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Política
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Cleyton Monte: As engrenagens se movimentam pensando em 2022

11:40 | 10/03/2021
Cleyton Monte - Cientista político e professor da UFC (Foto: Divulgação)
Cleyton Monte - Cientista político e professor da UFC (Foto: Divulgação)

Muitas linhas já foram produzidas sobre a decisão do ministro Edson Fachin que cancelou as condenações do ex-presidente Lula no âmbito da Operação Lava Jato. São análises preliminares que tentam captar humores e estratégias em curso. É óbvio que o fato em discussão é uma jogada política que pode ser revertida.

Desde 2014 nos transformarmos em uma série com muitas e infindáveis temporadas. Sabemos que o sistema judiciário é um caixinha de surpresa e está longe de oferecer consensos em questões tão controversas. Assim, deixando de lado o aspecto jurídico da causa, gostaria de me deter sobre o tabuleiro eleitoral. O foco é compreender as engrenagens que devem se mover a partir de agora. O que pode mudar com a possível entrada de Lula na disputa para 2022?

As circunstâncias de 2022 serão bem diferente da lógica de 2018. A disputa de 2020 sinalizou que o tempo dos outsiders e antipolíticos pode estar com os dias contados. Estamos diante de uma crise econômica e sanitária sem precedentes, afetando, sobretudo, o cotidiano da população mais pobre e aprofundando desigualdades abissais. Além disso, investimentos em queda, desemprego em alta e inflação avançando formam a tempestade perfeita. Nada indica que até o início da campanha estaremos livres desses fatores.

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Por mais que tente, Bolsonaro não pode apagar o fato de que é governo. E, se não quiser ficar falando somente para sua base mais aguerrida, terá que apresentar um discurso minimamente coerente para as ações e omissões da gestão. Uma tarefa e tanto para o tamanho do desastre.

Contudo, o presidente tem os poderes da máquina e uma base social consolidada. Isso não o livrará de buscar articulações partidárias, tornando-se ainda mais dependente das lideranças do centrão - uma base pragmática que não teria constrangimento em migrar para um candidato com maiores chances. Alguns analistas apostam que Bolsonaro mudará o tom em certos questões. Talvez seu populismo seja reforçado e a filiação antecipada!

A grande imprensa, expert em traçar equivalências entre o PT e Bolsonaro, caso repita a mesma artimanha, não terá a mesma sorte. Principalmente depois de disseminar o discurso que o bolsonarismo é antidemocrático. Como se aproximar de um candidato autoritário? A tese da “escolha difícil” perde eficácia. O tal mercado, sombra que paira sobre todas as cabeças, não recebeu as reformas prometidas. O consumo interno minguou e o mercado externo sofre represálias da China e da União Europeia. Os investidores não vão se jogar nos braços de Lula nem chegar com força em Bolsonaro. É um incógnita fundamental.

A saída seria o centro, a famosa e histórica tese da terceira via. O quadro é complexo. Difícil para Dória, Moro, Mandetta e Luciano Huck se tornarem em pouco tempo o antibolsonaro. Em diferentes intensidades e momentos, esses personagens flertaram com o bolsonarismo.

Ciro, Marina, Boulos e Dino não se encontram em posição melhor. Como viabilizar uma composição eleitoral competitiva? Que tipo de discurso usariam para atrair apoios? Lembrando que Lula, diferente de Dilma, tem mais traquejo para ajustes do tipo. A pergunta que se faz é: que tipo de discurso Lula usaria em uma nova empreitada eleitoral? Radicalizaria ou tentaria conciliar novos e antigos aliados? A resposta dirá muito sobre as possibilidades do líder petista.

A eleição de 2020 e a gestão da pandemia demonstraram que o sistema político tradicional não morreu como se pensava. Os governadores, prefeitos e líderes partidários se colocam como peças importantes. Entrarão no jogo para valer. A narrativa da anticorrupção ficou seriamente abalada com as ilicitudes da Lava Jato e com os escândalos envolvendo a família presidencial.

O modus operandi do bolsonarismo (ativismo via redes sociais) é conhecido. A oposição avançou nessa linha – se tivessem um programa político mínimo de unidade, faria a diferença, entretanto, isso dificilmente vingará. De qualquer forma, o duelo está posto; uma batalha de rejeições: antipetismo versus antibolsonarismo. As duas forças políticas e sociais mais importantes do Brasil contemporâneo. Vamos aguardar para saber se um novo episódio desmontará essa configuração tão representativa do nosso eleitorado.