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Relator no STF vota pela legalidade de inquérito das fake news, que mira bolsonaristas

Inquérito tem relatoria de Alexandre de Moraes, que chegou a expedir mandados de busca e apreensão contra apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Investigação seria um dos motivos da saída de Sergio Moro do Governo

21:09 | 10/06/2020
Relator no STF vota pela legalidade de inquérito sobre fake news (Foto: CARLOS ALVES MOURA)
Relator no STF vota pela legalidade de inquérito sobre fake news (Foto: CARLOS ALVES MOURA)

O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), votou nesta quarta-feira, 10, a favor da legalidade do inquérito aberto pela própria Corte para apurar a divulgação de informações noticiosas fraudadas e ameaças contra integrantes do Supremo. Investigação mira deputados bolsonaristas e apoiadores do presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) e estaria trazendo preocupações à cúpula do Planalto. 

Os 11 ministros analisam ação da Rede Sustentabilidade, protocolada no ano passado para contestar a forma de abertura da investigação. Pelas regras processuais penais, o inquérito deveria ter sido iniciado pelo Ministério Público ou pela Polícia. 

Após o voto do ministro, que é relator da ação, o julgamento foi suspenso e será retomado na próxima quarta-feira, 17, às 9h30min. Mais dez ministros devem votar. 

A abertura do inquérito foi feita em março de 2019. Na época, o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, defendeu a medida como forma de combater à veiculação de "notícias falsas" que atingem a honorabilidade e a segurança do STF, de seus membros e parentes. Segundo o presidente, que nomeou o ministro Alexandre de Moraes como relator do caso, a decisão pela abertura está amparada no regimento interno da Corte.

No entendimento de Fachin, houve omissão dos órgãos de controle, que não tomaram a iniciativa de investigar os ataques contra a independência do Poder Judiciário nas redes sociais. Dessa forma, segundo o ministro, o regimento interno pode ser aplicado como instrumento de defesa institucional. 

"São inadmissíveis a defesa da ditadura, do fechamento do Congresso ou do Supremo. Não há liberdade de expressão que ampare a defesa desses atos. Quem os pratica precisa saber que enfrentará a Justiça constitucional do seu país", disse. 

Com base nas investigações desse processo foram cumpridos, no mês passado, mandados de busca e apreensão contra empresários e acusados de financiar, difamar e ameaçar ministros do tribunal por meio da internet. Essas buscas e outras ocorridas desde o início do inquérito também foram validados pelo relator. 

Foi este inquérito que decretou mandados de busca e apreensão contra empresários bolsonaristas e deputados da base do presidente da República por suspeita de participarem de esquema de disparo em massa de informações falsas para apoiar a candidatura de Bolsonaro. 

Entre os empresários que estariam financiando o grupo criminoso estão o dono da rede de lojas de departamento Havan, Luciano Hang; o dono da Smart Fit, Edgard Gomes Corona; Otavio Fakhoury, financiador do site Crítica Nacional; o humorista Reynaldo Bianchi Júnior; e o coordenador do Bloco Movimento Brasil Winston, Rodrigues Lima. Deputados federais do PSL, Bia Kicis, Carla Zambelli, Daniel Silveira, Filipe Barros, Cabo Junio do Amaral e Luiz Phillipe Orleans e Bragança também são investigados, além de deputados estaduais de São Paulo Douglas Garcia e Gil Diniz, também do PSL.

ANÁLISE | Érico Firmo: Tudo é estranho no inquérito das fake news

Limites para prosseguimento do inquérito

Edson Fachin também estabeleceu no voto limites que deverão ser seguidos para justificar o prosseguimento do inquérito. 

Pelos parâmetros estabelecidos, a investigação deverá ser acompanhada pelo Ministério Público, os advogados dos investigados deverão ter acesso ao processo e o objeto do inquérito devem ser ameaças aos ministros, seus familiares, aos poderes constituídos, contra o estado de direito e contra a democracia. 

O relator também definiu que não poderão ser alvo do inquérito matérias jornalísticas e manifestações pessoais nas redes sociais, desde que não façam parte de "esquemas de financiamento e divulgação em massa nas redes sociais."

Procuradoria-Geral da República 

Durante o julgamento, o procurador-geral da República, Augusto Aras, defendeu o prosseguimento do inquérito, mas com balizas para garantir a participação do Ministério Público. Aras também repudiou ameaças contra os ministros da Corte e disse que notícias fraudulentas não são divulgadas somente por blogueiros. 

"Sabemos que este fenômeno maligno das fake news não se resume a blogueiros nas redes sociais. É estimulado por todos os segmentos da comunicação moderna, sem teias, sem aquele respeito que a nossa geração aprendeu a ler o jornal acreditando que aquilo era verdade", afirmou. 

Advocacia-Geral da União 

O advogado-geral da União, José Levi do Amaral, defendeu o prosseguimento do inquérito, desde que seja garantida a não criminalização da liberdade de expressão. 

Segundo Levi, as liberdades de expressão e de imprensa devem ser plenas nos meios tradicionais de comunicação e nas redes sociais, sejam os autores das mensagens jornalistas profissionais ou não. 

"Censura, nunca. Aliás, as liberdades de expressão e de imprensa são necessariamente acompanhadas da garantia de não censura, ou seja, a proibição da censura", disse.