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Susto e ressaca: a história da batalha de Karánsebes, a mais estúpida da história militar

Mais de mil foram mortos em uma batalha entre forças do mesmo exército porque alguns estavam bêbados, não falavam a mesma língua e acabaram discutindo
21:42 | Mar. 06, 2021
Autor Leonardo Igor
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Leonardo Igor Repórter do O POVO Online
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Tipo Notícia

Em 1.788, a Áustria ainda não era oficialmente o Kaisertum Österreich, isto é, o Império Austríaco. No entanto, seus domínios iam longe. Os Habsburgo, a família imperial, dominavam, além da Áustria, partes da Hungria, regiões da Itália como Milão e Parma, a Boêmia (atualmente República Tcheca), os Países Baixos, e partindo, da Croácia, que também dominavam, procuravam estender seu poder na região dos Bálcãs. Ali, naquele ano, sofreram uma derrota vergonhosa. Não para inimigos externos, mas para si mesmos.

Foi a batalha de Karánsebes, muitas vezes apelidada de “batalha mais estúpida da história”. A situação toda ocorreu na cidade que empresta nome ao conflito, na região onde hoje é a Romênia. À época, estava em pleno andamento a Guerra Austro-Turca (1788-1791). Os dois impérios disputavam o controle do importe rio Danúbio, o segundo maior da Europa. O curso da água praticamente corta a Europa ao meio - começa na Alemanha e termina na Ucrânia, desaguando no Mar Negro, que dava acesso ao Império Otomano (turcos) e até o Império Russo.

O rio cruza dez nações e, em muitas, serve de fronteira. É, portanto, um ponto incontornável na disputa pelo continente. Em Karánsebes, onde o exército dos Habsburgo foi posto para fazer guarda, eles já estavam há cinco meses parados e nem sinal dos turco-otomanos. As tropas já estavam cansadas e uma infecção de malária havia vitimado milhares na cidade e entre os militares.

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No dia 21 de setembro daquele ano de 1.788, os membros da cavalaria leve austríaca, conhecidos como hussardos - um dos orgulhos dos Habsburgo -, faziam a ronda na região quando avistou, próximo ao rio Timis, um grupo de ciganos. Eles estavam com uma carga de schnapps, uma aguardente típica da região, e puseram à venda para os hussardos. Os soldados compraram a bebida alcoólica e a festa começou ali mesmo.

Preocupados com a demora da sua tropa modelo, as forças austríacas da cidade enviaram uma simples tropa de infantaria para procurar os hussardos. Quando encontraram os cavaleiros bêbados, os soldados quiseram confraternizar também, mas foram impedidos pela tropa de elite do exército, que não queria beber com militares de baixa patente. Plena noite, os homens armados e alguns bêbados, há cinco meses esperando pela guerra, começaram a discutir.

No meio do vozerio, alguém disparou para o alto. E a confusão começou.

O problema é que pensaram ser, aquele disparo, o início do ataque turco-otamano. Os hussardos, bêbados, bateram em retirada para avisar a cidade e iniciar o contra-ataque. A infantaria, a pé, debelou também. Na escuridão da madrugada balcânica, o exército na cidade acreditou que finalmente os inimigos haviam chegado. Apontaram as armas e receberam a bala os próprios soldados.

É importante esclarecer. Como os soldados não se comunicaram? Além da briga e da bebedeira, havia uma barreira linguística. A família Habsburgo, que mais tarde fundaria o Império Austro-Húngaro, tinha descendentes por toda a Europa. Ele chegaram a ocupar o trono espanhol, português, dominaram partes da França, a Bélgica, os pequenos estados germânicos que formariam a Alemanha, as regiões balcânicas, a Europa Central. Para se ter ideia, a primeira esposa do imperador brasileiro Pedro I, Maria Leopoldina, era Habsburgo. Assim, o exército austríaco, apesar do nome, não era austríaco. Era composto por membros de diversas nacionalidades com vários idiomas diferentes.

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Enquanto os hussardos - estes sim austríacos, falantes de alemão - gritavam “Halt!” (ou seja, “parem!”), com a letra L bem pronunciada, os outros entendiam “Allah!”, grito dos turco-otomanos, que eram muçulmanos. O exército dos Habsburgo até preparou os canhões de artilharia e disparou contra os inimigos, que eram os próprios companheiros de armas.

Ao fim, mais de 1,200 morreram nesta batalha estúpida. Três canhões da tropa foram destruídos. Desmoralizados, desarmados e, literalmente, derrotados, os austríacos recuaram. E, finalmente, dois dias depois, os turco-otomanos chegaram à cidade, mas já não tinham quem vencer.

Com informações dos portais Aventuras na História e War History

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