Após combates, exército sírio toma cidades no norte de forças curdas
Forças Democráticas Sírias (FDS) perderam o controle de áreas que comandavam há mais de uma década. Combates ocorrem após o governo reconhecer oficialmente direitos da minoria curda.O exército sírio assumiu o controle de grandes áreas do norte do país neste sábado (17/01), desalojando as Forças Democráticas Sírias (FDS), lideradas pelos curdos, de territórios sobre os quais exerciam autonomia há mais de uma década. O governo sírio avança sobre as áreas controladas pelos curdos, justamente um dia depois de o presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, emitir um decreto declarando o curdo como "língua nacional" e concedendo reconhecimento oficial à minoria étnica. Na semana passada, o exército expulsou as forças curdas de dois bairros de Aleppo, a maior cidade da Síria. Neste sábado, assumiu o controle de uma área ao leste da cidade. As forças sírias ainda assumiram o controle das cidades de Maskana e Deir Hafer e de uma base aérea em Jarrah. Um aeroporto militar em Tabqa, antes comandado pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), e dois campos de petróleo na região também foram capturados. Damasco informou que quatro soldados foram mortos nos combates. Já as forças curdas relataram diversas baixas, com ambos os lados trocando acusações sobre violações de acordos. FDS diz que governo violou acordo Por dias, tropas sírias se concentraram em torno de um grupo de vilarejos situados a oeste do rio Eufrates e pediram às FDS que reposicionassem suas tropas na margem oposta do rio. Confrontos ocorreram em pontos estratégicos ao longo do Eufrates, incluindo campos de petróleo. Os combatentes das FDS se retiraram da área na manhã de sábado, mas depois acusaram as tropas sírias de violarem o acordo ao avançarem ainda mais para o leste, em direção a cidades e campos de petróleo que não faziam parte do pacto. O chefe das FDS, Mazloum Abdi, disse que Damasco "violou os acordos recentes e traiu nossas forças durante a implementação das provisões de retirada". Segundo os curdos, os combates ao sul de Tabqa, "estavam fora do escopo do acordo". O exército sírio, por sua vez, pediu à liderança das FDS que "cumprisse imediatamente seus compromissos anunciados e se retirasse completamente para o leste do rio Eufrates". As FDS controlam áreas do norte e nordeste ricos em petróleo da Síria, grande parte das quais conquistaram durante a guerra civil e a luta contra o grupo Estado Islâmico na última década. Por anos, as FDS foram o principal parceiro dos EUA na Síria na luta contra o Estado Islâmico, mas são considerados grupo terrorista por Ancara devido à sua ligação com insurgentes separatistas curdos. Hoje Washington também dá suporte às novas autoridades da Síria. O Comando Central dos EUA pediu no sábado "às forças do governo sírio que cessem qualquer ação ofensiva nas áreas entre Aleppo e al-Tabqa", em uma publicação no X. O presidente da França, Emmanuel Macron, e o presidente do Curdistão iraquiano, Nechirvan Barzani, pediram um cessar-fogo, informou a presidência francesa. Grupos curdos ainda controlam áreas de maioria árabe no leste do país, onde estão localizados alguns dos maiores campos de petróleo e gás da Síria. Os receios curdos se intensificaram devido a episódios de violência sectária no ano passado, quando cerca de 1.500 alauítas foram mortos por forças alinhadas ao governo no oeste da Síria, e centenas de drusos foram assassinados no sul do país, alguns em execuções sumárias. Decreto presidencial reconhece minoria Os combates acontecem após o governo sírio reconhecer formalmente os direitos curdos pela primeira vez desde a independência da Síria em 1946. O decreto de sexta-feira afirmava que a minoria é "parte essencial e integral" da Síria, onde sofreu décadas de marginalização e opressão sob governantes anteriores. O decreto tornou o curdo uma "língua nacional" e concedeu nacionalidade a todos os curdos, 20% dos quais haviam sido privados dela sob um censo de 1962. A administração curda no nordeste sírio disse que o decreto era "um primeiro passo", mas "não satisfaz as aspirações e esperanças do povo sírio". "Os direitos não são protegidos por decretos temporários, mas através de constituições permanentes que expressem a vontade do povo e de todos os componentes" da sociedade, afirmou em comunicado. Nanar Hawach, analista sênior da Síria no International Crisis Group, disse à agência de notícias AFP que o decreto "oferece concessões culturais enquanto consolida o controle militar". "Não atende às demandas de autogoverno do nordeste", disse ele, acrescentando que "Sharaa se sente confortável em conceder direitos culturais, mas traça limites quando se trata de compartilhamento de poder". Ele afirmou que Damasco parecia buscar "criar uma divisão entre civis curdos e as forças armadas que os governam há uma década". gq (AFP, Reuters)
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