As semelhanças entre o incêndio em uma estação de esqui na Suíça e na boate Kiss

As semelhanças entre o incêndio em uma estação de esqui na Suíça e na boate Kiss

Autor DW Tipo Notícia

A tragédia no bar Le Constellation na virada do ano repete falhas vistas em Santa Maria que poderiam ser evitadas: pirotecnia em local fechado, materiais inflamáveis, rotas de fuga insuficientes e fiscalização precária.O incêndio que transformou a virada de ano em luto no bar Le Constellation, em Crans-Montana, na Suíça, ecoa as mesmas falhas verificadas em outros incêndios letais em locais fechados, como o da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), que matou 242 pessoas em 2013. Ainda não há um relato completo sobre as causas da tragédia recente, classificada pelo presidente da Suíça como um dos piores desastres da história do país. As evidências disponíveis, contudo, sugerem uma combinação de fatores como pirotecnia em ambiente fechado, uso indevido de materiais inflamáveis nas instalações, rotas de fuga insuficientes e protocolos frouxos . Na madrugada de 1º de janeiro, por volta de 1h30 (horário local), o fogo tomou conta do porão do bar, onde centenas de pessoas comemoravam o Ano Novo. A principal hipótese das autoridades suíças é que velas de faísca, também conhecidas no Brasil como velas de vulcão ou cascata, fixadas em garrafas de champanhe e erguidas por garçons, tenham incendiado o teto, revestido com espuma acústica altamente inflamável. Em poucos minutos, o fogo tomou conta de todo o ambiente . A escada estreita que ligava o porão ao térreo virou um gargalo mortal. Muitos não encontraram outra saída e alguns quebraram janelas para escapar. Ao menos 40 pessoas morreram, e mais de cem ficaram feridas. No caso da tragédia na boate Kiss, um artefato pirotécnico acionado pela banda durante o show atingiu a espuma de poliuretano instalada no teto. As chamas se espalharam em segundos, liberando gases tóxicos. Com o local superlotado e a fumaça densa, frequentadores confundiram banheiros com saídas, aumentando o número de vítimas. Em 2019, seis anos após o incêndio na Kiss, uma portaria do Inmetro passou a determinar que espumas usadas em isolamento térmico e acústico — especialmente em locais de concentração de pessoas — devam conter aditivos retardantes de chama. O coletivo de familiares e amigos de vítimas "Kiss: que não se repita" declarou, em suas redes sociais, que o incêndio na Suíça é um "padrão que atravessa países, leis e culturas". "Incêndios em casas noturnas continuam matando porque falhas conhecidas seguem sendo ignoradas: pirotecnia em ambientes fechados, materiais inflamáveis, rotas de fuga insuficientes, superlotação e ausência de prevenção." Tragédia anunciada Em Crans-Montana, especialistas apontam que a espuma deveria estar coberta, conforme normas suíças. A lei exige inspeções anuais em locais abertos ao público, mas os donos afirmam que o bar foi vistoriado apenas três vezes em dez anos. Na boate Kiss, investigações revelaram reformas sem autorização, mascaramento de itens de segurança e ausência de protocolos claros. Richard Meier, especialista em investigação de incêndios e explosões que atua nos Estados Unidos, disse ao jornal The New York Times que as evidências apontam para uma "tragédia evitável", acrescentando: "É uma lição que deveríamos ter aprendido há décadas, mas continuamos repetindo". Sobreviventes questionaram ainda se o bar tinha saídas suficientes, com vários relatos de aglomeração na escada estreita do subsolo para o térreo e de pessoas quebrando janelas de vidro para fugir do fogo. Ainda não está claro se uma saída de emergência presente no prédio estava acessível e sinalizada. Na boate Kiss, havia uma única porta de entrada e saída, e muita gente morreu tentando sair, pisoteada ou intoxicada. A responsabilização também segue um roteiro parecido. Na Suíça, o Ministério Público abriu investigação contra os donos do Le Constellation, um casal francês, por homicídio culposo, lesão corporal culposa e incêndio culposo. No Brasil, os sócios da Kiss e dois integrantes da banda foram condenados por homicídio com dolo eventual (quando se assume um risco previsível). Após anos de disputas judiciais, o Supremo Tribunal Federal (STF) restabeleceu as condenações em 2024. Em agosto do ano passado, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) decidiu reduzir as penas dos quatro condenados para entre 11 e 12 anos de prisão. O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) entrou com recurso contra a decisão no STF e no STJ. Avisos negligenciados Essa combinação de pirotecnia em ambientes fechados com rotas de fuga insuficientes foi um padrão de várias tragédias em todo o mundo nas últimas décadas. Em março de 2025, um incêndio seguido de tumulto na boate Pulse , na cidade de Kocani, na Macedônia do Norte, matou 63 pessoas, a maioria jovens. A tragédia começou quando uma chama pirotécnica atingiu o teto do clube, provocando o fogo que se espalhou rapidamente. Em janeiro de 2022, um incêndio na Liv's Nightclub Yaouba, em Yaoundé, capital de Camarões, provocou explosões que mataram 17 pessoas. As autoridades apontaram que fogos de artifício incendiaram o teto, e as chamas alcançaram áreas onde havia botijões de gás, ampliando o desastre. O mesmo roteiro se repetiu em outubro de 2015, em Bucareste, na Romênia. Durante o show de uma banda de rock, efeitos pirotécnicos deram início a um incêndio na boate Colectiv , matando 64 pessoas e ferindo cerca de 190. A tragédia gerou protestos e mudanças na legislação local, mas não impediu que casos semelhantes ocorressem em outros países. Em dezembro de 2009, na Rússia, 152 pessoas perderam a vida na boate Lame Horse, em Perm. O incêndio começou quando fogos atingiram um teto com material plástico. Poucos meses antes, em janeiro de 2009, um episódio semelhante ocorreu na Tailândia: após a contagem regressiva do Ano Novo, fogos deram início a um incêndio na boate Santika, em Bangkok, matando 67 pessoas. Um exemplo mais antigo dá a dimensão de como essas tragédias poderiam ser evitadas : em novembro de 1942, um incêndio no clube Cocoanut Grove, em Boston, matou 492 pessoas – o mais mortal em uma boate na história dos Estados Unidos. A tragédia levou à criação de novos requisitos de segurança, como a instalação de chuveiros automáticos (conhecidos como "sprinklers") e saídas acessíveis. sf/le (AP, ots)

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