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Política
eleições 2018

Bolsonaro entra e Livres, ainda sem rumo, sai do PSL

20:19 | 05/01/2018

 

Foto de Fabio Ostermann
Fabio Ostermann anunciou que irá se desfliar do PSL na segunda-feira
 

Até uma semana atrás considerada uma impossibilidade digna de chacota, o acordo de filiação de Jair Bolsonaro (hoje no PSC) ao PSL abala o Livres – movimento de cunho liberal que pretende reformular a sigla. Hostil à tese de Bolsonaro como candidato à Presidência da República, o Livres deve “seguir seu rumo, mas fora do PSL”, segundo o fundador Fabio Ostermann. “Não vamos ficar. Vou me desfiliar já na segunda-feira”, diz.

O que confunde lideranças do Livres é que a presidência do PSL, há duas semanas, rechaçou a tese de filiação de Bolsonaro. Nota oficial do dia 20 de dezembro, no Facebook do partido, estampa imagem garantindo que “Jair Bolsonaro não virá para o PSL” porque, segundo o texto, “o projeto político de Bolsonaro é absolutamente incompatível com os ideais do Livres e o profundo processo de renovação política com o qual o PSL está inteiramente comprometido”. “Não procedem, de forma alguma, as notícias”, diz o esclarecimento.

 
De acordo com coordenação do Livres, que elaborou a nota, a garantia para a afirmação imperativa do texto veio do próprio presidente nacional do PSL, Luciano Bivar. Em poucos dias, o cenário não só se inverteu como Bivar, na nota de imprensa após acordo de filiação de Bolsonaro firmado hoje, afirma ser um “orgulho” ter o pré-candidato à Presidência.

 

“Foi uma conversa à revelia do Livres. Não só à revelia como contrário ao movimento, que vem ganhando corpo, ganhando espaço, renovando de verdade o partido Brasil afora”, conta Ostermann, que também é presidente do partido no Rio Grande do Sul. Não é exagero: a página oficial do PSL no Facebook se chama “Livres”, e a quase totalidade das ações de mídias sociais e identificação da imagem do partido na internet é obra do movimento. Tanto que o partido cogitava mudar, este ano, o nome para “Livres”.

“Extremo pesar”

Instantes após o anúncio do acordo, o Livres retira “A renovação do PSL” do título da página do Facebook, e lança nota comunicando, “com extremo pesar”, a saída do partido.  “Não vamos arrendar nosso projeto à velha política de aluguel. Nosso compromisso não é com a popularidade das pesquisas da semana passada, mas com a população de um País que exige a transformação da política partidária”, continua a nota.

Ostermann aprofunda o sentimento, classificando-o como “atropelo”. “E fomos atropelados por aquilo que fez a formação do Livres: o repúdio ao fisiologismo e à velha política, junto à vontade de fazer algo diferente. Tudo feito em prazo por uma figura errática, que é o Luciano Bivar.”

Diferenças

A divergência do Livres com Jair Bolsonaro pode ser dividida em um bom punhado de categorias, como diferenças ideológicas, políticas, programáticas, econômicas e filosóficas. Mas para a liderança do movimento, o essencial é o caráter liberal, que seria ausente em Bolsonaro.

 
“Não tem nada de liberal. É o tipo de caudilho latino-americano, populista. É um defensor da ditadura. É uma figura com uma trajetória lamentável na política brasileira, fruto também deste momento de polarização que vivemos”, dispara Ostermann.

 

O argumento de Bivar, contudo, é que a entrada de Bolsonaro só mantém o caráter de “movimento liberal sério”, que “garante a reinstitucionalização do nosso País diante do estado pré-anárquico aí”.

Conforme apurou O POVO, o racha com o Livres se tornou uma das pré-condições no acordo de Jair Bolsonaro, como evidencia também a nota do partido à imprensa sobre o ato.

No texto, escreve-se que se pretende ter “pensamento econômico liberal, sem qualquer viés ideológico”, o que sugere alfinetada ao Livres, como reconhece Fabio Ostermann. “Exceto que não existe pensamento econômico liberal sem qualquer viés ideológico. Isso demonstra a falta de profundidade intelectual e dos laços que unem essas duas figuras.”

Caminho

No momento, o Livres está tanto sem casa quanto sem definição de natureza de formação. Ainda há de ser discutido, “nas próximas semanas”, como avalia Ostermann, se o caminho vai ser a formação de uma frente suprapartidária” ou uma “entrada em bloco” do Livres em outro partido. “Vamos seguir nosso trabalho. O que nos une é muito mais do que uma filiação partidária.”

DANIEL DUARTE