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Mundo
NOTÍCIA

Eleições para ficar de olho em 2021 no mundo

Da Europa à Ásia, passando pela África e pela América, as populações serão chamadas para votar em pleitos com capacidade para alterar o desenho geopolítico de suas regiões

19:20 | 12/01/2021
A chanceler alemã Angela Merkel, cargo equivalente a primeiro-ministro, deve deixar o comando do país neste ano após quatro governos (Foto: John MacDougall/AFP)
A chanceler alemã Angela Merkel, cargo equivalente a primeiro-ministro, deve deixar o comando do país neste ano após quatro governos (Foto: John MacDougall/AFP)

As populações de vários países serão chamadas às urnas, neste ano, para escolher novos líderes ou mesmo opinar em referendos e plebiscitos sobre temas diversos, desde uma nova Constituição no Chile até os rearranjos na Europa pós-Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia). Alguns destes pleitos têm poder para redesenhar o cenário geopolítico global e regional, em um momento em que um novo inquilino passa a ocupar o centro do poder nos Estados Unidos, a maior potência econômica e militar do mundo.

Confira algumas votações para ficar de olho em 2021, com seus possíveis impactos:

Europa

Alemanha: o fim da era Merkel

Pela primeira vez em 16 anos, os alemães vão às urnas para eleger um novo governo federal sem ter Angela Merkel, a eterna chanceler, como opção. A atual líder do país está a frente da maior economia da Europa desde 2005, com altos índices de aprovação e identificada como a líder de facto da União Europeia, porém, não vai concorrer a um quinto mandato. Seu partido, a CDU, deve escolher um novo nome para concorrer em setembro.

A tarefa não será fácil: os Verdes têm demonstrado força nas urnas em um contexto em que a pauta ambiental é sólida no continente; o partido de extrema-direita, AfD, atualmente a maior força de oposição, tem procurado meios de conquistar o eleitorado; por fim, o parceiro de governo da CDU, o SPD, dá sinais de cansaço na aliança.

Entre os desafios para a próxima chancelaria estão o plano de recuperação econômica do bloco, fortemente abalado pela pandemia do coronavírus, os ajustes das relações pós-Brexit com o Reino Unido e a reconstrução da relações desgastada com os Estados Unidos, sob nova direção. Ademais, há o desafio de oferecer um nome de confiança a uma população acostumada à parcimônia de Merkel, a quem muitos chamam, carinhosa e ironicamente, de Mutti, palavra alemã para “mamãe”.

Escócia e a independência

Ainda na esteira do Brexit, a Escócia deve realizar eleições gerais em maio deste ano, consideradas decisivas para medir o apoio dado ao SNP, o partido nacionalista escocês liderado por Nicola Sturgeon, em sua ambição de realizar um novo referendo para decidir se a nação deve deixar o Reino Unido - formado pela Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda do Norte - e se tornar independente.

Durante o referendo em que a maioria dos britânicos optou por deixar a União Europeia, em 2016, os escoceses foram majoritariamente a favor de permanecer no bloco. Assim, em Edimburgo, a capital, muitos sentem que foram deixados para trás e não tiveram seus interesses atendidos, restando apenas a opção da independência para retornar à União Europeia. Na prática, somente o governo do primeiro-ministro Boris Johnson, em Londres, pode autorizar um referendo do tipo, mas com uma vitória contundente do partido de Nicola Sturgeon, ficaria difícil dizer não.

Oriente Médio

Irã: um novo presidente no país dos aiatolás

Um dos principais atores regionais no Oriente Médio, ao lado de Israel e da Arábia Saudita, o Irã escolhe neste mês de junho um novo presidente após dois mandatos do moderado Hassan Rohani. Na República Islâmica, o próprio presidente está subordinado ao chamado líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e são os clérigos que dão, em uma instância, a permissão para um candidato concorrer à presidência. Assim, a disputa é, basicamente, entre personalidades aceitas pelo sistema do país, divididas entre aqueles mais moderados, que buscam melhores relações com o Ocidente, e os considerados linha-dura, que defendem maior oposição às forças e costumes ocidentais, inclusive pela via militar.

Na pauta do próximo presidente, volta o acordo que limita a capacidade do país de produzir armas nucleares em troca do levantamento das sanções econômicas que têm sufocado a economia do país há anos. Para conseguir um suspiro na economia sem desagradar ideologicamente o establishment clerical, o novo chefe de governo terá que lidar com Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos, na renegociação do acordo, embora os dois países não tenham relações formais desde 1979.

Israel e a corda no pescoço de Bibi

Os israelenses devem voltar às urnas em março pela quarta vez em dois anos. É que desde 2020 os resultados eleitorais, embora tenham dado ao partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu (apelidado de Bibi) uma ligeira maioria, não garantem o número necessário no Parlamento para formar governo. Assim, o país tem vivido uma série de governos provisórios e, por fim, uma frágil e instável coalizão entre o partido Netanyahu e a legenda de Benny Gantz, que acabou por desmoronar em dezembro.

Agora, os ex-parceiros de governo vão se enfrentar novamente nas urnas em um contexto de mudanças em Israel: a normalização das relações diplomáticas do país com várias nações árabes; o fim da gestão de Donald Trump, grande apoiador das aspirações de Netanyahu, e o início do governo de Joe Biden, mais cético às demandas territoriais do atual líder israelense; e o julgamento por corrupção de Netanyahu, o mais longevo primeiro-ministro do país, que procura nas urnas renovar seu mandato e garantir imunidade contra as acusações.

África

As eleições e o conflito na Etiópia

Primeiro-ministro etíope Abiy Ahmad, vencedor do Nobel da Paz, discursa ao Parlamento e declara vitória sobre a Frente de Libertação dos Povos de Tigray, o TPLF
Primeiro-ministro etíope Abiy Ahmad, vencedor do Nobel da Paz, discursa ao Parlamento e declara vitória sobre a Frente de Libertação dos Povos de Tigray, o TPLF (Foto: Amanuel Sileshi/AFP)

Em junho, a Etiópia, o segundo país mais populoso da África, deve ir às urnas em meio à tensão pelo conflito inacabado entre o governo central em Adis Ababa e a região de Tigray, comandada pela minoria étnica que até pouco tempo dominava todo o país. Desde o final de 2020, o primeiro-ministro Abiy Ahmed entrou em conflito com os tigrés (de Tigray) e a situação permanece obscura: embora o governo tenha declarado vitória, o acesso à região foi bloqueado, as comunicações cortadas e o número de refugiados continua a crescer em direção ao Sudão, onde aqueles que fugiram relatam que os conflitos continuam. Com um sistema parlamentarista e uma organização regional fortemente marcada pela divisão étnica, o governo espera fortalecer o apoio à sua agenda de reformas iniciadas em 2018, quando os tigrés foram depostos.

Uganda: o popstar versus o presidente

A mais próxima das eleições desta lista, a ser realizada já no dia 14 de janeiro, é praticamente um confronto geracional em Uganda, um país sem saída para o mar, no centro da África. Disputam a presidência o popstar Bobi Wine, um músico vertido em político - muito popular entre os jovens e a população urbana -, e o atual líder do país, Yoweri Museveni, no poder desde 1986, da mesma leva de autocratas e ditadores conduzidos ao poder por revoltas armadas entre os anos 70 e 80 no continente africano, muitos dos quais já octogenários, sem contudo desistir de comandar seus países.

Museveni conta com forte apoio da população rural, por quem é conhecido por trazer estabilidade ao país. Bobi Wine já levantou dúvidas sobre a integridade do pleito e definiu a eleição como “uma guerra e campo de batalha”, portanto, a temperatura pode esquentar no país.


Ásia

Hong Kong e o cerco à democracia

Pandemia de coronavírus começou n a China e se espalhou pelo planeta
Pandemia de coronavírus começou n a China e se espalhou pelo planeta (Foto: XINHUA / AFP)

Desde a aprovação da nova Lei de Segurança Nacional chinesa sobre a região autônoma de Hong Kong - uma ex-colônia britânica que, após a devolução à China, conservava liberdades políticas, de imprensa e até um Judiciário independente -, o governo de Pequim tem constantemente sufocado os ativistas pró-democracia. Somente na quarta-feira, 6 de janeiro, mais de 50 foram presos. A nova legislação tipifica até mesmo palavras que, se forem utilizadas, podem levar à prisão. A ditadura também reserva a si, agora, o direito de barrar candidaturas que não considerem leais ao regime comunista (antes, Hong Kong mesmo definia quem poderia se candidatar).

Diante deste cenário em que até mesmo jornalistas têm sido detidos dias a fio sem justificativa, o então território, já não tão autônomo, realiza eleições legislativas em setembro. Se antes da nova lei o cenário já não era auspicioso - metade das vagas era reservada por indicados de Pequim, a outra metade era de concorrência livre, e inclusive aqueles apoiados por Pequim podiam concorrer a elas também -, agora, estas primeiras eleições sob as novas regras devem dar o tom de como serão os próximos anos em Hong Kong.

Bougainville: o mais novo país do mundo?

Apesar de ser praticamente desconhecida pelo resto do mundo, esta pequena ilha atualmente ligada à Papua-Nova Guiné pode se tornar o mais novo país independente. Atualmente, este posto pertence ao Sudão do Sul, na África, criado em 2011. Bougainville é um território autônomo dentro do país asiático e há anos vem aspirando à independência. Isso levou os dois lados a uma guerra civil entre 1988 e 1998, que terminou com a promessa do governo de Papua-Nova Guiné em permitir a realização de um referendo de autodeterminação, realizado em 2019, no qual os habitantes de Bouganville optaram por esmagadora maioria seguir como um país independente. Embora o resultado seja difícil de ignorar, não há um prazo concreto para a independência. Por isso, as eleições deste ano nesta ilha rica em minérios interessam China, Austrália e EUA, já que é o novo governo da ilha, a ser eleito no dia 16 de janeiro, que deve viabilizar a independência de Bouganville.

América Latina

O Peru e o quarto presidente em três anos

Atual presidente do Peru, Francisco Sagasti, quarto presidente do país desde 2018
Atual presidente do Peru, Francisco Sagasti, quarto presidente do país desde 2018 (Foto: AFP PHOTO / PERUVIAN PRESIDENCY / ALBERTO ORBEGOSO)

Na esteira dos escândalos de corrupção revelados pela operação Lava Jato sobre o império da construtora brasileira Odebrecht, o Peru, que faz fronteira com os estados brasileiros do Acre e do Amazonas, entrou em uma convulsão social da qual ainda não é possível vislumbrar um fim. De 2018 para cá, o país teve quatro presidentes. Eleito em 2016, o presidente Pedro Pablo Kuczynksi renunciou em 2018 pelo envolvimento com a Odebrecht. Seu vice, Martín Vizcarra, assumiu o cargo e enfrentou dois pedidos de impeachment no Parlamento. Sobreviveu ao primeiro, mas não ao segundo, em 2020. Com a vacância do cargo, virou Presidente do Peru o então presidente do Parlamento, Manuel Merino. Mal ficou uma semana no cargo, renunciou ainda em novembro de 2020. O Congresso elegeu o parlamentar Francisco Sagasti como novo presidente para conduzir um governo de transição para realizar eleições em abril na expectativa de acalmar os ânimos da população, que tem protestado continuamente, e às vezes violentamente, há anos.

O Chile, a nova Constituição e os primeiros governadores

Após os maciços protestos em 2019, que paralisaram aquele que já foi considerado o país mais estável da América Latina, um desenlace para as demandas dos insatisfeitos chilenos está à vista com a redação de uma nova Constituição para o país, que em outubro de 2020 votou para descartar a atual Constituição, herança da sangrenta ditadura de Augusto Pinochet e pouco dada a direitos sociais.

Em abril, os chilenos vão votar para escolher a composição da Assembleia Constituinte que deve redigir a nova Carta Constitucional. A eleição já é tratada como o novo ponto de inflexão da democracia chilena e mobiliza vários setores da população. No mesmo pleito, os chilenos vão votar, pela primeira vez, para escolher os governadores das regiões (como os estados brasileiros), até então indicados pelo presidente. Prefeitos e vereadores também devem ser eleitos, o que tornam estas eleições um termômetro para a sucessão presidencial de Sebástian Piñera, atual presidente cujos índices de aprovação chegaram a mínimos históricos após os protestos.

 

Com informações da consultoria internacional GZero Media e dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo