Com posse de Delcy, irmãos Rodríguez comandarão o Executivo e o Legislativo na Venezuela
Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente de Nicolás Maduro, tomou posse como presidente interina da Venezuela nesta segunda-feira, 5, no edifício do Parlamento do país. A líder foi empossada por seu irmão, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez. A parceria dos dois, que agora encabeçam o poder Executivo e Legislativo venezuelano, deve ditar a transição de poder no país.
Embora tenha declarado que pretende trabalhar com a administração Trump, Delcy criticou em seu discurso os ataques promovidos pelos Estados Unidos no último sábado, 3, em uma ação militar que terminou com a captura de Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
"Venho com tristeza pelo sofrimento infligido ao povo venezuelano após uma agressão militar ilegítima contra a nossa pátria", disse ela, com a mão direita erguida. Delcy tratou a prisão do casal como um "sequestro" e chamou ainda Maduro e Flores de heróis.
Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina da Venezuela, afirmou que seu principal objetivo seria trazer Maduro de volta ao poder, a quem chamou de "irmão" e presidente, e elogiou os "heróis" mortos no ataque americano de sábado. Ele pediu união e diálogo com a oposição, acrescentando: "Unidos, venceremos".
Já o filho de Maduro, Nicolás Maduro Guerra, prometeu seu apoio incondicional a Delcy Rodríguez. "Conte comigo, conte com a minha família e conte com a nossa firmeza em dar os passos certos nesta responsabilidade que lhe foi confiada hoje." Com a voz embargada, dirigiu-se ao pai: "A pátria está em boas mãos, pai, e em breve nos abraçaremos aqui na Venezuela."
Irmãos Rodriguez no poder
O governo venezuelano buscou, nesta segunda-feira, mostrar à população e ao mundo que o país está sendo administrado de forma independente e não controlada pelos Estados Unidos.
Parlamentares alinhados ao partido governista, incluindo o filho de Maduro, reuniram-se na capital, Caracas, para dar continuidade à cerimônia programada de posse da Assembleia Nacional para um mandato que vai até 2031. Eles reelegeram o presidente da Casa - irmão de Delcy Rodríguez - e fizeram discursos focados na condenação da captura de Maduro por forças dos Estados Unidos no sábado.
"Se normalizarmos o sequestro de um chefe de Estado, nenhum país estará seguro. Hoje é a Venezuela. Amanhã, pode ser qualquer nação que se recuse a se submeter", disse Nicolás Maduro Guerra (o filho de Maduro), no Palácio Legislativo, em sua primeira aparição pública desde sábado. "Este não é um problema regional. É uma ameaça direta à estabilidade política global."
Maduro Guerra, também conhecido como "Nicolasito", exigiu que seu pai e sua madrasta, Cilia Flores, sejam devolvidos ao país sul-americano e pediu apoio internacional. Filho único do líder deposto, ele também denunciou ter sido citado como co-conspirador na acusação federal que imputa crimes a seu pai e a Flores.
Maduro e Cilia passam por audiência
Enquanto os parlamentares venezuelanos se reuniam, Maduro fez sua primeira aparição em um tribunal dos Estados Unidos, onde respondeu às acusações de narcoterrorismo usadas pela administração Trump para justificar sua captura e transferência para Nova York. Maduro declarou-se "inocente" e um "homem decente" ao se declarar inocente das acusações federais de tráfico de drogas.
O presidente Donald Trump afirmou que os EUA iriam "administrar" temporariamente a Venezuela, mas o secretário de Estado, Marco Rubio, disse no domingo que o país não governaria o dia a dia venezuelano, limitando-se a aplicar uma "quarentena do petróleo" já existente.
No domingo, Rodríguez afirmou que a Venezuela busca "relações respeitosas" com os Estados Unidos, uma mudança em relação ao tom mais desafiador adotado logo após a captura de Maduro. A mensagem conciliatória veio após Trump ameaçar que ela poderia "pagar um preço muito alto" caso não atendesse às exigências dos Estados Unidos.
Antes da cerimônia de posse, a deputada venezuelana Grecia Colmenares afirmou que daria "todos os passos gigantescos necessários para trazer de volta (à Venezuela) o mais valente dos valentes, Nicolás Maduro Moreno, e nossa primeira-dama, Cilia Flores". "Juro pelo destino comum que merecemos", disse.
Um funcionário do Departamento de Estado afirmou, nesta segunda-feira, que a administração Trump está elaborando planos preliminares para reabrir a embaixada dos Estados Unidos na Venezuela. O funcionário, que falou sob condição de anonimato para discutir deliberações internas, disse que já começaram preparativos iniciais "para permitir uma reabertura" da embaixada em Caracas, caso Trump decida retornar diplomatas americanos ao país.
Quem é Delcy Rodriguez
Rodríguez atuou como vice-presidente de Maduro desde 2018, supervisionando grande parte da economia venezuelana - um país dependente do petróleo - e seu temido serviço de inteligência, além de estar na linha de sucessão presidencial.
Ela integra um grupo de altos funcionários da administração de Maduro que agora parece controlar a Venezuela, mesmo enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e outros integrantes do governo afirmam que pressionarão as autoridades para que se alinhem à visão norte-americana para o país rico em petróleo.
Rodríguez, advogada e política de 56 anos, tem uma longa trajetória representando a revolução iniciada pelo falecido Hugo Chávez no cenário internacional. Não está claro se a líder buscará aproximação com a administração Trump ou manterá a postura adversária adotada por seu antecessor.
Histórico familiar
Os irmãos Rodríguez possuem credenciais de esquerda forjadas pela tragédia. O pai deles foi um líder socialista preso por envolvimento no sequestro do empresário norte-americano William Niehous, em 1976, e morreu posteriormente sob custódia policial.
Diferentemente de muitos integrantes do círculo íntimo de Maduro, os irmãos Rodríguez evitaram acusações criminais nos Estados Unidos, embora a presidente interina tenha sido alvo de sanções norte-americanas durante o primeiro mandato de Trump, em razão de seu papel no enfraquecimento da democracia venezuelana.
Rodríguez ocupou diversos cargos de menor escalão durante o governo Chávez, mas ganhou projeção ao trabalhar ao lado de Maduro, a ponto de ser vista como sua sucessora. Atuou como ministra nas pastas da Economia, Relações Exteriores e Petróleo, entre outros cargos, ajudando a tentar estabilizar a economia cronicamente em crise da Venezuela após anos de hiperinflação e turbulência.
Ela desenvolveu laços fortes com republicanos da indústria petrolífera e de Wall Street que se opunham à ideia de uma mudança de regime liderada pelos Estados Unidos. A presidente interina também presidiu uma assembleia promovida por Maduro em resposta aos protestos de rua de 2017, com o objetivo de neutralizar o Parlamento de maioria oposicionista.
Rodríguez mantém uma relação próxima com as Forças Armadas, que há muito atuam como árbitro das disputas políticas na Venezuela, segundo Ronal Rodríguez, porta-voz do Observatório da Venezuela da Universidade do Rosário, em Bogotá, na Colômbia. "Ela tem uma relação muito particular com o poder", afirmou.
*Com agências internacionais.
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