Entenda a escalada de tensão entre os EUA e a Venezuela
EUA atacaram Venezuela e capturaram presidente Nicolás Maduro e sua esposa. Mobilização americana no mar do Caribe vinha gerando temor de ação militar inédita contra o regime chavista.Forças militares dos Estados Unidos lançaram neste sábado (03/01) ataques militares contra alvos na Venezuela , marcando uma inédita escalada de tensão na região e aumentando a pressão sobre o regime de Nicolás Maduro. As operações militares ocorrem após os EUA passarem meses posicionando forças militares no Mar do Caribe, incluindo a presença de navios de guerra. Em meados de novembro do ano passado, o maior porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos, o USS Gerald R. Ford, chegou à área do Mar do Caribe. Poucos dias depois, foi a vez de o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciar um nome oficial à missão em andamento: Operação Lança do Sul (Southern Spear). O que os militares dos EUA foram fazer no Caribe? Desde o fim de agosto, os EUA vinham mobilizando vários navios de guerra e posicionando as embarcações em áreas não distantes da costa caribenha da Venezuela. No início de setembro, o primeiro ataque mortal foi direcionado a um barco que, segundo autoridades americanas, estaria transportando drogas do país sul-americano para os Estados Unidos. De acordo com o governo americano, outros 19 ataques semelhantes aconteceram desde então. Qual o objetivo oficial da Operação Lança do Sul? O governo dos EUA alega que o objetivo dos ataques a esses "barcos de drogas" no Caribe seria interromper o tráfico de drogas. Em uma publicação na rede X, também em novembro, Hegseth afirmou que a operação, que ocorria em conjunto com o Comando Sul dos EUA, responsável pela América Central e do Sul, está "removendo narcoterroristas do nosso Hemisfério e protegendo nossa Pátria das drogas que estão matando nosso povo". O regime de Caracas, assim como outros na região, no entanto, enxergou nisso uma provocação e ameaça direta à soberania nacional da Venezuela. O temor era que os EUA poderiam usar meios militares para derrubar o regime chavista liderado por Nicolás Maduro, que está no poder há mais de duas décadas e que vem governando de forma cada vez mais autoritária e antidemocrática. Críticos do presidente Donald Trump também suspeitam que essas operações sejam uma tática diversionista motivada por questões internas nos EUA. Trump vinha enfrentando crescente pressão da oposição e até mesmo da sua própria base para divulgar a totalidade dos chamados "arquivos Epstein", que potencialmente podem conter revelações prejudiciais sobre o presidente e seus aliados. Os arquivos começaram a ser divulgados pelo governo americano em dezembro. O que já apontava para uma possível intervenção militar dos EUA na Venezuela? Várias fontes apontaram que os Estados Unidos já haviam posicionado uma dúzia de navios de guerra no sul do Caribe, incluindo destróieres, cruzadores, embarcações de desembarque e um submarino nuclear. Trump também ordenou que o maior porta-aviões do mundo deixasse o Mediterrâneo Oriental e se dirigisse para o Caribe. A força total, de cerca de 12 mil militares, seria excepcionalmente grande para somente a tarefa de interceptar lanchas que supostamente transportam drogas. O próprio Hegseth afirmou que a Operação Lança do Sul pretende eliminar "narcoterroristas", mas esse é um termo que o presidente Trump também usa repetidamente em referência ao regime venezuelano. Maduro é acusado pelos EUA de ser o líder de um cartel de drogas, o Cartel de los Soles, supostamente liderado por oficiais militares venezuelanos. Os EUA também ofereceram uma recompensa de US$ 50 milhões pela captura de Maduro — a maior recompensa desse tipo na história do país. O governo venezuelano rechaça acusações de vínculos com o narcotráfico. O ministro do Interior e da Justiça, Diosdado Cabello, afirmou que o Cartel de Los Soles era uma "invenção" da Casa Branca. Antes do ataque no início de 2026, Trump vinha declarando que os dias de Maduro como presidente estavam contados. Ainda em novembro, Donald Trump indicou que uma decisão oficial sobre como EUA iriam proceder poderia ser anunciada em breve, mas também foi evasivo. "Eu não posso dizer o que seria, mas eu meio que me decidi" sobre a Venezuela, disse Trump a repórteres, na ocasião. A ação militar em território na Venezuela marca a primeira intervenção unilateral direta dos EUA na América Latina em mais de três décadas. A última ocorreu em 1989, quando forças americanas invadiram o Panamá para capturar o então ditador Manuel Noriega, acusado de chefiar uma quadrilha de tráfico de drogas – a iniciativa durou de dezembro de 1989 a janeiro de 1990 e ficou conhecida como Operação Justa Causa. "Proteção" à "vizinhança dos EUA" Uma das principais promessas de Trump na última campanha eleitoral envolvia impedir que os EUA se envolvessem em novas guerras no exterior. Embora um ataque à Venezuela configurasse uma quebra dessa promessa, Trump poderia argumentar que ação seria do interesse dos EUA. A publicação de Hegseth no X insinuou algo nesse sentido: "O Hemisfério Ocidental é a vizinhança dos EUA — e nós a protegeremos". Mas, antes dos ataques deste sábado (03/01) e da captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, pelos EUA, a força militar americana posicionada na região foi considerada pequena demais para uma invasão em larga escala de um país altamente militarizado com 28 milhões de habitantes. As forças armadas e milícias da Venezuela somam mais de 300 mil pessoas. O cientista político alemão Günther Maihold, especializado em América Latina, considerou mais provável que os EUA busquem uma "fragmentação do bloco de poder venezuelano" por meio de ataques seletivos e possíveis ações lideradas pela CIA, a Agência Central de Inteligência americana. Como a Venezuela respondeu? O presidente Maduro vinha intensificando sua retórica contra o que chama de imperialismo dos EUA e tentou mobilizar a população para defender a Venezuela contra uma possível invasão. Em meados de setembro, ele lançou um programa para mobilizar civis. Também em novembro de 2025, as forças armadas venezuelanas realizaram um grande exercício militar, envolvendo cerca de 200 mil pessoas. Maduro também anunciou que convocaria 4,5 milhões de membros da milícia do país. No entanto, analistas militares apontam que o poder das forças venezuelanas foi dilapidado nos últimos anos por sucateamento e problemas de financiamento em meio à persistente crise econômica enfrentada pelo país. Também há dúvidas se as milícias efetivamente continuariam se mantendo leais ao regime diante de um agravamento do quadro militar. Como a comunidade internacional vinha reagindo? Os ataques a supostos barcos de drogas são altamente controversos. Os EUA não forneceram provas sobre quem ou o que estava a bordo das embarcações afundadas, e os passageiros foram mortos sem representar ameaça discernível. Os aliados da Venezuela expressaram seu apoio de maneira previsível. O representante diplomático da China nos EUA afirmou que Pequim apoia fundamentalmente o combate ao crime transnacional, mas não à custa dos direitos humanos ou da segurança da navegação em águas internacionais. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que o governo russo esperava que não sejam tomadas medidas que possam desestabilizar a região, enfatizando que todas as ações devem estar alinhadas ao direito internacional. Qual é a posição dos aliados dos EUA? Críticas às ações dos EUA também vieram de países aliados que fazem parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). À margem da reunião dos ministros das Relações Exteriores do G7 no Canadá, em novmebro passado, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noel Barrot, expressou preocupação sobre as operações militares no Caribe, afirmando que elas violam o direito internacional. Segundo fontes britânicas citadas pela emissora americana CNN, o Reino Unido decidiu, em outubro, parar de compartilhar informações de inteligência com os EUA que pudessem ser usadas para atacar embarcações no Caribe. Os britânicos também afirmaram que não queriam participar do que consideram ações ilegais. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, negou ambas as alegações. A chefe de política externa da União Europeia, Kaja Kallas, também criticou indiretamente a situação num encontro entre países latino-americanos e europeus no início de novembro, pedindo respeito ao direito internacional em tais operações militares. Um porta-voz do governo alemão fez comentários semelhantes em uma coletiva de imprensa no mesmo mês. Autor: Jan D. Walter
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