Parlamento Europeu realiza primeira votação sobre o Mercosul, marcada por interesses nacionais
O Parlamento Europeu realiza, nesta quarta-feira (21), sua primeira votação sobre o acordo comercial com o Mercosul que, excepcionalmente, será dominada por considerações nacionais em vez de partidárias.
Os eurodeputados devem decidir se recorrem ou não ao Tribunal de Justiça da UE (TJUE) para que este se pronuncie sobre a validade do acordo, assinado no último sábado no Paraguai.
O resultado da votação, marcada para o meio-dia (horário local), deverá ser bastante apertado.
Os que se opõem a recorrer ao Tribunal enfatizam a necessidade de adotar o acordo o mais rápido possível, especialmente em um momento em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaça a Europa com novas tarifas.
Por outro lado, os que são a favor do recurso esperam atrasar a ratificação do acordo e, consequentemente, a sua implementação.
Espera-se que todos os 81 eurodeputados franceses, da extrema esquerda à extrema direita, votem a favor de recorrer ao TJUE.
Na terça-feira, eles foram apoiados por milhares de agricultores que chegaram em massa a Estrasburgo, no leste da França, para expressar sua rejeição ao acordo.
Com mais de 700 milhões de consumidores, o tratado cria a maior zona de livre comércio do mundo, abrangendo os 27 Estados-membros da UE, além de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Além disso, elimina tarifas sobre mais de 90% do comércio bilateral.
O acordo permitirá que a UE exporte mais veículos, máquinas, vinhos e licores para a América Latina, ao mesmo tempo que facilita a entrada de carne bovina, açúcar, arroz, mel e soja sul-americanos na Europa.
Seus críticos acreditam que o acordo prejudicará a agricultura europeia com produtos importados mais baratos que podem não atender aos padrões fitossanitários do Velho Continente.
- Voto-chave -
Os eurodeputados não se pronunciarão sobre o acordo completo com o Mercosul por vários meses.
No entanto, a votação desta quarta-feira é crucial, tanto para os opositores quanto para os apoiadores do pacto, que vem sendo negociado há 25 anos.
"Estamos trabalhando, voto a voto, posição a posição, deputado a deputado, para alcançar a maioria necessária e impedir o acordo do Mercosul na votação de amanhã (quarta-feira)", declarou o eurodeputado francês de direita François-Xavier Bellamy, membro do partido Os Republicanos.
"Segundo nossos últimos cálculos, podemos vencer por oito votos", afirmou sua compatriota Céline Imart, do bloco de direita PPE.
Do lado oposto, os defensores do acordo também contam com uma vitória.
"Será uma votação muito apertada, mas vamos vencer", afirmou Jorgen Warborn, eurodeputado sueco do conservador Partido Popular Europeu (PPE).
- "Anti-Trump" -
O líder do PPE, o eurodeputado alemão Manfred Weber, também é um defensor ferrenho do acordo e, na terça-feira, pediu uma votação contra o encaminhamento da questão ao TJUE, descrevendo o acordo de livre comércio com o Mercosul como um "acordo anti-Trump".
Os defensores do pacto esperam que as ameaças do presidente americano convençam os eurodeputados indecisos da urgência de encontrar novos parceiros comerciais.
Essas divisões nacionais não se limitam ao Partido Popular Europeu.
O grupo de extrema direita ECR permitiu que seus membros votassem livremente, divididos entre os membros poloneses do PiS, que apoiam o encaminhamento da questão ao TJUE, e os membros italianos do Irmãos da Itália, partido da primeira-ministra Giorgia Meloni, que são a favor do acordo com o Mercosul.
"Talvez os italianos tomem uma decisão diferente", espera Mathilde Androuët, eurodeputada francesa e membro do grupo de extrema direita Patriotas.
Os opositores do acordo com o Mercosul permanecem cautelosos, mesmo em caso de votação favorável ao encaminhamento da questão ao TJUE.
O tribunal provavelmente levaria muitos meses para chegar a uma decisão, mas, enquanto isso, a Comissão Europeia poderia passar por cima.
Os tratados europeus permitem a aplicação provisória do acordo caso a ratificação atrase por muito tempo.
A "verdadeira batalha" será lá, alertou o eurodeputado francês David Cormand, do grupo dos Verdes.
Por outro lado, se o encaminhamento for rejeitado, "podemos imaginar que o acordo com o Mercosul prevalecerá", afirmou Pascal Canfin, do grupo de centro-direita Renew.
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