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"May colocou políticos pró-Brexit para negociar saída da UE"

15:56 | 14/07/2016
Premiê britânica cumpre promessa de delegar negociações com a União Europeia aos partidários da saída, afirma especialista. "Resta esperar para ver como as pessoas vão reagir a Boris Johnson." Com a nomeação de seu gabinete, a primeira-ministra britânica, Theresa May, abriu perspectivas para as negociações sobre a retirada do Reino Unido da União Europeia (UE) mas também surpreendeu com a escolha do político pró-Brexit Boris Johnson para ser ministro do Exterior e, portanto, futuro interlocutor da UE. A DW entrevistou o especialista Gerhard Dannemann sobre as mudanças das relações entre o país insular e o bloco europeu. O jurista alemão é professor de direito, economia e política do Reino Unido, além de dirigir o Centro de Estudos Britânicos da Universidade Humboldt, em Berlim. DW: Que impacto a escolha dos novos ministros britânicos terá nas relações entre o Reino Unido e a União Europeia? Gerhard Dannemann: Theresa May colocou vários partidários do Brexit nos postos mais importantes, que definem a relação do Reino Unido com a União Europeia e também com o resto do mundo. Há David Davis como ministro especificamente encarregado do Brexit, Liam Fox para renegociar os acordos comerciais internacionais, e finalmente Boris Johnson como ministro do Exterior. Foi uma promessa de May que era contra a saída britânica da UE colocar políticos pró-Brexit para liderar as negociações. Assim, eles têm uma posição forte no gabinete, ocupam postos-chave. O tema Brexit tem prioridade na agenda da primeira-ministra? Com certeza, embora ela tenha distribuído de imediato os clássicos postos-chave o Ministério do Interior, o Tesouro [Exchequer] como Ministério das Finanças, o do Exterior e o da Defesa. Em seguida vêm os ministérios suplementares, criados especialmente para o Brexit. O cisma entre os pró e contra Brexit no novo governo continuará atravessando a política britânica? May tentou abordar esse cisma ao anunciar, como política dos Tories, algo que, na verdade poderia integrar o programa eleitoral do Partido Trabalhista: mais atenção aos interesses dos assalariados, introdução da co-determinação administrativa nas empresas algo até agora totalmente impensável no Reino Unido. Ela quer um controle mais forte dos salários dos líderes empresariais e maior tributação dos lucros obtidos pelas empresas na Inglaterra, mas declarados no estrangeiro. Desse modo, quer trazer para o seu lado a população mais pobre, que votou em peso pelo Brexit. Ela quer, obviamente, também evitar que essas pessoas passem de vez para o Ukip [Partido da Independência do Reino Unido, populista de direita], que lucrou muito com a dissidência do eleitorado conservador. Eu também veria isso como um preço que os pró-Brexit em geral, da ala economicamente conservadora devem pagar para realmente ter a saída da UE. O que se sabe das metas políticas de Boris Johnson, além do engajamento dele pelo desligamento britânico da UE? Sabe-se muito sobre Boris Johnson. Um comentarista disse certa vez que se deveria fazer uma lista dos países que ele ainda não ofendeu: ela certamente seria mais curta do que a dos países e políticos que ele já ofendeu. Johnson é um homem das palavras ágeis, pronto a enfrentar muito atrito por o que ele considera uma boa piada. Foi assim que ele já entrou em muita enrascada. Mas não sei o que esperar dele em termos de política externa, em linhas gerais. Um homem como Johnson, que queria ser premiê, vai ficar satisfeito com o posto de chefe da diplomacia? Nas circunstâncias dadas, era o melhor que ele podia conseguir. Para mim está em aberto se ele ainda tem ambições ao cargo de primeiro-ministro. Caso tente novamente, provavelmente vai ouvir que fracassou na última tentativa. É de se esperar que o instigador da saída da UE vá ficar metendo o bedelho no trabalho do ministro do Brexit propriamente dito, David Davis? David Davis é um político muito sério, digno de confiança e que saberá executar essa tarefa de forma sistemática e persistente. Na questão do Brexit, ele tem primazia sobre Johnson, pois essa função foi agora desmembrada do Ministério do Exterior assim como o comércio internacional, que fica meio entre a política externa e a economia. O que sobrou foi o torso de um Ministério do Exterior. Claro que é possível haver tensões, sobretudo se as responsabilidades não forem claramente delimitadas entre si. O que os demais Estados-membros da UE esperam da interação com esses representantes britânicos? Resta esperar para ver como as pessoas vão reagir a Boris Johnson. Ele é o ministro do Exterior, é claro que vão falar com ele. Ele também tem humor e sabe rir de si mesmo, uma habilidade que certamente vai ajudá-lo. Davis é bom por ser confiável, dá para avaliá-lo bem. Ele vai decerto negociar com dureza, mas isso já era de se esperar. Acho que vai dar para se arranjar bem com ele. Liam Fox é mais difícil de julgar. Ele já foi ministro da Defesa, mas por relativamente pouco tempo. Até agora, não havia se destacado no comércio internacional. Autor: Andreas Gorzewski (av)
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