EUA abrem era de incerteza na Venezuela ao derrubarem Maduro
Não está claro quem assumirá o poder, nem sob qual formato Trump poderá cumprir plano de "administrar" o país sul-americano até transição segura.A derrubada do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos inaugurou no sábado (03/11) uma era de incerteza para a Venezuela. Com o líder do regime venezuelano e sua esposa capturados e retirados à força do país sul-americano, não está claro quem assumirá o poder na esteira de uma prolongada escalada de tensão militar. De um lado, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou a jornalistas que administrará a Venezuela até que uma transição de poder "segura, adequada e prudente" seja possível. De outro, a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez reagiu afirmando, em pronunciamento gravado, que Maduro é o único presidente. "Estamos prontos para defender a Venezuela", disse Rodríguez, acrescentando que a Venezuela não será "colônia" de nenhum outro país. Ela anunciou ainda a ativação do Conselho de Defesa da Nação, que ela preside, e disse ter enviado ao Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) um decreto que concede "faculdades especiais" diante de "ameaças" dos EUA. O documento foi assinado em 29 de setembro por Maduro, e o texto não foi divulgado. Em solo americano Trump publicou no sábado, na rede social fundada por ele próprio, uma foto do venezuelano algemado e vendado. Diversos governos, bem como o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), viram na operação dos EUA — que incluiu bombardeios em Caracas e arredores — uma violação da legislação internacional. No fim do dia, Maduro e Flores chegaram a uma base militar de Nova York, a bordo de um Boeing 757 e cercados por agentes do FBI e da Administração de Repressão às Drogas (DEA, na sigla em inglês), o órgão que reprime o tráfico de narcóticos nos EUA. Eles deverão comparecer diante de um tribunal federal para responder a um processo por supostas ligações com o Cartel de los Soles, segundo a procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi. O presidente venezuelano foi "acusado de conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos, e conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos explosivos contra os Estados Unidos", disse ela. Especialistas, entretanto, consideram frágil a justificativa americana para a ação militar, realizada em nome da guerra às drogas, dada a pequena participação da Venezuela no tráfico internacional. Quem assumirá o poder? Não se sabe ainda quem serão os indicados de Trump para a missão de administrar a Venezuela, nem qual formato ela poderá assumir. No sábado, Trump sugeriu que o secretário de Estado, Marco Rubio, poderá ter papel importante. O republicano descartou, entretanto, a possibilidade de a proeminente opositora Maria Corina Machado assumir a liderança, alegando que ela não tem "apoio ou respeito" na Venezuela para governar. Os EUA não conversaram com ela desde a retirada de Maduro, de acordo com Trump. Mais cedo, a Nobel da Paz de 2025 pedira que Edmundo González se tornasse de imediato o novo presidente. Ele afirma ter vencido as eleições de 2024, em que concorreu no lugar de Machado, depois de ela ter sido impedida pela Justiça venezuelana. Trump alertou às autoridades que permanecem na Venezuela que ações militares continuam sobre a mesa. "Todas as figuras políticas e militares na Venezuela devem entender: o que aconteceu com Maduro acontecerá com eles” se desafiarem os desejos dos EUA para o país sul-americano. Segundo o presidente americano, os venezuelanos agora terão "paz, segurança e justiça" e "todas as riquezas deles roubadas". Os EUA, ele disse, não "têm medo" de levar tropas ao país sul-americano. Além de Rodríguez, possíveis sucessores de Maduro no chavismo incluem o ministro do Interior e da Justiça, Diosdado Cabello, e o Ministro da Defesa, Vladimir Padrino López. Volta das petrolíferas No centro dos planos de Trump está a volta das petrolíferas americanas para explorar as reservas venezuelanas. A Venezuela nacionalizou o setor na década de 1970. Mais tarde, sob o antecessor de Maduro, Hugo Chávez, as empresas foram obrigadas a ceder o controle majoritário à estatal venezuelana PDVSA. "Vamos levar para lá nossas grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores em qualquer lugar do mundo, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura gravemente danificada, a infraestrutura petrolífera, e começar a gerar dinheiro para o país", afirmou. Segundo ele, "grandes quantidades" de petróleo serão vendidas a outros países, e toda a riqueza será destinada ao povo venezuelano. Por ora, o embargo dos EUA a todo o petróleo da Venezuela permanece em vigor. Questionado por um jornalista sobre como o ataque atende aos interesses dos EUA, Trump ressaltou a abundância do petróleo na Venezuela. "Nós queremos nos cercar de bons vizinhos, estabilidade e energia. Temos tremenda energia naquele país. É muito importante protegê-la. Nós precisamos disso para nós mesmos e para o mundo." Estima-se que a Venezuela tenha reservas de petróleo de cerca de 303 bilhões de barris, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), mais do que qualquer outra nação. A petrolífera americana Chevron já opera atualmente no país graças a uma autorização especial. Doutrina "Donroe" Tendo repetidamente acusado a Venezuela de tomar o petróleo dos EUA, Trump bradou no sábado que "o domínio dos Estados Unidos na América Latina nunca mais será questionado". "A Venezuela protegia cada vez mais adversários estrangeiros em nossa região e adquiria armas ofensivas ameaçadoras que podiam colocar em risco os interesses e vidas dos Estados Unidos”, declarou o presidente. Na sua nova Estratégia de Segurança Nacional, publicada no fim do ano passado, Trump deixou claras as suas pretensões hegemônicas para as Américas. Já apelidada de "Doutrina Donroe" – um neologismo que combina Donald e Monroe – a estratégia destilada no documento revive a antiga Doutrina Monroe, de 1823, usada para justificar a aspiração dos EUA em se tornarem a principal potência ocidental. Além disso, o texto afirma que os EUA negarão a competidores externos "a capacidade de posicionar forças ou outros meios de ameaça" ou "possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais no nosso hemisfério", referindo-se especialmente a China, Rússia e Irã. O reposicionamento sucede o que o governo Trump chama de "anos de negligência" nas Américas. "Avaliação legal exigirá tempo" Enquanto diversos países condenaram a operação, aliados de Trump o congratularam. Já o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, disse que uma avaliação legal do ataque levará tempo. Ele alertou contra o risco de "instabilidade política" na Venezuela, pedindo uma "transição para um governo legitimado por eleições". Classificando como "complexa" a justificativa americana para intervir na Venezuela, afirmou que Maduro "levou o seu país à ruína". "Maduro desempenhou um papel problemático na região, formando alianças infelizes em todo o mundo e envolvendo a Venezuela no tráfico de drogas", escreveu. Já o escritório diplomático da Alemanha conclamou "todas as partes envolvidas a evitar uma escalada da situação e a buscar caminhos para uma solução política." Também defendeu o respeito ao direito internacional, afirmando que "os venezuelanos merecem um futuro pacífico e democrático." Por sua vez, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que "atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo." No fim de dezembro, o brasileiro previu uma "catástrofe humanitária" na Venezuela em caso de intervenção militar dos EUA. A União Europeia (UE) apelou à moderação, afirmando que "em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e da Carta das Nações Unidas devem ser respeitados."
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