Após pressão, governo alemão critica ação dos EUA na Venezuela

Após pressão, governo alemão critica ação dos EUA na Venezuela

Autor DW Tipo Notícia

Após pressão, gabinete de Merz afirmou que Washington não comprovou de forma convincente que suas ações seguem o direito internacional. Antes, declarações evitavam confrontar diretamente os EUA.A Alemanha fez uma crítica direta à ação militar dos Estados Unidos na Venezuela pela primeira vez nesta quarta-feira (07/01), cinco dias após a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro. Em resposta a jornalistas, o porta-voz do governo alemão, Stefan Kornelius, afirmou que os EUA "não conseguiram demonstrar de forma convincente, no Conselho de Segurança da ONU, que suas ações estavam de acordo com o direito internacional". Na reunião do Conselho, Washington argumentou que a prisão de Maduro visou o cumprimento da lei americana e o combate ao narcotráfico, além de defender que o líder venezuelano não ocupava o cargo de forma legítima. Por outro lado, Kornelius não avançou no tema e pontuou apenas que ainda é difícil analisar a detenção de Maduro do ponto de vista jurídico. Merz diz que questão é "complexa" O chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, sofre pressão de políticos alemães, incluindo membros de sua coalizão, para se posicionar de forma mais incisiva sobre o caso – inicialmente, o chefe do governo alemão afirmou apenas que a questão é "complexa". Nas redes sociais, evitou fazer uma declaração clara e focou na transição política venezuelana. "A situação jurídica relativa à intervenção dos EUA é complexa. Estamos levando nosso tempo para analisá-la", afirmou. Ele acrescentou que os princípios do direito internacional devem se aplicar às relações entre os Estados. "Não pode haver instabilidade política na Venezuela agora. É importante garantir uma transição ordenada para um governo legitimado por eleições", concluiu. Já na segunda-feira, outro porta-voz de seu gabinete, Sebastian Hille, leu uma declaração que evitou condenar Washington e focou em críticas a Maduro. "Maduro conduziu seu país a águas perigosas nos últimos anos", dizia o texto lido por Hille, que também acusava o venezuelano de conduzir eleições fraudadas. "O chanceler enfatizou que todos, incluindo os EUA, devem respeitar o direito internacional. Isso se aplica explicitamente à soberania estatal e à integridade territorial", concluiu o texto, sem atrelar crítica direta à ação militar da Casa Branca. No mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, também se limitou a criticar o líder venezuelano. "Maduro liderou um regime injusto; 8 milhões de pessoas deixaram o país. Há prisioneiros políticos." Ele acrescentou que as Nações Unidas descreveram a situação dos direitos humanos na Venezuela como muito crítica. Wadephul ainda defendeu que Maduro não é o presidente legitimamente eleito do país e que os interesses geopolíticos dos EUA também tiveram um papel no ataque. Políticos pressionam Merz a condenar EUA As declarações foram vistas como tímidas por políticos alemães. O líder oposicionista do Partido Verde, Felix Banaszak, afirmou que "declarações tímidas encorajam Trump a mirar em novos alvos". Katharina Dröge, também dos Verdes, considera a intervenção como uma violação do direito internacional. "O que impede a chanceler de afirmar isso claramente? Manter uma postura discreta é uma estratégia desastrosa", questionou. Críticas também vieram do Partido Social-Democrata (SPD), que integra a coalizão governista em Berlim ao lado da União Democrata Cristã (CDU) de Merz. O porta-voz do SPD para política externa, Adis Ahmetovic, disse que Trump "prejudica a ordem internacional e desencadeia uma espiral perigosa." O vice-chanceler e ministro das Finanças, Lars Klingbeil, também do SPD, indicou que "Maduro liderou um regime autoritário que se agarrou ao poder através da violência e da opressão". "No entanto, isso não pode ser uma justificativa para desconsiderar o direito internacional", disse ele. Por outro lado, partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) elogiou a ação dos EUA como parte de um "realinhamento da política global". Alemanha pede reestruturação democrática O governo alemão agora insiste em concentrar suas manifestações em pedidos por reestruturação democrática na Venezuela. O ministério das Relações Exteriores da Alemanha argumenta que os venezuelanos têm o direito a um "futuro livre, autodeterminado e democrático". A pasta também confirmou que o país europeu participou de uma reunião por videoconferência com membros do G7 na qual o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, discutiu a situação venezuelana. No fim de semana, diplomatas alemães também ajudaram a elaborar uma resposta europeia sobre o caso. O resultado foi uma declaração divulgada no domingo e assinada por quase todos os países da União Europeia (UE), com exceção da Hungria. Na declaração calculada, a chefe de Relações Exteriores da UE, Kaja Kallas, pediu o cumprimento do direito internacional, sem condenar os EUA. Respeitar a vontade do povo venezuelano continua sendo a única maneira de a Venezuela restaurar a democracia, acrescentou ela. O bloco afirmou repetidamente que Maduro não tem a legitimidade de um presidente eleito democraticamente. Receio de choques com Washington Em Berlim, políticos especulam que a resposta calculada de Merz visa, entre outros motivos, não se indispor com os EUA em um momento crucial das negociações por um acordo de paz na Ucrânia. O governista Armin Laschet (CDU), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Bundestag, afirmou que se os europeus indiciassem Trump pelo incidente, o resultado provavelmente seria a perda de influência na política da Ucrânia. "A política externa é complicada. É preciso levar em conta as realidades do mundo". Em contraste, porém, Berlim foi mais incisiva ao rejeitar o avanço americano sobre a Groenlândia, com Wadephul indicando que a ilha será defendida pela Otan caso haja eventual ameaça ao seu território. gq (DW, ARD, Reuters)

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