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Abdeslam fica calado perante juízes

13:18 | 20/05/2016
Suposto único sobrevivente entre os responsáveis pelos ataques de Paris invoca direito de permanecer em silêncio no primeiro interrogatório. Autoridades querem informações sobre grupo terrorista e atentados na Europa. Começou nesta sexta-feira (20/05), em Paris, o interrogatório de Salah Abdeslam. O jovem de 26 anos é acusado de participação no pior ataque terrorista da história da França. Em 13 de novembro de 2015, homens-bomba e terroristas armados atacaram cafés, o estádio de futebol Stade de France e a sala de concertos Bataclan durante uma apresentação da banda Eagles of Death Metal. O massacre deixou 130 pessoas mortas e 350 feridas, algumas gravemente. Investigações indicam que Abdeslam teria participado na logística dos atentados. Ele é acusado de ter alugado um veículo e de ter conduzido os agressores até os locais dos ataques. Considerado o último sobrevivente do grupo responsável pelos atentados de Paris, Abdeslam pode oferecer importantes respostas às autoridades francesas. Mas, em seu primeiro dia perante juízes de instrução, ele se recusou a falar. O advogado de Abdeslam, Frank Berton, afirmou à emissora francesa BFMTV que seu cliente invocou o direito de ficar em silêncio. "Ele não quis dar uma declaração hoje", disse, acrescentando que Abdeslam dará uma declaração futuramente, sem especificar uma data. O réu está detido na prisão de Fleury-Merogis, num subúrbio ao sul de Paris, em isolamento e sob vigilância 24 horas. Nesta sexta-feira, ele foi levado a um tribunal no centro da capital francesa sob forte esquema de segurança. No entanto, como Abdeslam se recusou a falar durante o interrogatório, a sessão terminou abruptamente. Abdeslam possui a nacionalidade francesa e vem de uma família com raízes marroquinas. Ele cresceu no distrito de Molenbeek, em Bruxelas, que é considerado um reduto de islamitas. Seu irmão, Ibrahim Abdeslam, é um dos terroristas de Paris. Ele se explodiu próximo a um café, matando um transeunte. Salah Abdeslam também deveria ter cometido um ataque suicida, mas ele mudou de ideia na última hora e jogou seu cinto de explosivos numa lata de lixo, ainda em Paris. Quando o equipamento de detonação foi encontrado, impressões digitais colocaram a polícia no encalço dele. "Inteligência de um cinzeiro vazio" O que é sabido até então sobre a vida de Abdeslam mostra uma longa cronologia sem indícios de radicalização, mas constantes conflitos e problemas sociais. Ele perdeu seu emprego como mecânico na companhia de transportes de Bruxelas devido a ausências frequentes e chamou a atenção de colegas pelo consumo de drogas e por furtos. Pessoas do círculo de convivência de Abdeslam o descreveram como discreto, educado e não agressivo. Interesses: carros e futebol. Já o seu advogado belga, Sven Mary, o descreveu como uma "mente simples". Em entrevista ao jornal francês Liberation, Mary foi mais enfático: em suas declarações, Abdeslam mostra um "vazio abissal" e "a inteligência de um cinzeiro vazio". Uma provável intenção do advogado é mostrar que Abdeslam não estaria apto a planejar atentados como os de Paris, o que resultaria numa pena mais leve para ele. Erros constrangedores nas buscas O fato de Abdeslam ter sido capturado vivo foi classificado pelo ministro do Interior da França, Bernard Cazeneuve, de uma "vitória sobre o terrorismo na Europa". Depois das muitas e inacreditáveis falhas na operação de busca, a detenção até parece um milagre. Evidências dos investigadores belgas indicam que ele fugiu ainda na noite dos ataques. Ele ligou para dois amigos na Bélgica e pediu que eles o levassem o mais rápido possível de Paris até Bruxelas, o que de fato ocorreu. Na rota de fuga, Abdeslam e seus passageiros foram controlados três vezes pela polícia. Num dos controles, eles chegaram a admitir que fumaram maconha após terem sido questionados sobre uso de drogas. No entanto, a polícia apenas averiguou os documentos de identificação e até recebeu de Abdeslam seu endereço residencial em Molenbeek. Mas tudo parou por aí. Somente em 18 de março, investigadores conseguiram fechar o cerca a Abdeslam. Ele foi preso na rua Verwindenstraat, a poucas centenas de metros da casa de seus pais no distrito de Molenbeek. Momentos antes havia encomendado pizzas por telefone. A grande quantidade de pizza para um apartamento onde, oficialmente, apenas uma mulher estava registrada chamou a atenção da polícia. Depois de ter ouvido o pedido suspeito de pizza, feito num telefone grampeado, a polícia interveio. E, após uma breve troca de tiros, Abdeslam foi dominado pelas forças de segurança. "Nós o pegamos." Com essa breve mensagem no Twitter, o secretário belga para Asilo e Imigração, Theo Franken, anunciou, orgulhoso, a prisão de Abdeslam. Naquele momento, a investigação e a vigilância de supostos cúmplices dos ataques de Paris estava há dias intensificada e estreitamente organizada, com apoio da Interpol. Durante a detenção, uma nota caiu do bolso da calça de Abdeslam. O que estava escrito nela? Indicações de planos de outros atentados? Uma lista com outros terroristas na Europa? O conteúdo ainda não foi divulgado. Inicialmente, Abdeslam permaneceu sob custódia na cidade belga de Bruges. Por fim, foi extraditado para a França no fim de abril. A rede de Abdeslam Um dos principais objetivos das investigações e do processo criminal contra Abdeslam é descobrir o tamanho da rede de simpatizantes da organização extremista "Estado Islâmico" (EI) na Europa. Segundo o investigador-chefe belga, Frederic Van Leeuw, evidências indicam que Abdeslam estava planejando novos ataques na Bélgica, o que ele teria admitido durante um inquérito inicial. Além disso, muitas armas pesadas foram encontradas em sua residência. A Justiça francesa quer esclarecer também quais as razões para as várias viagens de carro de Abdeslam para Budapeste, na Hungria, e para Ulm, no sul da Alemanha. Segundo investigações da Interpol, as estadas duraram apenas 40 minutos. Em Ulm, Abdeslam pegou três homens que estavam num abrigo de refugiados e os levou para Bruxelas. Essa informação foi confirmada pelo Ministério Público da Alemanha. Investigadores na França, e também as famílias das muitas vítimas, esperam por declarações esclarecedoras do réu Abdeslam. Autor: Wolfgang Dick (pv)
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