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Favela do Piauí expõe polarização entre Aécio e Dilma

20:10 | 12/10/2014
A Vila Irmã Dulce, principal favela do Piauí, Estado que deu a maior votação à presidente Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno das eleições, reproduz com precisão uma característica manifestada nas urnas no dia 5 de outubro.

Muito mais do que uma divisão do eleitorado brasileiro entre Norte e Sul, é no perfil socioeconômico que residem as diferenças entre quem votou na petista e no seu principal adversário, Aécio Neves (PSDB).

Ali, o primeiro local que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou em seu mandato, em janeiro de 2003, o que se vê é uma minoria de eleitores tucanos no topo da pirâmide social da favela e que assimilaram o discurso de candidato de combate à violência e à inflação, enquanto uma maioria petista, beneficiária de programas sociais, vota na sua adversária por temer, tal qual propaga a propaganda de Dilma, a interrupção dos avanços sociais dos últimos anos.

Foi esse, inclusive, o mote da visita de Dilma em Teresina na última quarta-feira quando, em seu discurso, usou o tripé Bolsa Família, Mais Médicos e Minha Casa Minha Vida para atacar a "visão elitista" do PSDB.

"O nordestino que não vota no PT tem falta de vergonha na cara", critica a líder comunitária Francisca de Moura, 40, beneficiária do Bolsa Família. "Se você perceber, os adesivos de quem apoia o Aécio estão em carros de luxo, são de gente de alto poder aquisitivo."

Sua vizinha, Maria dos Santos, 65, está tentando regularizar o cadastro no Bolsa Família e é mãe de oito filhos - o caçula foi o primeiro a ganhar diploma de uma universidade federal. "Antes os pobres não tinham direito nem de comprar bicicleta, hoje adquirem moto, fazem faculdade e andam de avião.

Um comentário que lembra o discurso da própria Dilma, de comparar o "passado" com o "presente" e enfatizar o aumento do poder aquisitivo das famílias nos últimos anos.

É justamente essa rede de proteção social a justificativa para Dilma ter amealhado 70,6% dos votos válidos no Estado, contra 14% de Aécio e de Marina Silva (PSB). O Piauí também elegeu Wellington Dias (PT) com ampla margem de votos contra José Filho (PSDB): 63% a 33%.

O Estado possui a segunda maior cobertura do Bolsa Família: são cerca de 458 mil famílias atendidas pelo programa, um universo de 1,5 milhão de pessoas (47% da população). Só na Vila Irmã Dulce, a petista teve 78,7% (3.146), votos, contra 11,9% (476) de Marina Silva (PSB) e 6,9% (276) de Aécio Neves.

Em minoria, os eleitores tucanos são visivelmente os de melhor renda na favela. Caso do presidente da associação de moradores, José Leônidas da Silva, 49, que possui carro próprio, não recebe Bolsa Família e cuja renda mensal é de R$ 3 mil. "No atual governo ficou difícil botar carne bovina na mesa do pobre. Dilma tem de pedir desculpas pelo povo brasileiro".

Além das críticas à política econômica, Leônidas destaca um outro ponto do programa de Aécio: a redução da maioridade penal. "Tem muito jovem na droga, na bandidagem e ninguém faz nada", afirma. Ele também, assim como os tucanos, reclama da prioridade do embate que Dilma e o PT tentam fazer com o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). "Dilma tem de esquecer o passado e viver o agora", afirma.

Se divergem sobre a avaliação dos candidatos, algo os unifica: a defesa do Nordeste, região que, após a abertura das urnas no primeiro turno, virou alvo de ataques por sua opção majoritária pelo PT. "O que fizeram com os nordestinos nas redes sociais foi desumano", diz Marina Moura, 25, presidente da associação da juventude da zona sul de Teresina. José Leônidas questiona: "Se o Nordeste é burro, o que dizer dos paulistas que elegeram um palhaço (Tiririca) para o Congresso?"

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