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Política
NOTÍCIA

Documentos que desmentem testemunho em CPI das Fake News são publicados pela Folha

Jornalista foi acusada de insinuar-se sexualmente em troca de informações

23:48 | 11/02/2020
Hans se contradisse, segundo a parlamentar Lídice da Mata
Hans se contradisse, segundo a parlamentar Lídice da Mata (Foto: REPRODUÇÃO/TV CAMARA)

Ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp, Hans River do Rio Nascimento, depôs nesta terça-feira, 11, à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, no Congresso Nacional.

Ele insinuou que uma repórter da Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Mello, tenha insinuado-se sexualmente a ele, em troca de informações. O jornal publicou série de documentos, vídeos e, principalmente, mensagens trocadas entre Hans e a jornalista, para desmentir dez trechos do depoimento.

Hans trabalhou para a Yacows, empresa especializada em marketing digital, durante a campanha eleitoral de 2018. A CPMI agora investiga a disseminação de notícias falsas no pleito.

Em dezembro daquele ano, reportagem da Folha, baseada em documentos da Justiça do Trabalho e em relatos de Hans, mostrou que várias empresas, entre elas a Yacows, recorreu ao uso fraudulento de nome e CPF de idosos e até falecidos para registrar chips de celular e garantir o disparo de lotes de mensagens em benefício de políticos.

Nas conversas, ele não apontou diretamente quais candidatos se valeram da fraude. Ele deu entrevistas, mas dias depois mudou de ideia após fazer acordo com a antiga empregadora, conforme a Folha. "Pensei melhor, estou pedindo pra você retirar tudo que falei até agora, não contem mais comigo", disse ele, via WhatsApp.

"Quando eu cheguei na Folha de S. Paulo, quando ela [repórter] escutou a negativa, o destrato que eu dei e deixei claro que não fazia parte do meu interesse, a pessoa querer um determinado tipo de matéria a troco de sexo, que não era a minha intenção, que a minha intenção era ser ouvido a respeito do meu livro, entendeu?", disse Hans, no depoimento.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também insinuou que a jornalista "possa ter se insinuado sexualmente, como disse o senhor Hans, em troca de informações para tentar prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro".

No Código Penal Brasileiro, fazer afirmação falsa como testemunha em processo judicial ou inquérito é crime, com pena prevista de dois a quatro anos de reclusão e multa. O regimento do Senado diz que a inquirição de testemunhas em CPIs segue o estabelecido na legislação processual penal. "Acusar alguém quando esse alguém não está presente é um ato de covardia", afirmou o senador Angelo Coronel (PSD-BA), presidente da CPMI das Fake News, após as declarações de Hans.

"Comprovando que houve mentira, nós podemos indicar o seu indiciamento, uma abertura de inquérito, porque mentira numa CPMI é crime. Ele teve diversas incoerências", disse Lídice da Mata (PSB-BA), relatora da CPMI das Fake News.

Em nota, a Folha rebateu os ataques. “A Folha repudia as mentiras e os insultos direcionados à jornalista Patrícia Campos Mello na chamada CPMI das Fake News. O jornal está publicando documentos que mais uma vez comprovam a correção das reportagens sobre o uso ilegal de disparos de redes sociais na campanha de 2018. Causam estupefação, ainda, o Congresso Nacional servir de palco ao baixo nível e as insinuações ultrajantes do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)."

Desmentido

1. Hans negou que tenha dado informações à Folha, mas as entrevistas foram gravadas, além de fotos, vídeos e uma planilha com nomes e CPFs usados pela Yacows para registrar chips de celular e garantir o disparo de lotes de mensagens em benefício de políticos.

2. Ele insinuou que o jornal tenha conseguido as informações de forma escusa, com a Justiça trabalhista, mas o processo é de acesso público, não corre em segredo de Justiça.

3. “A própria jornalista acabou com o meu nome. Colocou no jornal coisa que eu não tinha nem falado. (...) Que eu estava fazendo campanha do Bolsonaro, e eu não tinha feito; do Doria, e eu não tinha feito”. A reportagem não menciona o nome de políticos supostamente beneficiados.

4. "Ela queria sair comigo e eu não dei interesse para ela. Ela parou na porta da minha casa e se insinuou para entrar na minha casa (...). A pessoa querer um determinado tipo de matéria a troco de sexo, que não era a minha intenção". A jornalista nega ter se insinuado e os prints mostram que o contato foi justificado desde as primeiras mensagens.