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Política
Entrevista

Tasso diz que a crise política no Brasil vai se aprofundar

16:00 | 19/03/2017
Tasso: "Anistia ao caixa 2 não temos clima nenhum no País para fazer". FOTO: MAURI MELO
O senador Tasso Jeireissati (PSDB-CE) afirmou que a crise política no Brasil está longe de acabar. Segundo ele, as delações da Odebrecht e de outros depoentes vão agravar a situação nos próximos meses. Para o parlamentar, o clima em Brasília é de tensão e incertezas por conta da Operação Lava Jato.
As investigações estariam atrapalhando o curso dos trabalhos no Congresso e devem prejudicar o andamento das votações das reformas, como a da Previdência e a trabalhista. Em entrevista ao O POVO, Tasso afirmou ainda que as alianças para 2018 só poderão ser definidas a partir dos rumos que a Lava Jato irá tomar. O senador avaliou que não há clima para anistiar caixa 2 e destacou o nome de João Dória como possibilidade para eleições presidenciais.Confira a entrevista completa:O POVO - Na última semana, o senhor assumiu a presidência da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) no Senado. Como ela pode ajudar a melhorar a economia do Brasil neste momento?Tasso Jereissati - Hoje ela tem um papel importantíssimo em função da crise. Talvez, na minha vida consciente, a maior crise econômica que passamos. Conjugada com a crise política. Na crise política não estamos vendo, vislumbrando nenhuma calmaria de curto prazo. As coisas estão muito complicadas, tendem a ficar mais complicadas ainda nos próximos meses, muitas delações, Lava Jato, depoimentos. Onde a gente está vislumbrando uma luz que brilha cada vez mais é a retomada da economia, com o crescimento da economia e crescimento de emprego. Uma série de sinais mostra isso. Queremos fazer da CAE uma comissão mais proativa que o normal. Tem alguns pontos que podemos ser mais proativos, sugerindo e tentando legislar para melhorar essas questões. Uma é a tributária. Temos o sistema tributário não só com a carga enorme, mas pior que a carga é a complexidade. Talvez, dos países em desenvolvimento, emergentes, seja um dos sistemas tributários mais complexos que existe.OP - A ideia é simplificar ou unificar impostos?Tasso - Na segunda-feira, 20, vamos instalar um grupo de senadores que vai ser coordenado pelo senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES) para abrir uma discussão profunda sobre o modelo tributário brasileiro, qualidade e eficácia, com prazo de entregar sugestões concretas para o governo antes do fim do ano. A outra questão que tem um pouco a ver com a tributária é a questão microeconômica, custo Brasil, tudo aquilo que tem feito com que as vidas das empresas e das pessoas sejam infernizadas e complicadas. A vida da empresa no Brasil é muito mais difícil, em termos de lidar com normas, regulações, exigências, do que na grande maioria dos países. Estamos designando para ser coordenador desse grupo o senador Armando Monteiro (PTB-PE). Dessa maneira, a gente espera contribuir para apresentar sugestões da maneira mais objetiva possível para que também dê mais segurança jurídica para as empresas. OP - Já houve algum debate entre os senadores para que haja mais incentivos fiscais para empresas?Tasso - Não, estamos começando isso agora. A discussão começa. Vamos indicar na terça-feira os dois grupos. Evidentemente na Comissão vamos tocar todos os projetos que são prioritários para o governo para ajudar o País a sair dessa letargia que se encontra. OP - Existe algum benefício que o presidente da CAE possa trazer para o Ceará?Tasso - O Senado é a casa dos estados. Meu papel principal é proteger ou trazer benefícios para o estado do Ceará. Por exemplo, se discutir nessa reforma tributária a questão de isenção fiscal, aquilo que é bom e que não é bom. O que deve ou não deve ser aperfeiçoado? Existe até proposta para que se acabem todos os incentivos tributários. Nossa função é ver esse problema e como deve ser enfrentado olhando do ângulo do estado do Ceará e do Nordeste.
 
OP - Há nomes de peso no PSDB que foram citados nas delações da Lava Jato, por exemplo, o ex-ministro José Serra. Como a Lava Jato atinge o PSDB e uma possível candidatura de Serra à Presidência?Tasso -
Os nomes citados no Lava Jato prejudicam toda a classe política no Brasil. Não há nenhum partido que diga que nenhum membro deixou de ser citado. Devem sair nos próximos dias, além da lista, os depoimentos dos delatores da Odebrecht e de outros também que vão vir por aí. Só aí poderemos saber ou avaliar a dimensão correta de qual a profundidade e o que significam essas situações. Que tipo de inquérito, que tipo de crime, se é crime eleitoral ou comum e só daí dá para fazer um julgamento. Mas todos os partidos estão afetados por essas delações. É prematuro ter alguma opinião sobre candidatura a presidente (José Serra ou Geraldo Alckmin) em função da Lava Jato. Temos quadros bons, não só o Serra, o Alckmin, o Aécio, mas surge o nome do (João) Dória agora com alguma insistência.OP - Como o senhor enxerga o nome do prefeito de São Paulo João Dória?Tasso - Eu acho que é um nome novo no quadro da política brasileira. Com toda esse desgaste da imagem dos políticos tradicionais, um nome novo é sempre um nome para se prestar atenção. Mas ele tem que ganhar muita experiência pela frente. Ele tem uma prefeitura de São Paulo que é gigantesca, maior que estados brasileiros, para verificar sua situação. Ele é um nome a mais que se agrega a um quadro que o PSDB tem, que é uma vantagem que diferencia o PSDB dos outros partidos. Nosso problema não é a falta de quadros, é o excesso de quadros.OP - O senador Aécio Neves (PSDB-MG) estava muito forte em 2014. Mas o senhor acredita que ele saiu mais prejudicado já que teve o nome citado e bastante repetido em outros vazamentos?Tasso - É cedo para dizer isso. Tem que ver o que tem de concreto. Por exemplo, ele foi citado pelo ex-presidente da Transpetro. Foi a primeira citação grande dele que deu repercussão, mas o ministro Edson Fachin arquivou isso. Está encerrada essa delação, foi desconsiderada. OP - Dentro do partido, já houve discussão de alguma medida contra aqueles filiados que estiverem de fato envolvidos em esquemas? Como o PSDB vai lidar com isso?Tasso - Tudo está vindo muito em borbotões. Como a gente tem muito poucas informações, vão chegando aos poucos, ainda não teve uma reunião sólida para discutir esse assunto para chegar a uma conclusão. Mas com certeza a nossa posição é de que sejam investigados e quem tiver culpa no cartório que pague. OP - Há uma parte do PMDB que em reclamado do espaço dado ao PSDB no governo de Michel Temer. Qual a visão do senhor em relação ao espaço do PSDB no governo?Tasso - A questão do espaço a gente não mede por cargo. Isso é de menor relevância. Não somos o governo, ele é do PMDB. Nós apoiamos o governo e vamos até o fim continuar nessa posição por entender que é fundamental que esse governo tenha as condições necessárias e o apoio parlamentar para implantar as reformas. E fazer como disse o Fernando Henrique (Cardoso) pra que o País atravesse essa pinguela até chegar às eleições de 2018. Não só pelo bem estar, pela democracia também.OP - Tivemos a informação de que seu nome teria sido ventilado para assumir o Ministério das Relações Exteriores. Como foi essa negociação?Tasso - Chegou a ter uma sondagem muito leve, mas eu acho que posso contribuir muito mais dentro da CAE e principalmente para o Ceará do que em algum ministério. Nunca fui convidado. Houve uma sondagem ou outra que estavam falando meu nome e queriam saber meu nível de interesse e eu tenho dito sempre que posso ser muito mais útil agora na Comissão de Assuntos Econômicos.OP - Como a Lava Jato afeta o planejamento de votação das reformas?Tasso - Atrapalha muito. Ela atrapalha o dia a dia. É um clima de tensão muito grande, um clima de suspense, parece um filme. Clima de muita boataria. Tira a tranquilidade de uma maneira geral de se fazer o trabalho dentro da rotina. É muito ruim. Minha opinião é que isso seja divulgado logo, colocado tudo que tem que se dizer e divulgar. Quem tiver culpa que pague pelos seus erros. É prejudicial porque fica essa onda de boatos. Às vezes, um nome inocente passa por essa boataria, ninguém sabe direito o que está acontecendo. E tira a tranquilidade do País e do funcionamento do Congresso. Então se puder divulgar tudo de uma vez principalmente para acabar com esse clima de filme de suspense... Eu acho que enquanto essas listas e depoimentos não acabarem de sair, a crise política vai ficar se aprofundando. OP - Em termos de apoio no Congresso para as reformas, essas questões de Lava Jato e manifestação atrapalham?Tasso - Questão de Lava Jato, sim. Como eu disse, você tira a serenidade do Congresso porque o número de pessoas citadas é muito grande e ainda fica uma boataria de que outras viriam a ser citadas. Então tira completamente o clima de tranquilidade. O outro aspecto são as denúncias em si que fazem com que os parlamentares que estão, de uma maneira ou de outra, sendo citados, tenham uma pressão maior das ruas e fiquem mais preocupados. Eu acho esse movimento das ruas hoje ainda pequeno e organizado. Ele não tem aquela coisa espontânea que teve, por exemplo, na época do impeachment. É uma coisa organizada, a gente vê claramente pelas bandeiras espalhadas. Além disso, a gente vê muita desinformação. Se você vê as faixas, a gente vê que existe uma desinformação total do que é a reforma da Previdência, quais as razões, os problemas, as vantagens e o que se tenta atingir. A população desconhece. Esse clima de intranquilidade na política ajuda essa desinformação. Eu acho que vai ter um momento que o governo vai ter que fazer um programa de informação mais objetivo e claro para que as pessoas entendam o que vai acontecer com a eventual reforma da Previdência.OP - Como o senhor avalia o texto atual da reforma da Previdência que está na Câmara?Tasso - Acho que algumas coisas têm de ser corrigidas. Nossa posição no Senado é esperar para ver o que vem da Câmara para a gente estudar ponto a ponto. Não adianta discutir agora porque vai mudar na Câmara e não sabemos como vai mudar. Não vai passar do jeito que veio do governo. Já existe um consenso na questão do trabalhador rural e da transição que precisa ser melhorada. Prometo que quando chegar no Senado a gente vai falar melhor sobre a transição.
 
OP - Como fica a aliança PMDB-PSDB para 2018? Ela se mantém com o PSDB na cabeça de chapa?Tasso -
Esse ano tem um imponderado gigantesco que é a Lava Jato. Ninguém sabe o que vai acontecer com os políticos e com a política até o fim do ano. Então dizer que nós vamos nesse rumo, com essa aliança, é impossível dizer. Seria chute e futurologia.OP - Que solução o senhor vê para a crise política? O que os partidos devem fazer?Tasso - Tem que se mudar a mentalidade completamente. A Lava Jato tem que ir até o fim. Mas como disse prefiro que seja divulgado logo tudo e que sejam punidos os culpados para que haja um comportamento diferente nas próximas eleições. Mudar. Algumas reformas políticas são necessárias como fim da eleição proporcional. Cláusula de barreira é fundamental, porque é impossível qualquer governo do mundo governar com 30 partidos. Ao em vez de discutir programas com ideologia, discute com o fisiologismo com esse número de partidos. A outra coisa é imaginar qual será o modelo de financiamento de campanha. Isso é ultra polêmico e difícil, mas temos que encontrar um modelo melhor.OP - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu que caixa 2 fosse separado de crimes como propina e enriquecimento ilícito. Como o senhor avalia esse tema? Tasso - Uma coisa é uma doação eleitoral feita por chamado caixa 2, que não seja comprando ou em troca de uma obra, ou favor ou lei, seja simplesmente por simpatia e que por alguma razão não foi dada oficialmente. Na maioria das vezes, porque o doador não quer aparecer. Isso é um crime, sim, mas um crime eleitoral. Não é um crime comum. Já propina, ou caixa 1 ou caixa 2, corrupção ativa ou passiva, essa diferença tem que haver porque está na lei. São coisas bem diferentes. Anistia ao caixa 2 não temos clima nenhum no País para fazer.