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Há 20 anos o inimigo número 1 da Turquia guia rebelião curda da prisão

09:36 | 13/02/2019

Há vinte anos, a Turquia capturou seu inimigo público número 1, Abdullah Öcalan, dando um duro golpe à rebelião curda, embora a influência de seu líder histórico ainda esteja intacta.

Ao final de um longo período de fuga, Öcalan, líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), foi localizado no Quênia e capturado pelos serviços secretos turcos em 15 de fevereiro de 1999, em frente à embaixada da Grécia em Nairobi, de onde foi transferido para a Turquia e encarcerado na prisão-ilha de Imrali, não muito longe de Istambul.

Foi rapidamente julgado e condenado à morte no mesmo ano, mas sua sentença foi comutada para prisão perpétua quando a Turquia aboliu a pena de morte em 2002.

Apesar de seu quase total isolamento, Öcalan continua a ser uma figura proeminente, não só para a rebelião curda na Turquia, cujo conflito com o Estado deixou mais de 40.000 mortos desde 1984, mas também para os movimentos curdos em outras regiões, como na Síria.

"A prisão de Öcalan foi um golpe para a organização num primeiro momento, porque ele controlava todos os aspectos e atividades do PKK e, de repente, não estava mais lá", diz Aliza Marcus, autora de "Blood and Belief", uma história do PKK.

"E sua decisão de suspender a guerra e renunciar a um Curdistão independente - como anunciou durante seu julgamento - provocou mais confusão", acrescenta.

Mas o PKK soube se adaptar, "em parte porque Öcalan era capaz de se comunicar da prisão, através de entrevistas e de reuniões com seus advogados", aponta Marcus.

Em 2013, por exemplo, Abdullah Öcalan lançou um apelo, por meio dos deputados do Partido Democrata dos Povos (HDP, pró-curdo), a suas tropas para que instaurassem um novo cessar-fogo e, assim, permitir as discussões que conduzia com o governo em busca de uma solução pacífica.

Este processo de paz, frágil, desmoronou em 2015. E após um fracassado golpe de Estado em julho de 2016, o governo turco, justificando um reforço da luta contra o "terrorismo", decidiu proibir "todas as visitas a Imrali, tanto aos advogados como à família", explica um advogado de Öcalan, Ibrahim Bilmez.

A decisão oficializou uma proibição dirigida a seus advogados desde 2011 e a delegações políticas desde 2015.

Seu irmão Mehmet conseguiu visitá-lo em janeiro, pela primeira vez desde 2016 graças a um gesto das autoridades, que enfrentam uma greve de fome de mais de 300 prisioneiros, segundo o HDP, em sinal de protesto pelo isolamento imposto a Öcalan.

"Não temos outra informação, apenas o que nos disse Mehmet", explica Bilmez. "Quando esteve na cadeia, Öcalan lhe disse 'que as pessoas saibam apenas que estou bem'".

"Para mim, existe um vínculo psicológico entre Öcalan e o povo curdo, se dão força mutuamente", afirma o advogado, que defende Öcalan desde os anos 2000. "Consciente disso, aguenta o isolamento e mantém o moral".

Hamit Bozarslan, diretor da Escola de Estudos Superiores de Ciências Sociais (EHESS) francesa, considera que o PKK goza atualmente de mais apoio popular do que quando Öcalan foi preso.

"Quando vemos a evolução, temos a impressão que, paradoxalmente, a prisão serviu ao PKK e à causa curda", afirma.

Desde que a retomada do conflito no sudeste da Turquia, o discurso do presidente Recep Tayyip Erdogan sobre os rebeldes curdos endureceu claramente, dissipando qualquer perspectiva de uma solução negociada para o conflito.

Mas, segundo Bozarslan, se a situação mudar e Erdogan decidir retomar o diálogo, "não terá outro interlocutor" que Öcalan.

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