Estudo investiga origem dos comportamentos homossexuais nos primatas
O comportamento homossexual nos primatas tem raízes evolutivas profundas e é mais provável que ocorra em espécies que habitam entornos hostis, sob ameaças de predadores ou que vivem em estruturas sociais mais complexas, revelou um estudo publicado nesta segunda-feira (12).
"A diversidade de comportamentos sexuais é muito comum na natureza, entre espécies e nas sociedades animais. É tão importante quanto cuidar das crias, combater um predador ou buscar alimento", explica à AFP Vincent Savolainen, principal autor deste estudo publicado na Nature Ecology & Evolution.
Foram documentados comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo, como o acasalamento ou a estimulação de órgãos sexuais em mais de 1.500 espécies animais.
Mas, frequentemente é algo visto de forma "anedótica", sendo considerado como um "paradoxo darwiniano", visto que a evolução se baseia na transmissão de genes através da reprodução, aponta o biólogo.
No entanto, estudos recentes mostraram que este comportamento tem um componente hereditário e pode aportar uma vantagem evolutiva.
Nos macacos-rhesus de Porto Rico, os quais Savolainen estuda há oito anos, os machos que mantêm relações sexuais entre si podem formar coalizões, o que talvez lhes permitiria ter acesso a mais fêmeas e, assim, ter mais filhotes.
Savolainen e sua equipe revisaram um grande número de publicações científicas para compilar os dados existentes sobre 491 espécies de primatas não humanos.
Os pesquisadores encontraram estes comportamentos em 59 delas, seja entre lêmures, os macacos da América, da África e da Ásia, ou os macacos antropoides.
Isto sugere que este comportamento tem uma "raiz evolutiva profunda", assinalam os cientistas, que analisaram em seguida a influência do contexto ambiental, da "história de vida" (expectativa de vida, morfologia...) e da organização social.
- "Estratégia social flexível" -
Estes comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo são mais frequentes em espécies que vivem em entornos difíceis, como recursos alimentares limitados, caso dos macacos-de-gibraltar.
Ou quando as espécies estão expostas a um alto risco de predação, como os macacos-verdes, pequenos macacos da África.
Isto poderia significar que estes comportamentos ajudam a gerenciar as tensões dentro do grupo durante períodos de estresse.
Também ocorrem com mais frequência entre macacos nos quais machos e fêmeas têm grande diferença de tamanho, como os gorilas-das-montanhas. No entanto, é preciso levar em conta que o dimorfismo sexual costuma estar associado a grupos sociais maiores, a uma intensa competitividade e a hierarquias estritas. Ao contrário, as espécies nas quais machos e fêmeas são similares costumam viver em casais ou em pequenos grupos familiares.
Estes diferentes fatores interagem entre si: as características vitais são influenciadas pelas circunstâncias ambientais que, por sua vez, impactam na complexidade social, o que leva à existência de comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo.
Estes resultados sugerem que estas condutas são uma "estratégia social flexível, utilizada para reforçar os vínculos sociais, gerenciar os conflitos ou construir alianças em função das pressões ecológicas e sociais", afirmam os autores.
Eles sugerem a hipótese de que fatores similares poderiam ter ocorrido entre os hominídeos ancestrais e inclusive nos seres humanos atuais.
"Nossos antepassados sem dúvida tiveram que enfrentar as mesmas complexidades ambientais e sociais", avalia Savolainen. "Mas há coisas completamente próprias do ser humano, com uma complexidade de orientação sexual, de preferência, da qual não nos ocupamos em absoluto", afirma o biólogo.
Em um texto que acompanha a publicação do estudo, a antropóloga Isabelle Winder elogia os métodos de análise comparativa usados pelos autores.
Podem "talvez lançar luz pela primeira vez de forma realista a algumas complexidades da evolução de comportamentos 'quase humanos'", como o uso de ferramentas, a linguagem simbólica ou os comportamentos relacionados com a morte.
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