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Pedro Sánchez na montanha-russa da política espanhola

18:01 | 15/02/2019

Ele chegou ao poder com uma jogada de mestre e oito meses depois, volta a se encontrar em uma encruzilhada. Não é uma novidade para o socialista Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol, que nesta sexta-feira (15) a antecipar as eleições legislativas para 28 de abril.

Por ironia do destino, na próxima terça-feira se tornará o primeiro chefe de governo espanhol em exercício a publicar um livro. O título resume em boa medida a trajetória deste ex-professor de Economia de 46 anos: "Manual de resistencia".

Sánchez chegou ao cargo em 1º de junho de 2018, conseguindo o que ninguém antes havia conseguido na democracia: uma moção de censura bem sucedida contra seu antecessor, o conservador Mariano Rajoy.

Para isso, pôs de acordo oito forças políticas - entre elas a esquerda radical do Podemos, os separatistas catalães e os nacionalistas bascos -, que o colocaram à frente do governo mais minoritário em 40 anos de democracia, com apenas 84 deputados socialistas de um total de 350.

Ele também se tornou o primeiro a governar apesar de seu partido ter perdido as últimas eleições, um fato pelo qual a direita nunca deixou de criticá-lo.

"Hoje escrevemos uma nova página da história da democracia no nosso país", proclamou, então, Pedro Sánchez.

Impulsionado na liderança do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), em julho de 2014, nas primeiras eleições primárias da história do partido, Sánchez ficou atrás de Rajoy nas legislativas de dezembro de 2015.

No contexto de paralisia derivada da fragmentação do Parlamento tentou governar com os liberais de Cidadãos e com Podemos, mas estes últimos o torpedearam.

Na repetição eleitoral de junho de 2016, o PSOE continuou perdendo votos e obteve o pior resultado em quatro décadas. Em 1º de outubro desse ano. Sánchez seria destituído pela rebelião interna de seu partido, que o responsabilizou pelos maus resultados.

Mas com afinco e paciência, percorrendo toda a Espanha de carro e encarando o establishment do PSOE, voltou pela porta da frente em maio de 2017, impondo-se nas primárias sobre a então presidente regional da Andaluzia, Susana Díaz.

Nascido em 29 de fevereiro de de 1972, em Madri, casado e pai de duas filhas, Pedro Sánchez cresceu em uma família abastada: pai empresário e mãe funcionária pública.

Estudou economia na capital espanhola, fez mestrado em economia política na Universidade Livre de Bruxelas, e depois um doutorado controverso em uma universidade privada de Madri, sobre o qual pesaram suspeitas de plágio que ele desmentiu energicamente.

Afiliado ao PSOE desde muito jovem, foi sucessivamente vereador na prefeitura de Madri de 2004 a 2009 e deputado de 2009 a 2011.

Uma vez no Palácio de La Moncloa, Sánchez dominou as manchetes na Europa, nomeando um governo com mais mulheres do que homens, e aceitando os migrantes do navio "Aquarius" que seus vizinhos não acolheram.

Viajou muito ao exterior - até em cinco ocasiões para a América Latina - e aumentou por decreto o salário mínimo para 22%, depois de anos de austeridade consecutiva à crise econômica.

No entanto, não conseguiu até o momento exumar de seu mausoléu o ditador Francisco Franco, e sobretudo encarou a crise catalã.

O líder socialista prometeu assim que chegou ao poder que dialogaria sem descanso para reconduzir a crise com o separatismo, uma empresa que lhe valeu uma série de ataques da direita, que chegou a acusá-lo de "alta traição".

Finalmente perdeu este apoio, coincidindo com a abertura do julgamento a 12 líderes separatistas. A ruptura se materializou na quarta-feira, quando no Parlamento os partidos catalães derrubaram seus orçamentos para 2019 junto com a oposição conservadora.

Nada disso parece demove Pedro Sánchez, um homem de 1,90 metro que pensou em se dedicar ao basquete na juventude e que "concebe a política como um partido de basquete", afirma Enric Juliana, diretor adjunto do jornal barcelonês La Vanguardia. "Pode passar do ataque à defesa em poucos segundos".

As próximas eleições, no entanto, se anunciam muito difíceis. Várias pesquisas o situam na liderança do PSOE, que não chegaria à maioria com o Podemos.

Uma maioria que estaria ao alcance de PP, Cidadãos e os ultraconservadores do Vox, essa "direita trifálica", nas palavras da ministra da Justiça, Dolores Delgado, que no mês passado rompeu a hegemonia histórica do socialismo na Andaluzia.

AFP