadores de injustas condições sociais, políticas e econômicas. A vertente religiosa ganhou força no interior da Igreja Católica na década de 1960, logo conquistando a América Latina. O movimento, porém, enfrenta opositores históricos, sendo criticado e acusado de deturpar o caminho divino e adotar o marxismo como base ideológica. 

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