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Com piora da pandemia, Índia censura redes sociais

00:17 | 29/04/2021
Autoridades indianas voltaram a remover postagens críticas à gestão da pandemia. Governo também tem ameaçado usar Lei de Segurança Nacional contra pessoas que denunciam escassez de suprimentos médicos.O governo indiano está exigindo que sites de mídias sociais como Twitter, Facebook e Instagram bloqueiem postagens que critiquem a gestão da atual crise de saúde pública nacional provocada pela pandemia do coronavírus. Atualmente, a Índia enfrenta um aumento recorde de infecções e mortes por covid-19, com pessoas morrendo em frente a hospitais lotados e crematórios operando em sua capacidade máxima. A maioria dos tuítes eliminados pelo Twitter criticava a incapacidade do governo de garantir suprimentos médicos, leitos hospitalares e oxigênio. O governo disse que as postagens foram removidas porque certos usuários estavam usando a plataforma para espalhar informações falsas ou enganosas e criar pânico sobre a situação da covid-19. "Esta decisão foi tomada para evitar obstruções na luta contra a pandemia e uma quebra da ordem pública devido a esses posts", disse um funcionário do Ministério de Eletrônica e Tecnologia da Informação. Em fevereiro, depois que o governo emitiu um aviso legal, o Twitter bloqueou mais de 500 contas vinculadas aos protestos em curso de fazendeiros contra as reformas agrícolas. Esforços para 'controlar a informação' Entidades fiscalizadoras dos meios de comunicação acreditam que o partido do governo, o BJP (Bharatiya Janata Party), que está no poder federal desde 2014, simplesmente não pode tolerar críticas e, por isso, tenta controlar a narrativa pública. "O primeiro instinto do governo é controlar a informação", disse à DW Pamela Philipose, comentarista da mídia e ombudsman do veículo de comunicação The Wire. "É claro que pandemias levam à desinformação, mas uma ferramenta de censura cega, tal como uma remoção generalizada, é muito inútil, pois suprime informações importantes", acrescentou. "Antes, era comum atirar no mensageiro. Agora, o governo está atirando na plataforma também", disse à DW Sevanti Ninan, crítico de mídia. "Cobrir a pandemia é um grande desafio para a imprensa e precisamos saber como isso está se desenrolando", disse Ninan, que é editor-fundador do The Hoot, o primeiro órgão fiscalizador de mídia indiano. Narrativas concorrentes A mídia indiana se tornou polarizada ao longo dos anos e, às vezes, a cobertura crítica do governo é pintada como uma tentativa de manchar a imagem da Índia. Ao criar um novo modelo para as relações entre mídia e governo, o governo tem, nos últimos anos, tentado deslegitimar a mídia como instituição, ao mesmo tempo que tenta cooptar alguns meios de comunicação selecionados para fazer parte do establishment governante. Por exemplo: quando os hospitais em Delhi clamavam por suprimentos de oxigênio, vários canais de televisão "amigáveis ao governo" culparam o bloqueio contínuo dos fazendeiros nos arredores da capital pelos atrasos excessivos. Com relação à cobertura contínua da segunda onda de coronavírus da Índia, um alto funcionário do governo disse à DW que os assessores da mídia governamental enviariam ideias e temas potenciais para âncoras de televisão selecionados para debate. "Vários canais têm debatido se os lobbies anti-Índia pretendem desacreditar o país e se isso é uma conspiração", disse a fonte. Cobertura crítica suprimida Após a remoção de postagens nas redes sociais na semana passada, o ministro-chefe de Uttar Pradesh, Yogi Adityanath, ordenou que os funcionários tomassem medidas sob a Lei de Segurança Nacional e apreendessem a propriedade de indivíduos que espalhassem "boatos" nas redes sociais, alegando que os hospitais estavam lutando para manter os suprimentos de oxigênio. "Isso não é uma ameaça velada para a mídia não relatar o que está acontecendo no local? Isso tem um efeito assustador", disse um jornalista local de Lucknow à DW. A imprensa estrangeira na Índia também teve que enfrentar pressões não tão sutis para diminuir o tom de sua cobertura do aumento contínuo de casos, que se tornou manchete em todo o mundo. "Recebemos ligações de algumas pessoas importantes no governo depois de fazermos uma reportagem sobre como o número recorde de mortos estava escondendo a real extensão da crise de covid-19", disse um repórter sênior de um grupo de mídia baseado nos EUA. "Ainda não houve nenhuma pressão direta ou decreto para diminuir o tom [da cobertura], pois isso seria um tiro pela culatra para o governo e o colocaria numa posição ruim. Mas o que estamos testemunhando são trolls organizados nas redes sociais desacreditando nossa cobertura", disse à DW o chefe de gabinete de uma emissora pública da Índia. Críticas à cobertura internacional Nesta segunda-feira (26/04), o Alto Comissariado indiano em Camberra enviou uma carta ao editor-chefe do The Australian, Christopher Doe, dizendo-se ofendido com um artigo que atribuía a devastadora segunda onda de coronavírus no país aos erros e à complacência do primeiro-ministro Modi. O órgão consular pediu ao jornal que publicasse uma correção do artigo, intitulada: "Modi leva a Índia ao apocalipse viral". "O governo está muito mais preocupado com as críticas de fora, pois isso é algo que eles não podem controlar", disse Ninan. Em junho do ano passado, jornalistas críticos ao modo como o governo tem lidado com a crise do coronavírus também foram perseguidos e, em alguns casos, até mesmo presos. Usando a Lei de Gestão de Desastres, as autoridades acusaram jornalistas de fazerem reportagens sobre corrupção governamental em meio à pandemia e sobre como os médicos enfrentaram a escassez de alimentos enquanto trabalhavam durante o lockdown. Na semana passada, a ONG Repórteres sem Fronteiras listou a Índia entre os países considerados "ruins" para o jornalismo e entre os lugares mais perigosos do mundo para jornalistas. Enquanto isso, pelo segundo ano consecutivo, a Índia ficou em 142º lugar entre 180 países no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2021. Autor: Murali Krishnan
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