[Coluna] Como o professor desperta nossa vontade de aprender

[Coluna] Como o professor desperta nossa vontade de aprender

Autor DW Tipo Notícia

A educação não é o exercício da imposição de autoridade, mas, sim, a prática da compaixão e da humanidade com o outro.Há algum tempo, durante uma aula na universidade, uma docente que admiro muito afirmou que a educação é a base de tudo — inclusive da nossa construção enquanto seres humanos. Todos conhecemos alguém mais velho que relata práticas agressivas na escola, baseadas na violência como forma de punição e como símbolo de uma suposta boa formação. Esse modelo de ensino, ao qual Carlos Brandão se refere como "deseducação", faz com que o aluno associe o ambiente escolar à agressão física e psicológica , desenvolvendo medo e aversão ao aprendizado. Essa reflexão remete à realidade de muitos estudantes que foram vítimas de processos deseducativos. A educação deveria ser uma atividade motivadora, capaz de conduzir o aluno à construção do conhecimento e ao prazer pelo estudo, jamais sendo associada à violência. Por isso, reflito: se a educação é a base da formação do ser humano, que tipo de base é construída quando ela se fundamenta na agressão? Normalmente, ao pensarmos em métodos tradicionais e hostis de ensino, remetemo-nos à época dos nossos pais e avós. No entanto, trago aqui uma experiência vivida em 2012, em uma sala de alfabetização . Foi nessa época que conheci a figura mais amedrontadora da minha trajetória escolar. Aos meus olhos de criança, sua postura rígida e visivelmente hostil me lembrava a professora Trunchbull, do filme Matilda. Digo isso por conta das práticas punitivas diárias, como beliscões e vinte minutos "cheirando a parede”, que eram utilizadas como forma de nos impor disciplina e corrigir nossos erros, tal como no filme. Me recordo de assistir à TV um certo dia, quando Matilda passava, e dizer para minha mãe que a minha professora era igual à do filme. Ela, infelizmente, não pôde relacionar minhas falas à minha realidade. Silêncio: um pedido de ajuda Para quem era tão vivo, eu havia me incorporado ao triste silêncio. Todas as minhas memórias dessa época me direcionam aos atos de violência em que eu era submetido a punições devido às minhas ações apenas infantis e correspondentes à minha idade. Eu me tornei outra pessoa: eu passei não só a fazer silêncio, como torná-lo parte de mim, porque esse era o jeito de não ser punido. As pessoas ainda hoje acreditam que o silêncio deve ser vangloriado. Ele é, muitas vezes, um pedido de ajuda. As sequelas foram muito significativas. Eu tinha medo de tudo em relação à escola, e todos os meus pensamentos eram fielmente guardados para mim mesmo. Aquela postura docente teve um grande impacto não somente no meu rendimento escolar, mas também na minha interação com colegas e professores. Ninguém mais tinha acesso a mim. Então, posso responder agora: a educação punitiva logrou não a construção de minha base, mas a desconstrução dela. A agressão não colabora com o belíssimo ato de educar. A prática pedagógica Levou alguns anos para que eu compreendesse o sentido das atitudes das pessoas que me ensinaram. Se, por um lado, conheci alguém que despertou em mim o desgosto pelo estudo, por outro, tive a sorte de encontrar pedagogas extraordinárias que, hoje, me ajudaram a entender o que a docência é — e o que ela deve ser. Nomeio, antes de tudo: tia Eva, tia Ranuza e tia Lívia. Foi ao lado dessas mulheres que transformei minha visão sobre ensinar e aprender. A educação não é o exercício da imposição de autoridade, mas, sim, a prática da compaixão e da humanidade com o outro. Todo docente precisa ter consciência da influência que exerce e utilizá-la para formar bons cidadãos e bons estudantes. A licenciatura deve viver na libertação de costumes antigos. É graças às posturas libertadoras de docentes admiráveis, como as que mencionei, que meu amor pelo aprendizado não se apagou. Pelo contrário: transformei todas as minhas cicatrizes em compaixão, e hoje, simbolicamente, represento a licenciatura com a humanidade que em muitas histórias foi contada com dor. __________ Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1. Este texto foi escrito por Cauã Carlysom Batista da Silva, 19 anos, acadêmico de Letras na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW. Autor: Cauã Carlysom Batista da Silva

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