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Talibãs se voltam às redes sociais em sua guerra de propaganda

15:42 | 15/02/2019

Com um Exército de estagiários para alimentar as redes sociais e combater as "notícias falsas", a propagada dos talibãs entrou na era digital, mas se um dia voltarem ao poder no Afeganistão, eles têm a intenção de controlar os jornalistas.

Quando comandaram o país com mão de ferro entre 1996 e 2001, os insurgentes proibiram televisão e rádio. Agora, surpreendentemente, parecem ter se adaptado bem à era dos meios digitais.

Sua porta-voz comenta ao vivo no Twitter a situação no campo de batalha e o serviço dedicado aos meios de comunicação está em contato permanente com os jornalistas por meio de aplicativos de mensagens.

"Os meios de comunicação são considerados uma faceta do combate", explica à AFP o porta-voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid, via WhatsApp.

"Não somos contra a tecnologia moderna", assinala um talibã de alto escalão ligado ao serviço de imprensa.

"Neste contexto é necessário e isso não infringe a sharia", declara à AFP, reconhecendo, não obstante, que a comunicação interna às vezes é deficiente.

Alguns chefes talibãs concederam entrevistas sem que o serviço de comunicação estivesse a par, obrigando-o a desmentir.

As declarações atribuídas a fontes talibãs são frequentes e não podem ser verificadas. Nas redes sociais existem páginas falsas em seu nome e suas contas oficiais em Facebook e Twitter são fechadas com frequência e abertas com outras identidades. Suspeita-se que o porta-voz Zabihullah Mujahid seja apenas virtual.

Os progressos não passaram despercebidos, sobretudo na delegação da Otan em Cabul, onde acompanha de perto tudo o que tiver a ver com os talibãs.

"Nos dá uma ideia do que o grupo tem em mente nesse dia", explica o coronel Knut Peters, seu porta-voz.

Os talibãs continuam exagerando o número de vítimas, mas a descrição de suas ações é mais precisa do que antes, menos disparatada.

"Os talibãs descobriram que a verdade tem mais impacto do que a ficção", afirma Graeme Smith, consultor no International Crisis Group.

Os meios de comunicação também os consideram mais reativos do que as autoridades.

"Quando um jornalista morreu (...) há várias semanas, escrevi ao porta-voz talibã e recebi uma resposta em poucos minutos", lembra A. Mujeeb Khalvatgar, diretor de um grupo de apoio aos meios de comunicação. Ainda está esperando a da Presidência afegã.

As informações continuam sem ser confiáveis. "Muitas vezes não são corretas", assegura o jornalista paquistanês Tahir Khan. Mas em um contexto como o atual, "a propaganda psicológica é um fator importante", considera.

Segundo a fonte talibã, o comando dos insurgentes dá instruções a um grupo de pessoas de alto escalão, que difunde as mensagens em cinco idiomas: pachtun, dari, inglês, urdu e árabe. Os conteúdos multimídia ficam a cargo de dezenas de voluntários.

Um Exército de estagiários, entre eles estudantes de Jornalismo e especialistas em Tecnologia, examina a fundo as redes sociais, segundo a fonte talibã. "São os servos de Deus, voluntários", diz.

Quando estavam no poder, os talibãs controlavam os meios de comunicação. A maioria dos jornalistas estrangeiros havia fugido e seus colegas afegãos costumavam trabalhar na clandestinidade por medo de serem agredidos.

O panorama midiático afegão começou a renascer em 2001.

Os insurgentes não o veem com bons olhos. Em 2018, o Afeganistão foi considerado o país mais perigoso do mundo para os jornalistas.

Os talibãs "fazem um uso amplo dos meios de comunicação. Isso não quer dizer que acreditem na liberdade de expressão", considera Khalvatgar.

"Quer dizer que sabem como utilizá-los (...) como ferramenta de propaganda, não como direito dos cidadãos", acrescenta.

Durante as últimas semanas, as negociações entre talibãs e os Estados Unidos permitiram "progressos". Alguns o interpretam como o prelúdio de uma possível retirada americana do país e de uma volta dos insurgentes ao poder.

Segundo a fonte talibã, o movimento não tem a intenção de fechar os meios de comunicação afegãos, mas espera que os jornalistas respeitem um "código de conduta" regido pela sharia e ainda a ser definido.

Não haveria apresentadoras. "Mais vale que fiquem em casa ou que se dediquem a outra profissão respeitável", declarou a fonte talibã.

Os meios de comunicação estrangeiros seriam bem-vindos, assegura. "Abrigamos Osama (Bin Laden) e o tratamos com todo o nosso respeito porque era nosso invitado", afirma. "Qualquer pessoa que venha de outro país será nossa convidada".

Fonte: AFP