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Em Moscou, um desfile da Vitória transfigurado pela ofensiva na Ucrânia

10:01 | Mai. 09, 2022
Autor AFP
Tipo Notícia

Os tanques desfilaram por Moscou como todo 9 de maio para marcar a vitória sobre os nazistas. Mas, desta vez, a ofensiva na Ucrânia ofusca a homenagem ao sacrifício dos soldados soviéticos.

Ania, uma jovem de 20 anos que prefere não informar seu sobrenome, diz ser de Mariupol, cidade ucraniana que está entre as mais destruídas pela ofensiva ordenada pelo presidente russo Vladimir Putin em 24 de fevereiro, oficialmente para derrotar "neonazistas" ucranianos supostamente envolvidos num genocídio de falantes da língua russa.

"Sou muito grata a Putin pelo que ele está fazendo. Devemos derrotar esse nazismo como nossos avós" em 1945, diz a jovem ao lado de seu namorado Vova na rua Arbat.

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"Não pode haver nazismo no país", repete, usando um chapéu militar e uma fita de São Jorge no peito, símbolo na Rússia da "Grande Guerra Patriótica" da URSS contra a Alemanha nazista.

Irina, na casa dos quarenta, veio ao desfile militar para homenagear seus dois avós que lutaram contra a Alemanha nazista. Para ela, é essa memória que deve ser celebrada e não o compromisso russo na Ucrânia.

"Não deveríamos traçar esse paralelo, são tempos completamente diferentes", declara, contradizendo de fato o presidente russo.

No contexto repressivo russo, ela prefere não fazer outros comentários, esperando simplesmente que "tudo isso acabe rapidamente".

Esta manhã, um silêncio inusitado tomou o centro da cidade, cheio de bandeiras vermelhas e esquadrinhado pela polícia. E então o som dos tanques, sistemas antimísseis e enormes mísseis balísticos percorrendo o asfalto com suas correntes e pneus.

Os espectadores agitavam pequenas bandeiras russas ou soviéticas, mas o júbilo de outros anos não se fez presente.

Procurada pela AFP, Anna, uma blogueira de 35 anos, preferiu passar a manhã na cama com fones de ouvido.

O barulho do desfile, ela "não achava assustador há 35 anos. Este ano, é muito assustador".

"Não aguento mais. Antes era associado à paz e à defesa da pátria, não é mais assim", confidencia, preferindo manter o sobrenome em sigilo.

"Tenho a impressão de que toda a memória do Dia da Vitória foi roubada e destruída" pela ofensiva na Ucrânia, insiste a jovem.

Nas ruas, famílias saíram para assistir ao desfile. "Artiom, vem aqui!", chama um homem na direção de um garotinho.

Jaqueta verde militar, a criança finge atirar na multidão com uma grande arma de plástico preta.

"Olha, são mísseis (mísseis terra-ar) S300 e S400, eles estão sendo usados na Ucrânia agora", diz um homem à sua companheira na multidão.

"Estas são as armas mais poderosas que temos", acrescenta um pai para o filho empoleirado em seus ombros.

Símbolos do império soviético são exibidos, como o slogan na praça do Teatro Bolshoi "URSS - Vitória" adornado com uma réplica de 10 metros de altura de uma medalha soviética concedida após 1945.

Mas também alguns da ofensiva na Ucrânia. A letra "Z" aparece em bandeiras, tanques e uniformes das forças militares.

A letra tornou-se um emblema, adornando muitos veículos das Forças Armadas no front.

Durante os ensaios para o desfile, caças sobrevoaram Moscou em forma de "Z", mas o sobrevoo foi cancelado nesta segunda-feira devido ao mau tempo.

Em uma passagem subterrânea, Viktoria fecha seu café durante desfile. A mulher de 30 anos acha que este ano "é um pouco estranho" comemorar a Vitória.

"Evito ler as notícias, mas o que acompanho são os soldados que morreram na Ucrânia, que estão enterrados nas regiões russas", diz timidamente a jovem de Kalmukia, no sudoeste do país.

E ela teme as consequências econômicas das sanções que atingem a Rússia: "Todos temos medo do futuro. Houve mortes por covid, haverá mortes por fome?"

apo/bur/lch/mr

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