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Cara e coroa da China na América Latina: dinheiro e prejuízo ambiental, aponta relatório

18:31 | Mar. 23, 2022
Autor AFP
Tipo Notícia

A China oferece à América Latina uma relação comercial de duas caras: é um aliado rico com uma demanda estável, mas também um fator de desmatamento e conflito social, segundo um relatório da Universidade Internacional da Flórida.

Para a autora, Mónica Núñez Salas, há nesta relação duas "verdades aparentemente opostas".

Os países latino-americanos "se beneficiaram enormemente de sua parceria com a China" para "ter acesso a recursos financeiros, preencher suas lacunas de infraestrutura de transporte e energia, garantir uma demanda constante para seus produtos" e, mais recentemente, para combater a pandemia de covid-19 mediante a chamada "diplomacia das máscaras".

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Mas a China também "é um elemento determinante na paisagem da América Latina, e sua deterioração substancial pode ser atribuída, direta ou indiretamente, às mercadorias que consome", com "um impacto nos alimentos, no desmatamento e na escassez de água".

A autora expressou preocupação de que a América Latina não adote "práticas para manter essa relação de maneira sustentável, em um momento em que o mundo está se aproximando de seu ponto de virada, um limite além do qual um ecossistema se reorganiza, muitas vezes abrupta ou irreversivelmente".

Nesta relação "com nuances" ainda é "um desafio" conseguir o benefício mútuo presumido por Pequim, de acordo com o relatório elaborado para o Programa Latino-americano e o Instituto de Políticas Públicas Jack D. Gordon da Universidade Internacional da Flórida.

A América Latina sempre foi fornecedora de recursos naturais para sustentar o crescimento chinês, embora com um "alto custo". A crescente demanda chinesa de minerais e produtos agrícolas deixou os países da região "altamente dependentes de um só parceiro e transformou as paisagens locais", com uma intensa pegada de carbono e água.

"As práticas socioambientais das empresas chinesas não são inerentemente diferentes ou piores que as de seus pares ocidentais", esclarece o texto.

A crescente necessidade de dispositivos de armazenamento de energia - baterias, celulares, veículos elétricos etc - multiplicou a demanda por lítio, que Chile, Bolívia e Argentina possuem em grandes quantidades.

Seu lítio costuma estar nas águas salgadas subterrâneas, o que barateia a extração, mas provoca conflitos com comunidades locais, que sofrem uma redução de sua atividade agrícola de subsistência.

Na produção de soja, a China foi acusada de se apropriar de terras, porém, segundo o relatório, não está clara a quantidade de terras controladas pelos chineses, devido à diversidade de estratégias adotadas, que não são exclusivas das empresas chinesas.

A China importa mais de 80% da soja consumida a nível mundial e a América Latina proporciona aproximadamente 60% disso.

Apesar do impacto dos cultivos na Argentina, "houve poucos esforços para construir uma estratégia sustentável integral e muito interesse em perseverar na relação comercial", indica o texto, que critica que a sustentabilidade fique à mercê do setor privado.

A China é o maior consumidor estrangeiro de carne bovina brasileira, "um produto que se expande às custas das áreas florestais das regiões do Cerrado e da Amazônia", alerta.

Hoje, "a agricultura e a mudança de uso da terra (que vira pasto) representam mais da metade dos gases de efeito estufa do Brasil", onde alguns produtores forjam não criar gado em terras recentemente desmatadas.

Os criadores de gado brasileiros "não estão desmatando novas áreas para criar gado vendido no mercado internacional", ressalta Núñez. "É mais provável que a demanda estrangeira esteja se abastecendo de carne bovina criada em áreas de baixo impacto ambiental e deslocando o mercado local para zonas de alto impacto."

Se as relações comerciais entre América Latina e China não levarem em conta as mudanças climáticas, é provável que a vegetação da região "desapareça ou chegue ao ponto de converter irreversivelmente a maior floresta tropical reservatório de carbono em emissor de carbono".

O relatório destaca, como ponto positivo, a contribuição da China na implementação de energias limpas.

Com o lítio que importa, a China fabrica, entre outros, baterias para tecnologias de energia renovável, tornando-se uma fonte de energia verde para a América Latina.

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