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Mais um conflito em 2020: crise entre Armênia e Azerbaijão envolve Rússia e Turquia

Diante da superioridade militar azeri, reforçada pelos turcos, o governo armênio pode invocar o pacto militar e solicitar apoio russo

Leonardo Igor
15:14 | 30/09/2020
A serviceman of Karabakh's Defence Army fires an artillery piece towards Azeri positions during fighting over the breakaway Nagorny Karabakh region on September 28, 2020. (Photo by Handout / Armenian Defence Ministry / AFP) / RESTRICTED TO EDITORIAL USE - MANDATORY CREDIT
A serviceman of Karabakh's Defence Army fires an artillery piece towards Azeri positions during fighting over the breakaway Nagorny Karabakh region on September 28, 2020. (Photo by Handout / Armenian Defence Ministry / AFP) / RESTRICTED TO EDITORIAL USE - MANDATORY CREDIT "AFP PHOTO / Armenian Defence Ministry / handout " - NO MARKETING - NO ADVERTISING CAMPAIGNS - DISTRIBUTED AS A SERVICE TO CLIENTS (Foto: Armenian Defence Ministry/AFP)

O confronto armado entre Armênia e Azerbaijão por causa da região de Nagorno-Karabakh entrou no quarto dia nesta quarta-feira, 30, com ares de crise regional após acirramento das tensões entre os dois países, a escalada das acusações e a movimentação da Turquia e da Rússia em prol dos seus interesses nesta conflituosa região do Cáucaso.

Desde o domingo, 27, a contenda foi reativada. Armênia e Azerbaijão declararam lei marcial, o que fez militares assumirem postos de autoridades civis, e se enfrentam com armamento de guerra no território disputado de Karabakh, um enclave de maioria armênia dentro do território azeri. As informações são da Folha de S. Paulo e do jornal O Globo.

A disputa atual é a pior desde 2016, quando os países se enfrentaram pelo mesmo motivo, e reacende temores de uma nova guerra na região, como a Guerra de Nagorno-Karabakh entre 1988 e 1994, que deixou quase 16 mil mortos.

Além disso, o conflito opõe as duas maiores potências regionais: a Turquia de Recep Tayyip Erdogan apoia o Azerbaijão, de maioria muçulmana, enquanto a Rússia de Vladimir Putin possui pacto de defesa militar com os armênios.

Militares armênios próximos à zona disputada
Militares armênios próximos à zona disputada (Foto: AFP)

Embora os turcos tenham elevado o tom e rufado os tambores de guerra, Moscou tem adotado uma postura mais comedida. Ofereceu-se como mediadora entre os conflitantes, mas tanto Armênia quanto Azerbaijão descartaram a diplomacia russa. A situação envolve ainda o Irã, outra potência regional que divide as fronteiras com os envolvidos.

Em um ano especialmente conturbado e em meio à pandemia do novo coronavírus que vitimou mais de um milhão em todo mundo, a briga parece mais uma surpresa indesejada. Contudo, ela possui raízes mais antigas, que remontam ainda à União Soviética.

O que motivou o novo conflito?

Desde julho, Armênia e Azerbaijão viviam uma escalada da retórica bélica por causa da presença de tropas na região de Nagorno-Karabakh, que tem um governo autônomo controlado pela maioria armênia residente ali, embora esteja localizada no território azeri. Os azeris enviaram soldados para o local de modo a reprimir grupos separatistas apoiados por Yerevan (capital da Armênia).

Os armênios atacaram também, em apoio a Karabakh, e desde domingo as duas partes têm se enfrentado. Vários combatentes e civis morreram, mas os números são incertos. A Armênia fala de 91 mortos entre civis e militares; Baku (capital do Azerbaijão) aponta 12 vítimas, embora não revele a quantidade de baixas entre militares.

Foto da força aérea azari supostamente atingindo alvo armênio
Foto da força aérea azari supostamente atingindo alvo armênio (Foto: Azerbaijani Defence Ministry/AFP)

A BBC confirma pelo menos 100 mortos, entre civis e militares, mas a quantidade tende a aumentar. Os números, de todo modo, representam um ajuste em comparação aos dados iniciais, quando os dois países falavam de 700 mortos. Ainda assim, ambos confirmam haver dezenas de fardados mortos.

Na terça-feira, Yerevan acusou a Turquia de ter derrubado um caça armênio, o que provocou a morte de um piloto. Segundo eles, o caça turco estava operando em solo azeri. A situação levou o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) a se reunir e exigir o fim dos confrontos. No entanto, não há sinais de esfriamento.


Como tudo começou?

Tanto o Azerbeijão quanto a Armênia foram absorvidos pelo Império Soviético na década de 1920. Com o ocaso da URSS a partir dos anos 80, o Cáucaso, uma das regiões mais étnica e religiosamente diversas e conflituosas do mundo, começou seu rearranjo territorial.

Cidade de Stepanakert, a maior de Nagorno-Karabakh
Cidade de Stepanakert, a maior de Nagorno-Karabakh (Foto: AFP/Azerbaijani Defence Ministry)

Yerevan queria integrar Nagorno-Karabakh a seu território, já que ali havia uma maioria armênia e cristã. Já Baku queria evitar a perda de tamanho e continua a controlar o pedaço de terra, que possui importância estratégica no transporte de hidrocarbonetos.

A guerra estourou ainda nos estertores da União Soviética, durou seis anos e deixou quase 16 mil mortos. Nagorno-Karabakh emergiu da refrega como um república autônoma, mas sem reconhecimento por parte de nenhum país que integra a ONU. Desde então, é controlada pelos separatistas armênios, que possuem autonomia, armamentos e volta e meio vivem em escaramuça com as forças de Baku, pelas quais vivem cercadas.

Com o fim da guerra em Karabakh, uma linha de contato fronteiriça foi traçada entre as duas partes, passando pelo território autônomo. É justamente neste trecho que ocorrem as escaramuças, indicando que o conflito não ampliou o alcance para o interior dos territórios do Azerbaijão ou da Armênio.

O fim da era soviética deixou outros resquícios na estranha geografia da região. Por exemplo o Azerbaijão possui um exclave, isto é, um pedaço de seu território separado do restante. Estas duas partes do Azerbaijão são separadas justamente pela Armênia.

Presidente russo, Vladimir Putin, acompanhando as manobras militares no Cáucaso
Presidente russo, Vladimir Putin, acompanhando as manobras militares no Cáucaso (Foto: AFP)


O que a Rússia e Turquia têm a ver?

Quando a escalada verbal começou e até mesmo pequenos confrontos foram vistos entre os dois países em julho, Moscou lançou uma manobra militar surpresa com 150 mil soldados na região, uma demonstração de poder para dissuadir os dois países de qualquer conflito. Os ânimos se acalmaram, mas voltaram a esquentar em setembro, até chegar a este ponto.

A Rússia considera o Cáucaso sua zona de influência e não quer ver um cenário de desestabilização ao sul da sua fronteira com um confronto entre armênios e azeris, principalmente enquanto acompanha os distúrbios a oeste em Belarus. Moscou possui um pacto militar com a Armênia e pode vir a socorro de Yerevan, mas o governo armênio afirmou não ter planos de lançar mão do apoio russo por ora.

Já Ancara (capital da Turquia) apoia os azeris, um povo túrquico majoritariamente muçulmano. O parque de petróleo e gás do Azerbaijão é responsável por fornecer 5% de todos os hidrocarbonetos que a Europa possui, e o transporte é feito através do território turco, uma benesse econômica para o regime de Erdogan.

 

Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, elevou o tom contra a Armênia, rival histórico da Turquia
Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, elevou o tom contra a Armênia, rival histórico da Turquia (Foto: AFP)

Além disso, os turcos e a Armênia vivem um antagonismo histórico, principalmente em torno do chamado genocídio armênio, um episódio em 1915, ainda na época do Império Otomano, em que centenas de milhares de armênios foram deportados e mortos pelos turcos. A Turquia nunca reconheceu o crime.

Rússia e Turquia têm pontos de atrito no Cáucaso há séculos e, no passado, já se envolveram em vários conflitos na região. Hoje os dois países vivem uma relação ambígua de parceiros e rivais. Por um lado, possuem laços econômicos e certo apoio mútuo entre os líderes autocratas, mas ultimamente na geopolítica, têm estado em lados opostos do tabuleiro. 

Na Síria, a Turquia quer derrubar o regime de Bashar Al-Assad e até invadiu o norte do país. Já a Rússia foi o sustentáculo do ditador ao longo da guerra civil e está lá até hoje com apoio militar. Na Líbia, a oposição turca e russa se repete, com os dois apoiando facções rivais pelo comando do país africano antes governado pelo ditador Muammar Gaddafi.

"Estamos juntos com o Azerbaijão na mesa de negociação e no campo de batalha. Essas não são palavras vazias", disse nesta quarta, 30, o chanceler turco, Mevlut Cavusoglu. Já Putin segue atento o jogo, sem no entanto empolgar. O atual primeiro-ministro armênio chegou ao poder em 2018, após a queda do antecessor, de quem Putin era aliado e amigo pessoal. Ou seja, se Putin não vai abandonar a Armênia, também não deve ser o amigo caloroso para as horas difíceis do governo.

Por fim, ainda há o Irã. Nas últimas décadas o país tem emergido como potência regional e é antagônica à Turquia, que apoia o Azerbaijão. Teerã (capital do Irã) apoia discretamente a Armênia, rival dos turcos, embora o país persa seja maioria muçulmana xiita, assim como os azeris. No entanto, os iranianos temem que a maior assertividade de Baku leve o grupo étnico azeri residente no Irã a organizar movimentos separatistas.

Tanto na Guerra de Nagorno-Karabakh quanto nos últimos confrontos, em 2016, a pressão da comunidade internacional fez com as partes litigantes chegassem a um cessar-fogo. O fato do enfrentamento se restringir, ao menos por ora, à região do território autônomo, indica que nem Azerbaijão nem Armênia tencionam invadir, a curto prazo, o território vizinho.

 

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Ainda assim, a entrada da Turquia com mais força pode desequilibrar o jogo. Erdogan não só enviou tropas aos aliados azeris como exigiu a saída dos armênios de Karabakh. Uma incursão a Yerevan seria mais delicada aos azeris e turcos, já que a Rússia mantém uma base militar no país, com mais de 3 mil soldados e caças modernos.

Há ainda a Otan, aliança militar liderada pelos Estados Unidos que é adversária da Rússia.A Turquiaintegra o grupo e, embora as relações dos turcos com os demais aliados estejam estremecidas, eles contam, por regra, com o apoio tácito e, se necessário, com a força logística da Otan.

Diante da superioridade militar azeri, reforçada pelo apoio turco, e uma eventual agressão território adentro, o governo armênio pode, enfim, invocar o pacto militar e solicitar apoio russo. Um cenário ao qual, por enquanto, nenhuma das partes quer chegar.