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Afegãos temem volta ao passado após vitória do Talibã

Grupo fundamentalista islâmico diz que pretende formar um governo inclusivo e proteger os direitos dos cidadãos. No entanto, para muitos afegãos o "novo Talibã" não será diferente do regime linha dura dos anos 1990
00:07 | Ago. 17, 2021
Autor DW
Tipo Notícia

Talibãs prometem proteger cidadãos, mas já há provas do contrário

Depois que os talibãs tomaram a capital afegã, Cabul, neste domingo (15/08), sem qualquer resistência das forças governamentais, Suhail Shaheen, porta-voz do grupo fundamentalista islâmico, declarou no Twitter que as ordens estritas para os militantes eram de não fazer mal a ninguém.

"A vida, propriedade e honra de ninguém será prejudicada, mas sim deve ser protegida pelos mujahidim", afirmou, referindo-se aos guerrilheiros talibãs. Antes, seu colega Mohammad Naeem dissera à emissora Al Jazeera que o Talibã não queria viver em isolamento e almejava relações internacionais pacíficas.

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Enquanto os islamistas tomavam conta da capital sem derramamento de sangue, seus comandantes anteciparam que estão prontos a formar um governo "inclusivo" com as demais partes interessadas afegãs.

Segundo especialistas, tais declarações visam projetar uma face "moderada" do grupo, que chegou a prometer que respeitará os direitos femininos e protegerá tanto afegãos quanto estrangeiros.

Motivos para medo, sobretudo entre mulheres

Segundo relatórios das Nações Unidas e dos Estados Unidos, porém, os talibãs haveriam cometido crimes de guerra durante as ofensivas contra forças governamentais afegãs, tendo executado, em partes do país, alguns dos soldados que se renderam. Os militantes rechaçam tais acusações.

Mas são muitos os afegãos que tampouco acreditam que os ocupadores cumprirão suas promessas, e temem que eles retomem práticas passadas, com a imposição rigorosa da lei islâmica, a sharia. Durante o domínio talibã anterior, de 1996 a 2001, os fundamentalistas não permitiam que mulheres trabalhassem e impuseram punições brutais, como açoitamento e enforcamento.

"Eu encorajei uma das minhas colegas a entrar para a polícia. Militantes talibãs a assassinaram em casa", relatou à DW uma oficial da polícia da província de Kunduz, sob a condição de anonimato.

A veloz e sumária campanha armada do Talibã através do Afeganistão forçou centenas de milhares a fugirem para Cabul. Grande parte são mulheres, que relatam casos de atrocidades pelos militantes.

Salima, uma refugiada da província de Takhar, conta que os talibãs foram até as mesquitas da área dela e comunicaram que seus militantes tomariam as viúvas e adolescentes como esposas.

"Eles disseram que os combatentes iam se casar com duas filhas de toda família que tivesse três. Ficamos com medo e fugimos. Nossa casa foi atingida e destruída. Nós escapamos às 2 horas da madrugada, com só um par de sapatos e as roupas. Não temos mais nada."

Um "novo" Talibã?

Outros afegãos, por sua vez, relatam que os ocupadores estão mostrando moderação. "Os combatentes talibãs não estão atacando antigos funcionários do governo", afirmou à DW Ghulam Haidar, um ancião de Kunduz, acrescentando que a população teria acesso a comida e água.

No entanto, "o aeroporto não está operacional, não há voos comerciais nem militares partindo da província". As escolas estão fechadas, pois "os talibãs planejam usá-las como centros de reabilitação para narcodependentes".

Mas nem as instituições de ensino, nem outras instalações governamentais serão transformadas em acampamentos militares, assegurou Haidar. Segundo residentes, o Talibã tampouco está impedindo o funcionamento do comércio, porém alguns negociantes ainda hesitam em abrir suas lojas.

Abandonados e traídos

O Talibã começou sua campanha de ocupação já fevereiro, quando o presidente americano, Joe Biden, anunciou a retirada incondicional de suas tropas do Afeganistão. Os Estados Unidos têm sido duramente criticados por deixarem o país, no que muitos consideram um passo precipitado, sem que haja um pacto de paz formal entre todas as partes interessadas afegãs.

Segundo relatos, os afegãos se sentem, em grande parte, abandonados e traídos pelos EUA, os quais haviam prometido zelar pelos direitos humanos em seu país.

"Durante meses, nós instamos o governo afegão e a comunidade internacional a defenderem a nossa cidade, mas ninguém deu atenção aos nossos apelos", queixa-se Halima Sadaf, deputado da província de Jawzjan, no norte.

"A comunidade internacional é também responsável pelo que está acontecendo no Afeganistão neste momento. Ela deu legitimidade aos talibãs, ao assinar um acordo de paz com eles. E agora que eles estão cometendo crimes de guerra no nosso país, a comunidade internacional sequer está condenando esses atos." Autor: Shamil Shams

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