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Coreia do Norte faz concurso de gastronomia em meio à fome que assola o país

08:52 | 15/02/2019

Em um restaurante estatal de Pyongyang, centenas de chefs norte-coreanos se esmeram nas montagens dos pratos durante um concurso nacional de cozinha em um país que sofre uma escassez alimentar crônica.

Os chefs prepararam samsaek gaepitok (bolinhos de arroz recheados com uma massa de feijão preto ou vermelho), yakgwa (biscoitos a base de mel e farinha de trigo) e abobrinhas recheadas, e o que conta é a precisão.

Durante três dias, cerca de 300 chefs, em sua maioria mulheres, realizam 40 pratos distintos. Os vencedores são premiados com livros de receitas, material culinário, medalhas e diplomas.

Muitos curiosos vieram ao restaurante - que não tem aquecimento - para assistir ao evento ao vivo. Vestidos com casacos, alguns filmavam os competidores com seus celulares.

"A cozinha norte-coreana é excelente. Caracteriza-se por seus sabores frescos e nítidos, sem impressão de mistura", diz o juiz Han Jong Guk, um confeiteiro profissional.

"Por exemplo, um prato de peixe tem gosto de peixe, o de frango gosto de frango. É a principal característica da comida coreana".

Mas a realidade é que fora do restaurante e da vida privilegiada dos moradores da capital, a Coreia do Norte é incapaz de alimentar corretamente sua população.

Antes de sua segunda cúpula com o líder norte-coreano Kim Jong Un, prevista para o final do mês no Vietnã, o presidente americano Donald Trump falou da possibilidade deste país se tornar uma potência econômica caso um acordo seja alcançado sobre o seu programa nuclear.

A grande fome dos anos 1990, que causou milhares de mortos, é água passada. Mas o desempenho agrícola continua muito abaixo da média mundial e muitos habitantes estão desnutridos.

"A insegurança alimentar crônica e a desnutrição são consideráveis", escreveu esta semana a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) em seu relatório de 2019 "Necessidades e prioridades".

Cerca de 43% dos 10,9 milhões de norte-coreanos vivem em situação de insegurança alimentar, enquanto um terço das crianças não tem o mínimo de comida necessário e um em cada cinco crianças sofre de atraso em seu crescimento devido à desnutrição crônica, acrescenta a FAO.

"A cada ano, a produção norte-coreana de alimentos é inferior às necessidades em aproximadamente um milhão de toneladas".

Isso se deve, em parte, ao déficit de superfície cultivável (parte do país é montanhosa), a desastres naturais e à ausência de técnicas agrícolas modernas e fertilizantes.

Kim Jong Un encontrou a solução: batatas.

Ao contrário dos arrozais inundados com água, os campos de batatas não precisam ser horizontais. As autoridades querem que esta cultura se torne uma commodity.

Kim já visitou uma fábrica de flocos de batata várias vezes. No ano passado, foi fotografado sentado em uma pilha de tubérculos, juntamente com outros altos funcionários.

Segundo a agência oficial KCNA, Kim explicou que os norte-coreanos precisam ser informados das "vantagens e eficácia" deste alimento.

"Os métodos para preparar pratos diferentes com base em flocos de batata devem ser amplamente divulgados".

O concurso nacional de culinária também é uma maneira de promover esse tubérculo.

Em uma das salas, as mesas rangem sob o peso dos pratos feitos a base de batata: pizzas, macarrão e até bolo de chocolate.

Kim Kum Hun, organizador do concurso e membro do comitê central da Associação de Cozinheiros Coreanos, reconhece que seu prato favorito é o bife, mas ele não despreza a batata.

"O arroz é, naturalmente, o alimento principal, mas o pão e a batata também podem se tornar produtos básicos", disse ele à AFP.

Um hectare produz 20 toneladas de batatas, contra menos de 10 toneladas de arroz.

O tubérculo também é mais lucrativo quando convertido em farinha, o que é um incentivo para produtores e empreendedores em um momento em que Kim abre a economia para o mercado.

Pyongyang é alvo de múltiplas sanções devido aos seus programas nucleares e balísticos.

O organizador não considera relevante que o concurso seja realizado em um país que sofre de escassez porque, segundo ele, o socialismo acabará triunfando

"Aqueles que se surpreendem ao ver um festival de gastronomia aqui não conhecem bem o nosso povo, apesar de sofrermos sanções e não termos arroz, nossas vidas não são afetadas. Vivemos graças ao poder da autossuficiência".

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