Militares dão golpe de estado no Gabrão, prendem presidente reeleito e fecham fronteiras

Uma dúzia de soldados uniformizados apareceram na televisão estatal ainda durante a manhã e anunciaram que haviam tomado o poder. Presidente reeleito foi colocado em prisão domiciliar

O comitê eleitoral do Gabão anunciou que o presidente Ali Bongo Ondimba, 64 anos, venceu as eleições com 64% dos votos na manhã de quarta-feira, 30. Em poucos minutos, ouviram-se tiros no centro da capital, Libreville. Uma dúzia de soldados uniformizados apareceram na televisão estatal ainda durante a manhã e anunciaram que haviam tomado o poder.

"Estão anuladas as eleições de 26 de agosto e os resultados manipulados", anunciou um dos militares, que falou em nome do grupo.

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"Todas as instituições da República foram dissolvidas: o governo, o Senado, a Assembleia Nacional e o Tribunal Constitucional", afirma o comunicado.

"Reafirmamos o nosso compromisso de respeitar os compromissos do Gabão para com a comunidade nacional e internacional", disse um porta-voz do grupo, cujos membros provinham da polícia, da guarda republicana e de outras facções das forças de segurança.

Ali Bongo foi colocado em prisão domiciliar, ao lado da família e de seus médicos, anunciaram os militares na televisão estatal.

Um dos filhos dele, Noureddin Bongo Valentin, foi detido e acusado de "alta traição".

Também foram detidos funcionários de alto escalão do regime, conselheiros da presidência e os dois principais líderes do muito influente Partido Democrático Gabonense (PDG).

O comandante da Guarda Presidencial, general Brice Oligui Nguema, foi carregado de maneira triunfal por centenas de soldados.

Entre os militares que fizeram o anúncio estavam membros da Guarda Republicana (GR), a guarda pretoriana da presidência, cujos integrantes são reconhecidos por suas boinas verdes, além de soldados do exército oficial e membros da polícia.

Correspondentes da AFP ouviram tiros na capital Libreville durante a leitura do comunicado. No início da manhã, as ruas de Libreville estavam desertas.

Gabão

O país rico em petróleo da África central era governado há mais de 55 anos pela família Bongo. Ali Bongo estava buscando um terceiro mandato nas eleições neste fim de semana. Ele cumpriu dois mandatos desde que chegou ao poder em 2009, após a morte de seu pai, Omar Bongo, que governou o país por 41 anos.

Na eleição, Bongo enfrentou coalizão de oposição liderada pelo professor de economia e ex-ministro da Educação, Albert Ondo Ossa, cuja indicação surpresa veio uma semana antes da votação.

"Nosso belo país, o Gabão, sempre foi um refúgio de paz. Hoje, esse país está passando por uma grave crise institucional, política, econômica e social", disse um grupo de cerca de uma dúzia de soldados em uma mensagem transmitida pelo canal de televisão Gabon 24.

"É preciso admitir que a organização dos prazos eleitorais, conhecidos como eleições gerais de 26 de agosto de 2023, não cumpriu as condições para uma votação transparente, credível e inclusiva, tão desejada pelos gaboneses e gabonesas", eles também denunciaram que "a isso se soma uma governança irresponsável e imprevisível, que resulta em uma deterioração contínua da coesão social, com o risco de levar o país ao caos".

Eles enfatizaram que "para esse fim, as eleições gerais de 26 de agosto de 2023 são anuladas, bem como os resultados truncados", as fronteiras do país "são fechadas até novo aviso" e "todas as instituições da República são dissolvidas, incluindo o governo, o Senado, a Assembleia Nacional e o Tribunal Constitucional".

Bongo teve 64,27% dos votos e derrotou Ondo Ossa, que ficou em segundo lugar com 33,77% dos votos. Ossa havia denunciado "fraude orquestrada" pelo Partido Democrático Gabonês (PDG) do presidente Bongo nas eleições, que ocorreram sem a presença de observadores internacionais.

As autoridades gabonesas cortaram a conexão com a Internet e impuseram toque de recolher após as eleições presidenciais, legislativas e municipais de sábado, 26.

Gaboneses foram às urnas no sábado

Essa votação ocorreu à sombra da última eleição presidencial em 2016, na época, os mandatos presidenciais eram de sete anos, quando Bongo derrotou o oposicionista Jean Ping por menos de 6 mil votos e a oposição denunciou fraude eleitoral, o que desencadeou uma crise pós-eleitoral com protestos violentos que foram duramente reprimidos, com os manifestantes chegando a incendiar a Assembleia Nacional.

Essas eleições também foram questionadas ao nível internacional e a missão de observação da UE, que não enviou observadores ao Gabão este ano, observou "anomalias" que questionaram o processo e seu resultado.

Após a votação da semana passada, o Ministro das Comunicações do país centro-africano, Rodrigue Mboumba Bissahou, disse na televisão estatal que haveria um toque de recolher noturno a partir das 19 horas. Ele disse que o acesso à Internet estava sendo restrito indefinidamente, pois havia apelos à violência e esforços para espalhar desinformação.

Todas as votações realizadas no Gabão desde o regresso do país a um sistema multipartidário em 1990 terminaram em violência. Os confrontos entre as forças governamentais e os manifestantes após as eleições de 2016 mataram quatro pessoas, segundo dados oficiais. A oposição disse que o número de mortos era muito maior.

Temendo a violência, muitas pessoas na capital foram visitar familiares noutras partes do país antes das eleições ou abandonaram completamente o Gabão. Outros armazenaram alimentos ou reforçaram a segurança nas suas casas.

Outro grupo de soldados tentou um golpe em janeiro de 2019, enquanto Bongo estava no Marrocos se recuperando de um derrame, mas foi rapidamente derrotados.

O anúncio do golpe de estado pelos militares do Gabão ocorreu após o golpe militar no Níger em 26 de julho, tornando o Níger, o quarto país da África Ocidental a ser liderado por uma junta militar, depois de Mali, Guiné-Conacri e Burkina Faso, que também sofreram golpes entre 2020 e 2022.

As reações internacionais ao novo golpe de Estado em um país africano foram rápidas. A China pediu "garantias à segurança de Ali Bongo", enquanto a França, ex-potência colonial, "condenou o golpe militar em curso" e a Rússia expressou "profunda preocupação".

Com agências internacionais

 

 

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