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'Rasputitsa', o inimigo meteorológico de Putin na Ucrânia

09:52 | Mar. 08, 2022
Autor AFP
Tipo Notícia

O clima pode desempenhar um papel decisivo na invasão russa da Ucrânia, com a previsão de chegada da "rasputitsa", um fenômeno sazonal que transforma a terra firme em um lamaçal pouco favorável ao avanço de veículos militares.

A palavra russa que significa "tempo das estradas ruins" é uma realidade bem conhecida na Ucrânia, na Rússia e em Belarus, onde o aumento da temperatura e o derretimento da neve na primavera e as fortes chuvas do outono se traduzem, duas vezes ao ano, em várias semanas de lama.

Antes mesmo do início da rasputitsa, as imagens de tanques e veículos militares russos atolados na Ucrânia já circulam nas redes sociais.

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"Já houve muitas situações em que tanques e outros veículos russos passaram pelos campos e ficaram bloqueados. Os soldados foram obrigados a abandoná-los e continuar a pé", afirma à AFP o analista militar ucraniano Mikola Beleskov. "Esse problema existe e vai se agravar", acrescenta.

O fenômeno acontece nas famosas "terras negras" da Ucrânia, um tipo de solo conhecido como "chernozem", responsáveis pela riqueza agrícola do país e das regiões russas vizinhas entre os rios Don e Volga.

As tropas de Napoleão sofreram a penosa experiência que atrasou sua retirada da Rússia no fim de 1812 e deixou os soldados expostos ao inverno rigoroso.

Mais de um século depois, na frente leste da Segunda Guerra Mundial, "as grandes operações mecanizadas ficaram praticamente paralisadas durante as grandes chuvas de outono ou durante o degelo da primavera por causa da célebre rasputitsa, e eram retomadas no inverno quando o solo havia endurecido", explicou o historiador Laurent Henninger na revista francesa Défense Nationale em 2015.

"Foi com a chegada do inverno de 1941 que Hitler conseguiu iniciar sua grande e fracassada ofensiva para tomar Moscou", afirmou em um artigo sobre o impacto do fator climático nas guerras.

No sentido inverso, a rasputitsa freou a contraofensiva soviética em 1943.

"Recordações históricas: o degelo provoca uma temporada de lama (rasputitsa) que dura 3-4 semanas, e vai do sul (Crimeia) para o norte, até Belarus, em alguns dias. Em 1942 começou em 21/03. Em 1943, em 18/03. Em 1944, em 17/03", escreveu no Twitter o historiador militar Cédric Mas.

"O tempo não joga a favor de Putin", afirmou no domingo, ao destacar que, além das sanções e do isolamento diplomático da Rússia, "a meteorologia vai piorar em breve com a rasputitsa".

"O início da primavera é um momento ruim para conquistar a Ucrânia", afirmou Spencer Meredith, professor de Estratégia de Segurança Nacional, em um artigo publicado poucos dias antes do início da invasão pelo 'Modern War Institute', da prestigiosa academia militar americana de West Point.

"Normalmente, em meados de fevereiro, as estradas estão cobertas de camadas de gelo e neve compactas, que se fundem para criar um 'campo minado' de buracos", destacou.

Este ano, de acordo com as previsões mais recentes, o fenômeno deve começar em meados de março.

Para as tropas russas, "a situação vai piorar à medida que o tempo esquentar e que as chuvas começarem", disse Mikola Beleskov. "Ficarão pregados no chão", explica.

A rasputitsa, que "enlameia o solo, canaliza as operações pelo asfalto das estradas e ruas", afirmou na semana passada o historiador militar Michel Goya na revista Le Grand Continent.

Isto obriga as forças invasoras a progredir em comboios nos eixos viários, mais expostos aos problemas logísticos e aos ataques.

O fator climático é uma das principais vantagens da Ucrânia diante da superioridade militar russa, concorda Jason Lyall, especialista em violência política em guerras civis e convencionais na universidade americana de Dartmouth.

Os lança-mísseis antitanque Javelin, os mísseis antiaéreos Stinger, a campanha de informações na rede social TikTok e a rasputitsa são "os quatro cavaleiros do exército ucraniano", resumiu Lyall no Twitter.

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