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Mulheres substituem absorventes por panos e fraldas durante crise no Líbano

Famílias ou estudantes que anteriormente ofereciam absorventes não podem mais pagar por eles

14:47 | 01/07/2021

Entre o colapso econômico e a inflação no Líbano, Chérine não pode mais comprar absorventes. Assim, todos os meses, quando chega a menstruação, a jovem mãe usa trapos velhos, até mesmo as fraldas do bebê.

"No início tinha que verificar se a calça não estava manchada", admite, mencionando as dificuldades de adaptação a esta nova precariedade econômica que perturba até a sua privacidade.

"Entre os preços altos e a raiva que sinto, preferia não menstruar", lamenta a mãe de 28 anos.

Quando o custo dos absorventes que ela comprava antes da crise aumentou, Chérine tentou encontrar outra marca mais acessível, mas os absorventes novos lhe deram alergias.

Com a desvalorização da libra libanesa que não parece desacelerar, os novos preços nas vitrines - que são adaptados ao câmbio do mercado clandestino - e os salários que não acompanham, até as marcas baratas ficam inacessíveis.

Os preços dos absorventes aumentaram cinco vezes. Pacotes que antes custavam menos de 3.000, ou 2 dólares, agora são vendidos por 13.000 a 34.000 libras (entre 8,6 e 22,6 dólares).

Chérine prioriza as necessidades de sua filha de poucos meses. "Prefiro comprar leite para ela, eu aguento", explica.

Ela nunca pensou que um dia usaria as fraldas de sua filhinha, que consegue por meio de doações.

"Cortei a fralda ao meio, assim, uso duas vezes, principalmente quando eu saio", diz. "Também uso toalhas ou pedaços de pano", acrescenta.

Chérine também largou os analgésicos que aliviam as dores dos primeiros dias de menstruação. É uma economia, "caso a minha filha precise de alguma coisa", explica.

O colapso econômico mergulhou o Líbano no empobrecimento, onde 55% da população vive atualmente abaixo da linha da pobreza de acordo com as Nações Unidas, e dia a dia é caracterizado por uma grave escassez, principalmente de medicamentos.

A hiperinflação corre o risco de se agravar ainda mais, pois, para amenizar o degelo das reservas de câmbio, as autoridades estão tentando cortar subsídios, que não são mais suficientes para conter a disparada de preços de alguns produtos, como farinhas ou combustíveis.

De qualquer forma, os dirigentes nunca consideraram adequado incluir absorventes higiênicos nas listas de produtos subsidiados.

Para apoiar as mulheres, várias iniciativas foram lançadas. "Dawrati" ("Meu ciclo") quer lutar contra a "pobreza menstrual" e distribuir cestas femininas com absorventes higiênicos às mulheres mais carentes, detalha a co-fundadora deste projeto, Line Tabet Masri.

Famílias ou estudantes que anteriormente ofereciam absorventes não podem mais pagar por eles, explica.

O item é requisitado por "mulheres de classe média", acrescenta. "Não estamos em posição de responder a todos os pedidos porque as doações diminuíram consideravelmente", disse ele.

No acampamento de Shatila, em Beirute, refugiadas palestinas deslocadas da Síria aprendem a fazer absorventes higiênicos de pano reutilizáveis.

Este projeto é o resultado de uma colaboração entre a ONG "Days for Girls" e a associação local Wingwoman Lebanon, que distribuirá os absorventes em regiões desfavorecidas como Akkar (norte) ou em campos de refugiados.