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Política
NOTÍCIA

Afinal, o que é fascismo?

Bolsonaro é acusado por sua oposição de ser fascista, ideologia que embasou regimes autoritários no século XX. Especialistas apontam a ascensão de um neofascismo e da extrema direita em todo o mundo

23:23 | 26/10/2018
O candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro é frequentemente acusado de ser fascista por sua oposição. No contexto de polarização política nacional, também é comum que apoiadores do PT sejam chamados de comunistas. As rotulações com bases nessas ideologias que deram início a regimes autoritários no século XX precisam ser feitas com cuidado, levando em consideração as características marcantes de cada uma. Afinal, o que é o fascismo?
 
[SAIBAMAIS]O fascismo surgiu na Itália na década de 1930 com o ex-primeiro ministro Benito Mussolini. Uma das principais características da ideologia foi a idealização de um líder autoritário e a criação de um partido único que se desenvolve em torno dele. A professora de história da Universidade Federal do Ceará (UFC), Meise Lucas, elenca como alguns pontos centrais o estado centralizado, a ênfase na religião católica e um esvaziamento da intelectualidade. “Ele [o fascismo] é, na essência, antidemocrático. A política só é possível de diferentes”, fala a professora citando Aristóteles.
 
Meise ainda relaciona a ditadura militar no Brasil com a ideologia, citando que, no século XX, houve uma onda de autoritarismos, com várias formas de regimes ditatoriais. Segundo ela, essa tendência se repete agora, sendo o que está acontecendo na Turquia, na Indonésia e em diferentes países da Europa a ascensão de um neofascismo. “O que é fato é que há uma ascensão da extrema direita em todo o mundo”, diz.
 
O professor da da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Jamilson Rodrigues, explica com base nos escritos do filósofo Umberto Eco que o regime fascista tem várias facetas, apresentando características diferentes de acordo do país em que se manifesta. A principal, uma marca do fascismo, é o autoritarismo. Também pode se apresentar conservadorismo, apelo armamentista, nacionalismo exacerbado.
 
“O fato de os regimes [fascistas] terem acabado na Europa não significa que os pensamentos fascistas tenham acabado na sociedade”, afirma. “Atualmente você não pode esperar alguém dizer que vai abrir um centro de concentração. O fascismo se apresenta de outras formas”, esclarece. Ele ainda ressalta que essas características fascistas não são exclusividade de regimes de direita, também podendo se apresentar na esquerda.
 
O especialista também afirma que, normalmente, as facetas fascistas surgem em momentos de crise econômica. Conforme o professor de história da Uece, Marcos Diniz, a tendência de surgimento desse pensamento extremo se dá quando “os interesses das grandes empresas e do capital estão em risco”. “Buscam encontrar um bode expiatório para justificar medidas extremistas de controle social, existe discurso moralista do bem e dos bons costumes”, caracteriza.
 
Marcos cita como outra característica a criação de um inimigo que, normalmente, é o comunismo ou a esquerda. “É muito comum no pensamento fascista impedir a manifestação pública, ele não consegue conviver com diferenças. O fascismo não dialoga, não admite oposição”, coloca. O professor também afirma que é preciso tomar cuidado com as rotulações. “Seria melhor falar de alguém de direita ou ser de esquerda que dizer ser fascista ou comunista”, diz.
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