Após captura de Maduro, tensão e incerteza predominam na Venezuela
Em Caracas, venezuelanos evitam festejar captura de Maduro pelos EUA, e ruas ficam quase desertas. Apesar da posse da vice Delcy Rodríguez, futuro político da Venezuela segue incerto.A metrópole Caracas, com seus 2 milhões de habitantes, costuma ficar parada no início de janeiro. Os que podem vão passar alguns dias nas idílicas praias do Caribe. Os que ficam aproveitam para relaxar um pouco antes que a vida volte a pulsar, após o Dia de Reis, em 6 de janeiro. Neste primeiro fim de semana de janeiro de 2026, Caracas estava ainda mais parada. No momento em que o mundo olhava para a metrópole com a respiração suspensa após os ataques dos EUA a alvos selecionados na Venezuela e a prisão do presidente venezuelano , Nicolás Maduro , um silêncio inquietante pairava sobre a capital, segundo relatos da mídia local. As ruas de Caracas ficaram quase desertas durante o fim de semana. Não houve grandes protestos. Filas só em supermercados, farmácias e postos de gasolina, onde as pessoas foram para estocar suprimentos de emergência – enquanto as milícias leais a Maduro, os colectivos, mantinham uma presença visível e marchavam armadas em seu reduto, o bairro 23 de Enero. O economista venezuelano Manuel Sutherland vive na capital. "Ontem [domingo], várias áreas estavam sem energia elétrica. Muitas pessoas estavam com medo e não queriam sair de casa. Os supermercados só abriram pequenas portas para evitar saques", declarou ao site Tagesschau.de. "As pessoas não estão festejando nas ruas porque não há certeza sobre o que acontecerá", diz Renata Segura, diretora de programas para a América Latina e o Caribe da ONG International Crisis Group (ICG). "Acredito que, para a grande maioria dos venezuelanos, o fim de Maduro é uma notícia positiva. Mas como não há clareza sobre o futuro imediato, e até mesmo medo de violência e guerra civil, os venezuelanos preferem ficar em casa." Vice diz querer cooperar com Trump Uma primeira certeza veio com a posse da vice-presidente Delcy Rodríguez, uma fiel apoiadora de Maduro . Ela assumiu a liderança do país interinamente por ordem da Suprema Corte. A advogada de 56 anos se mostrou inicialmente desafiadora. "Só existe um presidente neste país, e seu nome é Nicolás Maduro Moros", declarou, cercada por ministros e militares numa reunião do Conselho de Defesa Nacional. "Nunca mais seremos escravos." E, num pronunciamento televisionado: "Nunca mais seremos colônia, não importa de qual império". Na noite deste domingo (04/01), porém, ela adotou um tom bem foi mais suave e afirmou estar pronta para cooperar com o governo do presidente Donald Trump e defendeu uma "relação equilibrada e respeitosa" com Washington. "Estendemos um convite ao governo dos Estados Unidos para trabalharmos juntos numa agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento compartilhado", disse Rodríguez após presidir a primeira reunião de gabinete desde a deposição de Maduro. O governo Trump afirma estar disposto a trabalhar com os membros remanescentes do governo Maduro, desde que os objetivos de Washington sejam atendidos, particularmente a abertura do acesso de investimentos americanos às vastas reservas de petróleo da Venezuela , as maiores do mundo. "Não me perguntem quem está no comando porque darei uma resposta muito controversa", disse Trump a repórteres a bordo do Air Force One, quando questionado se havia conversado com Rodríguez. Quando questionado para esclarecer o que queria dizer, Trump respondeu: "Significa que nós estamos no comando". Segura, da ICG, diz não haver alternativa a Rodríguez enquanto o regime permanecer no poder. "A prisão de Maduro não significa o fim do chavismo", ressalta. "O movimento está intimamente ligado ao Estado venezuelano, a juízes, governadores e prefeitos. E há também as milícias colectivos, que podem ser rapidamente mobilizadas para defender o chavismo." Forças Armadas manterão apoio? Trump anunciou que os EUA estão preparados para um segundo ataque à Venezuela, que seria "muito maior" que o primeiro, caso a presidente interina não coopere com os EUA. Mas um envio de tropas americanas à Venezuela não estaria nos planos desde que Rodríguez "faça o que queremos", acrescentou Trump, aumentando a pressão. Segura avalia que agora tudo depende da reação dos militares venezuelanos. "Os próximos dias serão cruciais. Até agora, os militares sempre foram leais ao chavismo por razões políticas e econômicas. É altamente improvável que tenham participado de quaisquer negociações até o momento. Eles são a incógnita da política venezuelana. A forma como reagirem agora será decisiva para determinar o que acontecerá na Venezuela." Futuro de María Corina é incerto A líder opositora María Corina Machado já se posicionou para o futuro. A mais importante política de oposição e ferrenha opositora de Maduro, que vive na clandestinidade há mais de um ano e foi laureada com o Prêmio Nobel da Paz por seu ativismo, falou de uma "hora da liberdade" após o ataque dos EUA. "Chegou a hora em que a soberania popular e a soberania nacional serão restauradas em nosso país. Restabeleceremos a ordem, libertaremos os presos políticos, construiremos um país extraordinário e traremos nossos filhos de volta para casa", disse. Mas justamente Trump, a quem Machado sempre elogiou efusivamente e a quem até dedicou o Prêmio Nobel da Paz, descartou qualquer cooperação com a política conservadora, que é controversa em seu país devido aos seus laços estreitos com os Estados Unidos. Embora Machado seja "uma mulher simpática", disse ele, ela "não tem nem o apoio nem o respeito dentro do país". Trump está completamente enganado, afirma o jornalista e cientista político venezuelano Andrés Cañizález, da Universidade Católica Andrés Bello. "María Corina Machado continua sendo, sem dúvida, a voz de oposição mais importante da Venezuela. O Prêmio Nobel da Paz a ajudou a se posicionar como a pessoa que canaliza o descontentamento na Venezuela", diz. Numa pesquisa recente, 45% a consideram a líder política mais importante do país. Críticas podem dar em cadeia Cañizález reitera o quão perigoso era e é expressar abertamente descontentamento na Venezuela. Ele relata a história de uma médica de 65 anos que há um ano conclamou seus vizinhos num grupo de WhatsApp a se recusarem a votar em Maduro na eleição presidencial por causa da crise econômica. Ela foi condenada à pena máxima de 30 anos de prisão, a mesma pena para assassinato, sequestro ou estupro, e só foi libertada recentemente após pressão internacional. Ele também avalia que o papel crucial agora cabe aos militares. "Não tivemos uma presença militar massiva nas ruas da Venezuela, o que foi realmente notável. É provável que eles estejam avaliando cuidadosamente os custos e benefícios de não se manterem mais ao lado do regime de Maduro." Autor: Oliver Pieper
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