Participamos do

Candidatas negras são alvos de violência, principalmente no meio virtual

Pesquisa do Instituto Marielle Franco ouviu mulheres negras que são candidatas em 21 estados. Disseram ter sido alvos de violência 78% delas

Candidatas negras que disputam as eleições 2020 relatam casos de violência durante a campanha. Pesquisa realizada pelo Instituto Marielle Franco ouviu 142 candidatas de 16 partidos políticos pelo Brasil, em 93 municípios de 21 estados. O levantamento foi feito de 21 a 28 de outubro. Das entrevistadas, 78% informaram ter sofrido algum tipo de violência virtual.


Os casos envolvem mensagens diretas ou comentários machistas ou misóginos, participação em reuniões virtuais que foram invadidas, ataques com conteúdos machistas ou racistas durante lives. A

Seja assinante O POVO+

Tenha acesso a todos os conteúdos exclusivos, colunistas, acessos ilimitados e descontos em lojas, farmácias e muito mais.

Assine

Além das denúncias de violência virtual, 62% relataram violência moral e psicológica, como insultos, ofensas ou humilhações em decorrência da atividade em campanha, ofensas relacionadas à religião, por ser de favela ou da periferia. Há 7% dos casos em que as humilhações ocorreram publicamente, enquanto as candidatas faziam campanha.

Há ainda 55% que relatam violência institucional como receber menos recursos do partido do que o que considera justo. Houve candidatas que relataram não ter recebido nada do partido para fazer campanha. Relatam ainda intimidação, difamação ou insultos para aceitar decisões partidárias ou de campanha, ou mesmo para desistir de concorrer. E há menções a machismo ou homotransfobia em órgãos da Justiça Eleitoral.

Violência racial é relatada por 44% das participantes da pesquisa e 42% informaram ter sofrido violência física. E 32% contam terem sofrido violência sexual. Violência de gênero foi relatada por 28% delas.

A maioria das candidatas entrevistadas (98,5%) relataram ter sofrido mais de uma dessas violências. Há 45% dos agressores que não foram identificados (45%). Outros 30% foram candidatos ou grupos militantes de partidos políticos adversários. Em 15% dos casos, foram grupos anti-feministas, racistas e neonazistas. O levantamento pode ser acessado aqui

Denúncias

Entre as participantes da pesquisa, apenas 32,6% relataram ter denunciado as violências de que foram vítimas. Houve 29% das candidatas que relataram não querer denunciar, enquanto 17% das candidatas afirmaram ter medo ou não se sentir segura em denunciar a violência que sofreu. Outros 8% das candidatas, apesar da pesquisa ser anônima, relataram não se sentir à vontade em responder as questões que tratam sobre denúncia.

Das candidatas que denunciaram, 70% informaram que a iniciativa não lhes garantiu mais segurança para fazer campanha.

Candidatas no Ceará

No Ceará, existem 5.392 candidatas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O número representa 33,3% das candidaturas em 2020 no Estado, apenas um pouco acima do mínimo exigido em lei para cada um dos sexos.

Entre essas candidatas no Ceará está Louise Santana (Psol). Ela é uma das integrantes da chapa coletiva "Nossa Cara", que concorre a uma vaga na Câmara Municipal de Fortaleza. Além de Louise, outras duas mulheres negras integram a chapa: Lila M. Salú e Adriana Gerônimo, que é a candidata oficial. A proposta da candidatura coletiva é que as três participarão igualmente das decisões do mandato. A candidatura coletiva é alvo de impugnação, pois a promotora Ana Maria Gonçalves Bastos de Alencar alega não haver respaldo jurídico para o modelo coletivo de candidatura. Segundo ela, apenas Adriana Gerônimo seria de fato candidata e a campanha de uma "candidatura coletiva" induziria o eleitor ao erro. Atualmente, a candidatura se encontra na Justiça Eleitoral no status de "deferida com recurso". As três integrantes da chapa coletiva responderam à pesquisa do Instituto Marielle Franco.

"Foram inúmeras violências que a gente sofreu de forma direta e indireta e também de forma velada. Enquanto candidatas, avaliamos que a violência sofrida de maneira mais dura foi a impugnação da nossa chapa", relata Louise.

Elas também contam que são alvos de ofensas, de forma direta, na rua, nos momentos de panfletagem. "Quando estamos panfletando já ouvimos pessoas dizendo que não vão votar em macacas, que nem de negra gostam, que a política vai ficar mais suja com a gente… São violências que se relacionam de maneira muito profunda com o sujeito que somos: mulheres, negras e periféricas".

As candidatas realizaram denúncias virtuais em suas próprias redes sociais, assim como 31% das candidatas que responderam a pesquisa. No entanto, assim como 17% das candidatas que afirmaram ter medo ou não se sentirem seguras em denunciar a violência sofrida, Louise também não formalizou queixa. "Não nos sentimos completamente seguras de que teríamos o tratamento adequado para essas questões e, além disso, o ataque mais direto que recebemos veio de forma institucional pela própria Justiça", afirma.

Denúncias

As denúncias de crimes eleitorais e violência podem ser encaminhadas para o Ministério Público do Ceará. É possível fazer o cadastro na hora e também fazer a denúncia de forma anônima.

Dúvidas, Críticas e Sugestões? Fale com a gente

Tags

Os cookies nos ajudam a administrar este site. Ao usar nosso site, você concorda com nosso uso de cookies. Política de privacidade

Aceitar