Mujica diz estar 'destruído' após tratamento contra o câncer

"A vida é linda. Com todas as suas aventuras, eu amo a vida. E a estou perdendo porque estou na hora de partir", acrescentou

17:17 | Ago. 23, 2024

Por: AFP
(ARQUIVOS) Ex-presidente do Uruguai (2010-2015) José Mujica participa do XI Congresso do partido Movimiento de Participacion Popular (MPP), em Montevidéu, no dia 19 de março de 2023. O ex-presidente do Uruguai, José Mujica, anunciou em abril Em 29 de setembro de 2024, ele tem câncer de esôfago cujo tratamento é complexo, mas prometeu permanecer no cenário político enquanto puder e disse estar grato por sua vida. (Foto de Pablo PORCIUNCULA/AFP) (foto: Pablo PORCIUNCULA/AFP)

O ex-presidente uruguaio José Mujica declarou que a radioterapia contra o câncer de esôfago diagnosticado em maio foi considerada um sucesso, mas ele se sente "destruído" e "perdendo" a vida, segundo declarações ao jornal americano The New York Times publicadas nesta sexta-feira, 23.

"Fizeram um tratamento com radiologia em mim. De acordo com os médicos, correu tudo bem, mas eu estou destruído", disse o ex-mandatário de 89 anos, ao ser perguntado sobre sua saúde.

"A vida é linda. Com todas as suas aventuras, eu amo a vida. E a estou perdendo porque estou na hora de partir", acrescentou. 

O ex-presidente, um ex-guerrilheiro que governou o Uruguai de 2010 a 2015 e continua sendo uma figura influente na política nacional e na esquerda latino-americana, falou de sua modesta fazenda nos arredores de Montevidéu, onde se recupera das sessões de radioterapia a que foi submetido até meados de junho.

Na entrevista, na qual o Times o apresenta como um "filósofo sem papas na língua", Mujica não poupou suas críticas à sociedade do consumo.

"A humanidade precisa trabalhar menos e ter mais tempo livre e ser mais sóbria. Para que tanto lixo? Por que trocar de carro? Trocar de geladeira?", expressou.

"Porque a vida é uma só e vai embora. É preciso dar sentido à vida. É preciso lutar pela felicidade humana. Não só pela riqueza", refletiu.

Ele também destacou seu apreço pela natureza, e embora afirme não acreditar em Deus, disse respeitar muito quem acredita. "É como um consolo diante da ideia da morte", declarou.

Questionado sobre como gostaria de ser lembrado, foi enfático: "como o que sou: um velho louco" que tem "a magia da palavra".

Mujica, que pegou em armas sob governos democráticos nas décadas de 1960 e 1970 e esteve preso durante 13 anos, a maior parte durante a ditadura civil-militar (1973-1985) e em condições difíceis, está se recuperando da doença junto de sua esposa, Lucía Topolansky, ex-guerrilheira que se tornou vice-presidente do Uruguai (2017-2020).

Em uma nota intitulada "A história de amor de dois rebeldes que chegaram a liderar o Uruguai", que o Times publicou junto com a entrevista, o ex-presidente fala sobre sua companheira.

"O amor tem idades. Quando você é jovem, é uma fogueira. Quando é velho, é um doce costume. Se estou vivo é porque ela [também] está", completou Mujica.