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REFUGIADOS

Entenda a crise dos imigrantes venezuelanos na fronteira com Roraima

Moradores expulsaram pelo menos 1,2 mil imigrantes de território brasileiro após conflito. Pacaraima, a 215 km da capital Boa Vista, tem recebido aproximadamente 800 venezuelanos por dia

23:07 | 22/08/2018
(Foto: AFP / Mauro PIMENTEL)
A crise econômica e política que assola a Venezuela desde 2013 tem tido seus desdobramentos também no Brasil. Para fugir da inflação meteórica, escassez de alimentos e desemprego, milhares de venezuelanos atravessam diariamente as fronteiras para outros países da América Latina. A cidade de Pacaraima, em Roraima, tem sofrido especialmente com o problema. O município pequeno e fronteiriço tem recebido grande quantia dos refugiados, que se espalham pelas ruas, sem condições econômicas de se estabelecerem com dignidade. O conflito entre moradores e imigrantes no último sábado, 18, chamou atenção para o tema após pelo menos 1,2 mil pessoas serem expulsas para o outro lado da fronteira em baixo de paus e pedras. 

O conflito se deu após um comerciante brasileiro ser assaltado e agredido por venezuelanos na noite da última sexta-feira, 17. Segundo a Polícia Militar, Raimundo Nonato de Oliveira, 55, reagiu ao assalto e levou uma paulada na cabeça. A falta de ambulâncias na cidade levou à necessidade de pedir a utilizada pelos militares da Operação Acolhida, que trabalha com os imigrantes venezuelanos no Brasil. O pedido, porém, foi negado, já que o carro estava danificado. A população revoltou-se.

Cerca de mil pessoas atacaram os acampamentos em que venezuelanos estavam morando na BR-174, destruindo barracos e queimando bens. Em meio à correria, cerca de 1,2 mil imigrantes saíram da cidade, deixando para trás poucos pertences e “lares” queimados. Três brasileiros ficaram feridos, 500 pessoas ficaram em atendimento no posto de apoio aos imigrantes, em Roraima, e ninguém foi preso. Durante cinco horas, a BR-174, que liga Boa Vista à cidade, ficou bloqueada com pneus e fogo. 

(Foto: AFP / Isac DANTES)
“A situação dos serviços públicos da cidade deve estar completamente colapsada. As pessoas procuram um bode expiatório, e acabou acontecendo isso com os imigrantes”, considera o professor de ciência política da Universidade Federal do Ceará (UFC), Clayton Mendonça Filho. Segundo ele, o Governo Federal já deveria ter agido na região.

O que deve ser feito
Clayton afirma que o presidente Michel Temer tem sido omisso nas relações internacionais do País desde o início de seu governo. “Somente agora que a situação está bem descontrolada que têm sido divulgadas algumas ações”, ele fala, sobre a questão dos refugiados. O especialista pontua que a relação com organizações como a União de Nações Sul-Americanas (Unasur) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) se encontra enfraquecida, mas que elas poderiam ajudar com o problema.

(Foto: AFP / Isac DANTES)
Para o também membro do Observatório Político Sul-Americano, o Brasil precisa - e já deveria ter começado - fazer uma triagem dos refugiados, distribuindo-os para outros estados e desafogando a situação em Pacaraima. “Os refugiados estão todos em uma cidade com poucos recursos. Outros locais podem absorver melhor essa população”, diz. 

Ele também afirma que o Brasil deveria atuar de forma mais vigorosa na situação interna da Venezuela, não com uma intervenção, mas, pelo menos, com tentativas de mediação. “Enquanto a situação não se resolver lá o número de imigrantes vai continuar alto e crescente”, coloca. Sendo um dos principais destino dos refugiados por ser o país fronteiriço maior e mais desenvolvido, o Brasil poderia estar tentando reverter a situação do país vizinho.

No último domingo, 19, após o conflito, o governo de Roraima pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que a imigração na fronteira seja temporariamente suspensa e que os imigrantes sejam redistribuídos com os outros 26 estados do País. Ainda não se sabe se o pedido será ou não aceito. Em abril deste ano, a governadora do estado, Suely Campos, teve o pedido de que a fronteira fosse fechada negado pela ministra relatora da ação, Rosa Weber.

(Foto: AFP / Mauro PIMENTEL)
Situação que tarda a se resolver
Clayton considera que o número de imigrantes tem aumentado devido à persistência da crise. “Na medida em que essa crise não se solucionou nos últimos anos, pessoas que antes achavam que poderiam permanecer no país agora pensam em migrar”, justifica. “Não é que todos queiram vir para o Brasil porque aqui está mil maravilhas, simplesmente querem fugir da Venezuela”, explica. 

Para ele, a crise na Venezuela e, consequentemente, a imigração em massa, não têm perspectivas para ser resolvida em breve. A pressão econômica e política tem sido ainda maior após a reeleição de Nicolás Maduro em maio deste ano. Os Estados Unidos anunciaram novas sanções que proíbem a compra ou venda de ativos que pertençam ao governo venezuelano nos EUA, algo que afeta, inclusive, os ativos do Banco Central da Venezuela e da petrolífera estatal PDVSA, bases da economia venezuelana. 

(Foto: AFP / Mauro PIMENTEL)
A Organização das Nações Unidas (ONU) contabiliza que cerca de 2,3 milhões de venezuelanos já fugiram do país. Conforme o Governo Federal, quase 128 mil venezuelanos entraram no Brasil por Pacaraima entre 2017 e junho deste ano, ainda que mais da metade tenha deixado o país por voltar para a Venezuela (31,5 mil) ou ir para outros países (37,4 mil). 

Somente de janeiro a junho deste ano, Roraima recebeu mais de 16 mil solicitações de entrada nas fronteira, segundo a Polícia Federal. O número já é 20% maior do que o registrado em todo o ano de 2017, quando foram recebidas pouco mais de 13,5 mil solicitações. Após o pedido do governo de Roraima para fechar temporariamente a fronteira, o número de refugiados que entram por dia por meio de Pacaraima subiu de 500 para 800, segundo o Exército.

HELOISA VASCONCELOS