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Uma crise chamada Temer

Confira análise do jornalista Henrique Araújo

18:17 | 16/01/2018

Quatro vice-presidentes afastados de uma tacada do comando da Caixa Econômica Federal (CEF) a pedido do Banco Central e da Procuradoria da República em Brasília. Motivo: suspeita de corrupção.

Cada um desses nomes é indicação de um partido do "centrão", de cujos votos o presidente Michel Temer (MDB) depende para aprovar a reforma da Previdência - medida sem a qual o emedebista não pode governar, já que se trata de seu principal trunfo junto ao mercado, mas também de uma carta na manga para fazer decolar uma eventual candidatura governista em 2018 (não por acaso, a aprovação da proposta, caso aconteça, já alimenta hoje uma disputa de paternidade com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia).

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Inclua-se nesse cenário de desgaste uma situação esdrúxula: Temer precisa substituir pelo menos 14 ministros até abril, quando o prazo para desincompatibilização expira. Como na Caixa, entretanto, cada nome representa um partido e cada partido, um rosário de demandas, grande parte das quais nada republicanas. Como essas do PTB de Roberto Jefferson, que condiciona apoio no Congresso à indicação de Cristiane Brasil, filha do ex-deputado pivô do Mensalão e ministra que não é ministra - sua posse segue embargada pela Justiça.

[SAIBAMAIS] 

O fato é que Temer nunca esteve tão frágil como agora, talvez nem mesmo quando das votações das denúncias de corrupção apresentadas pela Procuradoria-Geral da República ainda sob Rodrigo Janot. Ali havia um espírito de corpo e o receio generalizado a unir a classe política contra as "flechadas" do ex-PGR. Hoje há somente a rendição e o desmantelamento do governo, que vai ruindo ante as pressões das legendas.

Ainda em dezembro, pressionado pelo MPF a acatar a sugestão de afastar os vices da CEF, o presidente protelou. Adiou mais uma crise, como fez também quando, numa norma apalavrada, disse que demitiria qualquer ministro que fosse denunciado na Operação Lava Jato. De lá pra cá, não apenas colaboradores diretos do Planalto se tornaram denunciados, como o próprio chefe do Executivo precisou valer-se de expedientes mil para se garantir na cadeira.

Em vão. Na tarde de hoje, não restou outra saída senão defenestrar, por até 15 dias, os nomes apontados pelas legendas para o banco público, gesto que, mais dia, menos dia, terá de se repetir com Cristiane Brasil, a ministra do Trabalho que descumpre a lei trabalhista. E, uma hora ou outra, talvez também com o próprio presidente, o vice que foi alçado ao posto de mandatário do País sob a promessa de sanear as contas públicas (o déficit continua alto), melhorar o ambiente de negócios (há ligeiro crescimento, mas não no ritmo imaginado) e instaurar um novo regime fiscal (Temer pretendia flexibilizar a regra de ouro dos gastos até a semana passada).

De uma coisa, porém, não se pode acusar Michel Temer: de mentir. Afinal, este nunca foi um governo que acenou com qualquer hipótese de faxina ética. Desde a foto oficial da posse do então vice-presidente, no já distante maio de 2016, estava claro que o Brasil teria uma gestão de raposas a tomar conta do galinheiro. O dia a dia tem demonstrado cabalmente a verdade dessa máxima.

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