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Pequeno manancial escondido salva vidas em zona de guerra na Ucrânia

10:26 | Mai. 10, 2022
Autor AFP
Tipo Notícia

A água cai a conta-gotas, mas para os habitantes de Lysychansk, cidade ocupada por tropas russas no leste da Ucrânia, um pequeno manancial escondido entre as árvores representa um oásis em meio à guerra.

Sob o som dos obuses, Artyom Cherukha se agacha e enche várias garrafas de plástico.

A uns passos dali, a cauda de um míssil "Hurricane", do tamanho de um homem, balança sob os galhos de uma árvore.

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Cherukha, de 41 anos, não parece prestar atenção ao conflito ao redor. Só espera as gotas de água caírem.

"Sinto uma apatia total. Estou moralmente vazio, sem falar no meu estado físico", afirma, com voz monótona. "Estamos aqui sentando, contando as bombas".

Várias cidades industriais da frente leste da Ucrânia já não têm acesso à água ou alimentos. Nos porões, os habitantes (não se sabe quantos) tentam sobreviver em condições cada vez mais difíceis.

Antes do início da invasão russa, em 24 de fevereiro, Lysychansk, na região de Luhansk, no coração do Donbass, era um importante centro de extração de carvão, com cerca de 100 mil empregos e várias igrejas antigas.

As ruas desta cidade fantasma estão em ruínas e as estradas em seu entorno estão sendo bombardeadas de forma que missões humanitárias que abastecem a região tiveram que ser interrompidas.

Em dois meses de guerra, as forças russas avançam cada vez mais sobre a localidade e as autoridades insistem para que a população saia.

Os poucos veículos que circulam, em alta velocidade para fugir dos disparos, parecem estar destinados, principalmente, a socorrer soldados ucranianos feridos.

Os poucos locais que se atrevem a sair de seus refúgios o fazem para tomar um pouco de sol e abastecer suas garrafas no pequeno manancial.

"Não há mais água na cidade. Viemos aqui porque é o único local" onde é possível encontrar um pouco, explica Andriy Tytyunkov, um funileiro de 39 anos.

"Mas quando os bombardeios são realmente fortes, temos que entrar", afirma.

"Podem cair [bombas] em qualquer lugar".

Várias gerações do norte de Lysychansk recorreram a esta fonte escondida ao longo dos anos: durante a Segunda Guerra Mundial e, mais recentemente, em 2014, durante o conflito com os separatistas do Donbass apoiados por Moscou.

A prefeitura garante que os danos à rede de abastecimento são "irreparáveis" e que não haverá água até o fim da guerra.

Portanto, esta fonte natural é a salvação da cidade, apesar de seus problemas. Antes de sair, a água penetra na terra, impregnada por produtos químicos.

A região é uma das mais contaminadas do leste europeu. Um vale próximo ao manancial está tomado por resíduos tóxicos de uma das muitas fábricas da localidade.

"Precisamos ferver a água, explica Volodymyr Ivanov, ex-marinheiro.

À falta d'água se soma a escassez de alimentos.

"Já não temos praticamente nada", disse Artyom Cherukha, mencionando que as últimas entregas de ajuda humanitárias foram no começo da semana anterior.

"Mesmo que eu decida [...] alimentar meus filhos apenas uma vez ao dia, só teremos o bastante para três dias", afirma o homem, pai de sete.

"Como dizer a seus filhos que não há nada para comer?"

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