Reunião sobre Venezuela na ONU evidencia divisões entre líderes e termina sem avanço
A primeira reunião do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CSNU) de 2026, convocada em caráter extraordinário para debater o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, terminou sem consenso, como tem sido o desfecho da maioria dos temas debatidos no órgão máximo de segurança da ONU. No encontro, convocado pela Colômbia - e com o apoio de Rússia e China, ambos com assentos permanentes no CSNU -, ficou evidente a divisão dos líderes globais sobre os acontecimentos do fim de semana que resultaram na queda do ditador Nicolás Maduro.
Apesar da falta de avanços, as conversas e as negociações bilaterais devem continuar nos bastidores, além da reunião realizada na sede da ONU, em Nova York, nesta segunda-feira, conforme fontes ouvidas pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
Algum membro do Conselho Segurança poderia propor um texto de resolução sobre o ataque dos EUA à Venezuela, diz uma delas, na condição de anonimato. Mas, por ora, isso ainda não ocorreu e o texto também poderia ser vetado pelos EUA, explica um segundo diplomata. O direito de veto dos membros permanentes do CSNU, aliás, tem impedido o órgão de agir em relação a diferentes conflitos.
Órgão máximo de decisão, o CSNU é composto por 15 países, sendo cinco deles com assento permanente e dez com vagas rotativas. Os membros permanentes são China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia; todos têm poder de veto.
O Brasil, que solicitou participar da reunião, instou o CSNU a assumir sua responsabilidade em relação aos ataques dos EUA à Venezuela. Defendeu ainda que o órgão tem de reagir com "determinação, clareza e obediência ao direito internacional, a fim de impedir que a lei da força prevaleça sobre o Estado de Direito".
O representante permanente do Brasil na ONU, Sérgio Danese, afirmou que os bombardeios em território venezuelano e a captura de Maduro ultrapassam uma "linha inaceitável" e "abrem um precedente perigoso". O diplomata discursou em espanhol, um ato de simbolismo em sua fala, normalmente feita em inglês, e reforçou o posicionamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como esperado.
"Esses atos constituem uma grave afronta à soberania da Venezuela e estabelecem um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional", disse Danese. Ele afirmou que, pela primeira vez, ocorreu um "evento profundamente alarmante" na América do Sul e que a região é uma "zona de paz". O diplomata ainda enfatizou que o Brasil não acredita que a solução para a situação na Venezuela seja a criação de "protetorados", mas sim ações que respeitem a autodeterminação do seu povo, dentro dos limites da Constituição do país.
Em contraste, o embaixador dos Estados Unidos na ONU, Mike Waltz, rebateu as acusações de representantes da América Latina e disse que os EUA "não estão ocupando" a Venezuela. Em seu discurso, afirmou que a operação do último sábado foi uma "aplicação da lei" diante de acusações legais que existem há décadas.
"O Presidente (Donald) Trump deu uma chance à diplomacia. Ele ofereceu a Maduro múltiplas ofertas. Ele tentou desescalar. Maduro se recusou a aceitá-las", disse Waltz, acrescentando que os EUA acreditam que um "futuro melhor" para o povo da Venezuela e do mundo é "estabilizar a região". "Os Estados Unidos não vacilarão em nossas ações para proteger os americanos da praga do narcoterrorismo e buscar paz, liberdade e justiça para o grande povo da Venezuela", pontuou.
Já o embaixador permanente da Venezuela na ONU, Samuel Moncada, disse que o ataque dos EUA foi uma flagrante violação à integridade territorial e independência política do país e que estabelece um "precedente extremamente perigoso" para os países membros da ONU, independentemente de tamanho, poder ou alianças. "O dia 3 de janeiro de 2026 é uma data de profunda importância histórica, não só para a Venezuela, mas para o sistema internacional. Nesse dia, na América, a Venezuela foi alvo de um ataque armado ilegítimo, sem qualquer justificativa legal, por parte do governo dos Estados Unidos", disse.
Por sua vez, representantes da Colômbia, Rússia e China condenaram novamente os ataques dos EUA à Venezuela, reforçando o seu apoio ao país e pedindo uma solução diplomática. A Rússia criticou os atos do EUA, apontando 'hipocrisia e cinismo'. A China acusou os americanos de sequestrarem Maduro e sua esposa e disse que está "profundamente chocada" com o ataque à Venezuela, reafirmando posicionamento divulgado no sábado.
"Isso representa uma evidente violação da soberania, independência política e a integridade territorial da Venezuela. Não há nenhuma justificativa, em nenhuma circunstância, para o uso unilateral da força, para cometer um ato de agressão", disse a embaixadora da Colômbia na ONU, Leonor Zalabata. O país solicitou a reunião para debater os ataques dos EUA à Venezuela.
Representante da Argentina também reafirmou posição mais alinhada aos EUA e defendeu "uma transição segura" na Venezuela. No fim de semana, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, se recusou a comentar se a ação dos EUA contra a Venezuela pode ter violado o direito internacional, em diferentes entrevistas a veículos de imprensa estrangeiros. A União Europeia pediu "calma e moderação de todos os atores envolvidos na crise na Venezuela, com o objetivo de evitar escalada de tensões e buscar uma solução pacífica" para a crise."
No discurso de abertura da reunião, a vice-secretária-geral da ONU, Rosemary DiCarlo, disse que a organização está "profundamente preocupada que as regras do direito internacional não tenham sido respeitadas em relação à ação militar de 3 de janeiro".
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