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O plano global de investimentos da UE para fazer frente à China

00:01 | Dez. 05, 2021
Autor DW
Tipo Notícia

Iniciativa Global Gateway é vista como um esforço do continente europeu de rivalizar com investimentos chinesesIniciativa Global Gateway prevê investir 300 bilhões de euros em projetos de infraestrutura sobretudo na África, na Ásia e na América Latina. Programa europeu é visto como alternativa à Nova Rota da Seda chinesa.A Comissão Europeia anunciou nesta quarta-feira (01/12) um plano internacional de infraestrutura que chamou de Global Gateway (Portal Global, em tradução livre). A iniciativa quer mobilizar até 300 bilhões de euros (R$ 1,9 trilhão) para investir em projetos públicos e privados de infraestrutura mundo afora, sobretudo na África, na Ásia e na América Latina. O plano, segundo o Executivo europeu, é "de alcance global" e deverá ser "adaptado às necessidades e interesses estratégicos de diferentes regiões". Embora não esteja explícito no projeto, o Global Gateway é visto como um esforço do continente de rivalizar com am iniciativa chinesa conhecida como Nova Rota da Seda (One Belt, One Road), lançada em 2013 para financiar projetos de infraestrutura em países em desenvolvimento. Tida como o maior projeto de infraestrutura do planeta, a iniciativa chinesa é alvo de críticas nos EUA e na Europa por supostamente elevar a dependência de países economicamente mais fracos em relação à China. "Valores democráticos" Ao ser questionada se a iniciativa faz frente à China, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, respondeu que se trata de "uma clara alternativa a programas existentes". "Queremos transformar o Global Gateway numa marca confiável que se destaca devido à alta qualidade, padrões estáveis e um alto nível de transparência e boa governança", afirmou Von der Leyen. "Por meio da oferta de uma ampliação positiva da infraestrutura mundo afora, o Global Gateway pretende investir na estabilidade e na cooperação internacional. Além disso, deve ser demonstrado que valores democráticos trazem segurança, justiça, sustentabilidade para os parceiros e vantagens duradouras para pessoas pelo mundo", diz o texto que apresenta o programa. O Global Gateway também espera levar tecnologia e expertise europeias para países em desenvolvimento. Maria Demertzis, economista-chefe e vice-diretora do think tank Bruegel, sediado em Bruxelas e especializado em pesquisa de política em questões econômicas, alertou que a Comissão Europeia não deve fazer com que a iniciativa se concentre na competição com a China. "[O projeto] não precisa desencorajar investimentos chineses", disse à DW. "Espero muito que não tenha como objetivo, ou seja percebido, como uma tentativa de afastar a China de uma forma ou de outra. Ninguém ganha com isso", avaliou. Em seu site, a Comissão Europeia mencionou o plano Build Back Better World, lançado pelo G7 em sua reunião em junho deste ano e pensado como uma alternativa dos sete países mais industrializados do mundo à Nova Roda da Seda chinesa. "Iniciativas como a Build Back Better World e Global Gateway se fortalecerão mutuamente", diz o texto. De onde virão os recursos? Um documento com os principais pontos do projeto diz que a iniciativa quer mobilizar os fundos entre 2021 e 2027, juntando "recursos da União Europeia (UE), países-membros, instituições financeiras europeias e instituições financeiras de desenvolvimento nacional". Dos 300 bilhões de euros, 135 bilhões devem vir do Fundo Europeu para Desenvolvimento Sustentável. Outros 150 milhões de euros devem vir de diversos programas já existentes, instituições financeiras da UE e programas de investimentos dos países-membros. E mais 18 bilhões de euros devem ter como fonte o orçamento da UE para ajuda ao desenvolvimento. O Global Gateway também deverá contar com contribuições de instituições internacionais e do setor privado. O conceito do programa ainda precisa ser aprovado pelo Conselho da União Europeia e pelo Parlamento Europeu para que os primeiros recursos comecem a fluir no ano que vem. De hidrogênio a internet rápida Como exemplo concreto, a Comissão Europeia mencionou investimentos na produção de hidrogênio na África. A UE apoiaria investimentos privados com 3,5 bilhões de euros. Em troca, os países beneficiados teriam que se comprometer a exportar o hidrogênio livremente e sem barreiras comerciais. E é claro que Bruxelas também espera que empresas europeias possam ser envolvidas na construção das usinas e na distribuição do hidrogênio, de acordo com diplomatas que ajudaram a elaborar o Global Gateway. Outro projeto beneficiado poderia ser a instalação de cabos submarinos para internet rápida no Mar Negro. E na Jordânia, a UE poderia financiar uma nova ponte para a Cisjordânia. Ao mesmo tempo, a UE também quer tentar estabelecer padrões globais em certos setores industriais através de seu engajamento global, como a China conseguiu fazer, por exemplo, com o padrão 5G na comunicação móvel via internet. Os investimentos do Global Gateway se concentrarão em digitalização, proteção climática e energias alternativas. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse meses atrás que não se tratava apenas de construir estradas que eventualmente levariam a um porto construído pela China. O que é a Nova Rota da Seda? A estratégia global de investimentos que ficou conhecida como Nova Rota da Seda é um projeto encabeçado pelo presidente chinês Xi Jinping. Oficialmente, a estratégia quer conectar melhor a China com países do mundo inteiro, especialmente na África. Em 2020, Pequim já havia investido cerca de US$ 140 bilhões (cerca de R$ 790 bilhões) em todo o mundo. Só no ano passado, os investimentos ficaram na ordem de US$ 20 bilhões (R$ 113 bilhões). Cerca de 70 países já fazem parte da Nova Rota da Seda, entre eles vários membros da UE e Estados dos Bálcãs Ocidentais. Investidores chineses operam portos na Grécia e na Itália, por exemplo. E linhas de trem chinesas ligam países europeus a esses portos ou diretamente a exportadores na China. Críticos acusam o governo chinês de atrair os países da Rota da Seda com empréstimos baratos, que levam a uma dívida estatal cada vez maior e criam uma dependência em relação a Pequim. rw/lf (Reuters, AFP, DW) Contribuíram para este texto os repórteres Bernd Riegert e Jack Parrock.

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