Chilena Manuela Martelli mostra em Cannes retrato de 'mulheres anônimas' durante a ditadura
A partir da lembrança de sua avó, a atriz Manuela Martelli decidiu contar os primeiros anos da ditadura de Pinochet no Chile do ponto de vista das "mulheres anônimas", no filme "1976", apresentado nesta quinta-feira (26) em Cannes.
Uma dessas "mulheres anônimas" poderia ser Carmen, a protagonista da narrativa, que é de uma família abastada. Enquanto supervisiona as obras de reforma de sua casa de praia, ela conhece um jovem abrigado em segredo na paróquia do povoado.
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Já se passaram três anos desde o golpe de Estado de Augusto Pinochet, mas Carmen, mergulhada em seus afazeres domésticos, com seus filhos e netos, parece desconhecer a real situação do país sob a ditadura.
Para seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras, Martelli, atriz com mais de 20 papéis no currículo - entre eles em "Machuca" (2004) e "Navidad" (2009) -, quis contar a história desses anos "a partir do ponto de vista de uma mulher anônima, de uma mulher 'qualquer'", afirma à AFP.
Pensando em sua avó materna, muito a frente de seu tempo, começou a se questionar sobre as "mulheres anônimas que não estavam nos livros de história, que sequer foram escutadas" naquela época.
O filme, exibido na mostra paralela Quinzena dos Realizadores, busca fazer "justiça com o lado que não teve voz, o lado que ficou dentro de casa", reitera a cineasta de 39 anos.
Carmen, sempre bem vestida, está focada em sua família e na reforma de sua casa. Realiza também atividades de caridade na paróquia.
Ela leva uma vida bastante rotineira até que o padre local a pede ajuda com um jovem gravemente ferido que precisa de cuidados médicos. A protagonista então começa a se conscientizar sobre as atrocidades da ditadura e decide se mobilizar para ajudá-lo.
Inicialmente de forma meio irresponsável, mas logo a par do risco que corre, a mulher vai aprendendo os códigos para se aproximar dos opositores sem ser detectada pelos militares.
"Carmen começa a se abrir (...) ao que está acontecendo lá fora", explica a diretora. "É a trajetória dela da cegueira à lucidez", acrescenta.
Para encarnar essa mulher de poucas palavras, a cineasta sempre pensou na atriz Aline Küppenheim, pois ela transmite "esse mundo interno, a complexidade e a sensibilidade da personagem".
Martelli não teve dúvidas quanto a estrear com um longa que toca em um tema tão crucial da história do Chile, pensando sobretudo nas novas gerações. O período de desenvolvimento do filme coincidiu, inclusive, com a revolta social no país em 2019.
Por um momento, a diretora pensou que retratar uma época tão sombria do Chile em contraposição a um "período tão luminoso" poderia ficar um pouco "obsoleto". Porém, por fim, lhe pareceu "relevante recordar os tempos mais obscuros de nossa história para fazê-los presentes e não esquecê-los".
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